Filipinas: americans go home.

A segunda independência das Filipinas aconteceu em 1946, após a 2ªGuerra Mundial, quando foram expulsos os japoneses que ocupavam as ilhas.

Desde então, os filipinos foram fiéis seguidores dos EUA.

Relações estreitas uniram os dois países, alicerçadas por coisas como o apoio incondicional de Manilha à política externa de Tio Sam; o envio, em 2002, de tropas americanas para ajudar no combate a guerrilhas ligadas à al Qaeda, que permanecem até hoje; a dependência do país aos armamentos made in USA.

Agora, esta, sólida, digamos, amizade está ameaçada.

Tudo começou com a eleição em junho de Rodrigo Duterte para presidente.

Para ele, o narcotráfico era o inimigo número 1, muito pior do que os rebeldes islâmicos, agindo na ilha de Mindanao, no Sul do arquipélago.

Na campanha eleitoral, prometeu erradicar essa autêntica praga de forma absolutamente devastadora.

Foi com ameaças deste calibre que ele ganhou o apoio do seu povo: Se você tem ligação às drogas, vou te matar, não leve isso como uma piada. Eu não estou tentando fazer você rir, filho da puta, eu realmente vou te matar”.

Eleito presidente, Duterte não perdeu tempo em ordenar à polícia que liquidasse os narcotraficantes. E foi mais além. Apelou também para o público: “Por favor, sinta-se livre para nos contatar, ligar para a polícia, ou fazê-lo por si próprio, se tiver uma arma. Você tem meu apoio. ”’

Diante dessa “licença para matar”, formaram-se grupos dos chamados “vigilantes”, indivíduos loucos para fazer justiça pelas próprias mãos.

E, em apenas dois meses, a Polícia Nacional Filipina orgulhosamente anunciou que já havia exterminado 1.499 suspeitos de tráfico de drogas, sendo que mais 1.490 tiveram o mesmo destino pelas mãos de grupos de vigilantes.

Execuções extrajudiciais são violações dos direitos humanos, agravadas porque suspeitos nem sempre são culpados e nessa fúnebre conta filipina deve haver muitos inocentes.

O embaixador dos EUA nas Filipinas pediu moderação.

Irritado, Duterre o chamou de “gay filho da puta”.

O presidente Obama deixou passar essa infração às normas da etiqueta diplomática.

Mas manifestou também sua preocupação pelos direitos humanos no país.

E Duterre respondeu, simplesmente aplicando a ele o seu já habitual “filho da puta”, o que não é um modo normal de súditos se dirigirem ao rei.

Claro, ele se apressou em explicar que não era nada de pessoal, uma forma de expressão, Obama não deveria levar a mal.

Alguns dias depois, provou-se que não se tratava de mero destempero verbal de um desabrido presidente.

Em solenidade pública, Duterte declarou que as forças amigas dos EUA precisavam retirar-se da ilha de Mindanao.

Pelo bem delas, afirmou o solícito Duterte, pois seus soldados corriam risco de vida.

“Se eles (os filipinos) vem americanos, eles os matarão. ”

E o motivo prende-se ao fim da guerra hispano-americana, em 1898, quando o governo de Madri, derrotado, teve de ceder as Filipinas aos EUA.

Os patriotas do país, que há anos estavam lutando contra o domínio espanhol, acreditavam que a grande nação democrática os libertaria.

Cheios de confiança, declararam a independência da Filipinas.

Estavam errados, tinham deixado de ser colônia espanhola para se tornar colônia americana.

Logo em 1898, pegaram em armas contra o novo opressor.

Depois de três anos de combates, os EUA venceram.

Durante a luta, os invasores praticaram uma série de crimes de guerra – torturas, assassinatos, estupros.

200 mil civis filipinos morreram, além de 20 mil revolucionários (Office of the Historian).

Duterte exibiu uma série de fotos da época, mostrando mulheres e crianças que teriam sido mortas pelos soldados de Washington.

