As negociações, por um fio.

A um mês do prazo final das negociações entre israelenses e palestinos, pouco ou nada se conseguiu.

Desconfia-se que nem se chegou a discutir a maioria das principais questões.

Israel criou atritos previsíveis, quando continuou a expandir seus assentamentos.

Chegou a instalar novas unidades, até mesmo em territórios que, oficiosamente, havia concordado em deixar sob soberania do novo estado palestino.

E  agora nega-se a libertar os 104 prisioneiros da última leva prometida em troca da promessa dos palestinos não irem ao Tribunal Criminal Internacional para denunciar os assentamentos.

É um motivo mais do que suficiente para os palestinos declararem encerrado o processo de paz.

John Kerry, o secretário de Estado, está fortemente empenhado em evitar esse desfecho.

Os israelenses recusam-se a soltar os prisioneiros, enquanto  os palestinos não aceitarem o adiamento das negociações.

Kerry insiste na necessidade de adiar, dar mais tempo para que se chegue à sonhada “solução dos 2 estados independentes.”

Talvez estender as negociações até dezembro.

Por enquanto, os palestinos estão irredutíveis.

E tem suas razões.

A partir de julho, quando  as partes começaram essa discussão da paz, as forças armadas de Israel já mataram 34 palestinos e feriram 1.553. E o governo de Telaviv  já aprovou a construção de 10.509 unidades residenciais em assentamentos ilegais, em território palestino.

Ninguém garante que Netanyahu irá parar de expandir os assentamentos e seu exército de matar e ferir palestinos, sob pretextos vários.

O premier israelense, é lógico, tem todo interesse em prolongar as discussões por muitos e muitos meses.

Quanto maior o prazo, mais tempo ele terá para construir tranquilamente novos assentamentos, tornar fait accompli  a ocupação de áreas cada vez maiores de territórios palestinos. Sem que os palestinos recorram à justiça internacional.

Por sua vez, Kerry sabe que se o prazo não for estendido, o fracasso será inevitável. Daí seu empenho em convencer as duas partes: Netanyahu a fazer concessões, Abbas, o presidente da Autoridade  Palestina, a aceitá-las.

Para dobrar os israelenses, o secretário de Estado americano teria oferecido a libertação de Jonathan Pollard.

Trata-se de um espião judeu-americano que revelou segredos militares dos EUA a Israel.

Condenado à prisão perpétua, ele se tornou um herói nacional israelense. Constantemente, governo e personalidades de Israel tem feito apelos para que vários dos presidentes dos EUA o libertassem.

Até agora, nenhum topou, nem mesmo Obama.

O serviço secreto, o Pentágono e o FBI sempre se opuseram terminantemente.

Pollard solto deixaria os nacionalistas de direita de Israel dando pulos de alegria. Seria visto como uma grande conquista de Netanyahu, que lhe daria força para fazer concessões normalmente malvistas pela opinião pública.

Assim fortalecido, o premier estaria disposto a oferecer em troca do adiamento a libertação de 420 prisioneiros, á sua escolha.

Admite-se que seriam, em sua maioria, velhos, adolescentes, doentes, mulheres e… Marwan Barghouti.

Este último poderia, sim, pesar na balança.

Barghouti é o político de maior prestígio junto a todos os grupos políticos palestinos, tanto na Cisjordânia, quanto em Gaza.

Ele foi condenado à prisão perpétua sob acusação de participação na organização de atentados que fizeram 4 vítimas israelenses.

Ele nega, embora admita o direito do povo palestino de defender-se pelas armas.

Sustenta que através de negociações entre as partes jamais se conquistará a independência da Palestina.

Mas também condena a luta armada por ineficaz e sem chance contra um inimigo muitas vezes mais poderoso.

Barghouti é chamado “o Mandela palestino.”

Como o grande líder africano, ele defende a resistência civil, que considera a única saída para os palestinos conseguirem sua independência.

Isso significa negar qualquer colaboração com Israel-, incluindo o fim da Autoridade Palestina, que prende insurgentes palestinos e cobra tributos para os israelenses- passeatas de protesto freqüentes, denúncias das violências do governo e do exército de Israel na imprensa e nas organizações internacionais, atuação no movimento Boicote Israel.

E processar o governo de Telaviv no Tribunal Criminal Internacional pelos assentamentos ilegais e crimes contra os direitos humanos.

Visto como um político moderado, que realmente deseja a paz com Israel, Marwan Barghouti  é respeitado até por adversários.

Shimon Peres, o presidente de Israel, declarou que assinaria o perdão para          Barghouti.

Se, de fato, Netanyahu oferecer a liberdade do líder palestino em troca do adiamento das negociações de paz, é bem possível que Abbas aceite.

Desde, é claro, que seja dado um stop na criação de novos assentamentos.

Tudo isso, porém, são conjecturas.

Se nada mudar, ficará provado que os palestinos tinham razão quando optaram por pedir seu reconhecimento à ONU.

Do que depender de Israel não dá.

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