Daí o ódio aos americanos, passado de geração para geração.

Portanto, concluiu o presidente filipino, ”Eles (os soldados) tem de sair de Mindanao. Eu não  quero  um conflito com a América, mas eles tem de  ir  embora.”

Os estadistas da Casa Branca ainda não tinham engolido esta pílula amarga, quando veio outra ainda menos digestiva.

O surpreendente Duterre anunciou em discurso televisionado uma mudança na política internacional do país: ”Nós não vamos cortar nossas alianças, mas certamente seguiremos uma postura internacional independente, uma política internacional independente. ”

E o primeiro passo desta nova orientação seria retirar-se das patrulhas do mar da China, lideradas pelos EUA, pois “não queremos problemas porque não quero que meu país se envolva numa ação hostil. ”

Foi uma virada, o governo de Manilha optava por uma posição neutra entre EUA e China.

Felizmente não estamos nos tempos de Bush e o seu célebre “quem não está conosco, está contra nós. ”

Obama é bem mais flexível.

Não sei até que ponto.

Quando surgiram problemas entre a China de um lado, e o Japão, Filipinas e Vietnam, do outro, disputando a propriedade de diversas ilhas no mar da China, Obama viu uma grande oportunidade.

Iria mostrar que também o Sul da Ásia estava sob o controle do excepcionalismo americano.

Enviou uma frota, integrada por navios de guerra americanos, japoneses, filipinos e vietnamitas para patrulhar a região.

Era uma forma de firmar a liderança americana entre os países da região e de impor respeito à China.

A deserção das Filipinas vai ser sentida, reduzir o peso da aliança montada pelos EUA, afinal trata-se de um país com mais de 100 milhões de habitantes.

Mas Duterte veio com uma nova iniciativa audaciosa.

Deu um passo em direção ao “outro lado. ”

Veja como foi.

Desde 1950, 75% dos armamentos filipinos vinham dos EUA.

Agora, o país irá comprar armas “onde elas forem baratas e onde não acarrete obrigações (ligadas ao negócio) e haja transparência. ”

Parece uma crítica indireta ao tipo de negócios com os EUA. O que Duterte demonstra ao desprezar claramente armamentos fornecidos pelos EUA: ”Vamos nos contentar com aviões a hélice mas que possamos usar extensivamente contra a insurgência. Eu não preciso de jatos F-16 – não temos uso para eles- não pretendemos lutar contra nenhuma nação.”

Mostrando que não estava brincando, Duterte anunciou que seu ministro da Defesa estava de partida para a China e a Rússia para ver “o que há de melhor. ”

E para completar as informações desagradáveis para o governo Obama, soube-se que Rússia e China já haviam concordado em conceder empréstimos de 25 anos, em condições de pai para filho.

Esses fatos indicam que mais uma pomba se vai do pombal americano.

E, por sinal, importante.

A política americana no Sul da Ásia, de intimidação da China, perde força.

Em última análise, as Filipinas estão dando sinais de que pretendem sair da constelação americana, optando por um voo solo.

Se Duterte de fato cumprir o que promete, será o fim do pronto apoio filipino aos EUA nos vários fóruns internacionais.

E o que é mais sério: essa neutralidade deve ser garantida pela China, acolitada pela Rússia, o maior inimigo dos EUA, segundo o Pentágono e a (fortíssima) direita americana.

O tradicional expediente para trazer ovelhas rebeldes de volta ao rebanho, acenando com os dólares que elas precisam, desta vez não vale muito.

A China também tem muito dinheiro.

Para manter seu quintal incólume, desmanchando a aliança regional montada pelos EUA, deve estar disposta a toda sorte de generosidades.

E as Filipinas poderão celebrar sua terceira independência.

Há uma consolação para os EUA.

Esta briga que se desenha contra Duterte, foi detonada por uma posição americana pró-direitos humanos.

A qual não tem sido exatamente normal no cenário da política internacional do planeta.

 

 

 

                                                                                           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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