Na França, o socialismo vira o jogo.

Numa Europa onde a direita vem ganhando todas, o socialismo está perto de uma grande vitória eleitoral.

 

Nas pesquisas presidenciais francesas,  seu candidato, François Hollande vem ganhando sempre.

Na última, em 2 e 3 de fevereiro, ele conseguiu 34% das preferências, contra 26% de Sarkosy  e 16% de Marine Le Pen.

A vantagem do socialista deve-se em grande parte ao desprestígio de Sarkosy e ao fato dele ser governo, o que a população do Velho Continente costuma considerar o culpado pela crise.

Embora lhe faltando características carismáticas,  Hollande é um político pragmático e sincero, qualidades que agradam ao eleitorado, em geral.

Ele teve coragem de comprometer-se com um balanço equilibrado no fim do seu mandato presidencial, ideia bastante impopular, particularmente no seu partido.

Entre seus companheiros, Hollande é considerado um político moderado, de “esquerda suave”, como o descreveu sua rival nas prévias do Partido Socialista, Martine Aubry.

No entanto, suas ideias são ousadas e originais. Muito diferente das habituais promessas de grandes projetos e avanços sociais, típicas dos candidatos socialistas europeus.

De saída, Hollande declarou que tirar a França da crise econômica exigiria muitos sacrifícios, só que, no seu governo, os ricos é quem seriam os mais sacrificados.

Depois de afirmar que “meu real adversário nesta campanha é o mundo das finanças”¸Hollande lançou um manifesto, em fevereiro, no qual mostrava como enfrentaria a crise.

As medidas básicas propostas com esse objetivo são aumentos das taxas cobradas aos bancos, das grandes empresas e das grandes fortunas para, usando o dinheiro assim obtido, acabar com o déficit público.

Com os 29 bilhões de euros que os 5% mais ricos deixam de pagar, graças às isenções de impostos de Sarkosy, haveria dinheiro para enfrentar a corrosão da sociedade francesa, ou seja, o desemprego recorde, as estatísticas dramáticas de jovens sem trabalho e um sistema de educação, considerado um dos mais desiguais da Europa, de onde uma em cada seis crianças saem sem qualificações.

O plano de Hollande foca nessas áreas, prometendo criar 60  mil novos empregos nas escolas e 150 mil empregos subsidiados para jovens.

Os bancos seriam forçados a separar operações financeiras especulativas no mercado, das funções mais tradicionais, usando os depósitos dos clientes para financiar a indústria e a economia. A respeito disso, ele comentou que o dinheiro seria colocado no seu lugar certo “como um empregado, não como um patrão.”

Hollande pretende ainda elaborar um movo pacto franco-alemão e renegociar o recente tratado europeu para tirar a União Europeia da crise.

Em matéria de política internacional, as mudanças devem ser significativas. A França não será mais um fiel seguidor dos EUA. A proposta de retirada imediata das tropas francesas do Afeganistão, é um sinal evidente de que com Hollande, a França voltará a ter uma política independente na área internacional.

O que é ótimo para os palestinos que poderão contar com um voto positivo da França  ao seu pedido de reconhecimento ao Conselho de Segurança da ONU.

A esta ofensiva de ideias  renovadoras, o partido de Sarkosy reagiu afirmando que Hollande “causaria um banho de sangue na classe média.”

Por sua vez, Sarkosy tem estado quieto, afinal as eleições serão em abril e maio, e ele espera uma hora mais favorável para lançar sua candidatura.

Por enquanto, ele tem fortalecido suas armas de campanha, a grande mídia com quem ele estreitou relações durante seu mandato. Todas as redes de televisão e a maioria das principais redes radiofônicas e jornais estão com ele. Mesmo as poderosas TVs públicas deverão ser usadas na campanha, pois Sarkosy já adquiriu seu controle, via uma de suas leis que virtualmente, restauram o poder do Executivo sobre elas.

O governo de Sarkosy está sendo marcado pelo oportunismo.

Em 2007, ele pregava a desregulamentação dos mercados financeiros, defendia as hipotecas de imóveis, estimulava as famílias a se endividarem.

Hoje, quando o vento sopra de outro lado, ele prega regulamentações e controles do mercado financeiro, cuja liberdade sempre defendeu.

Seus adversários acusam-no pelo desmantelamento do papel do Estado na gestão e co-gestão de políticas públicas; pelo desperdício do dinheiro do povo, através de isenções de impostos sobre a riqueza, a renda e a herança.

Para procurar se reposicionar como “um político moderno, que pensa no povo” ele lança um pacote de reformas, das quais a “pièce de resistence” é um aumento nas taxas sobre as vendas para atender aos custos sociais.

Demonstrando sua capacidade de surpreender, Sarkosy convidou Ângela Merkel, premier da Alemanha, a participar de sua campanha.

Quem tem mostrado também criatividade é Marine Le Pen, a candidata da Frente Nacional, o partido de extrema-direita da França. Em vez dos brutamontes (com jeito de SS) os seguranças da campanha eleitoral do seu pai, ela prefere usar garotas de camiseta tee-shirt e jeans.

Dispensou também as suásticas, fotos de Hitler, tambores e saudações germânicas.

Mas as ideias pouco diferem de Jean-Marie Le Pen, o fundador da sigla, enfatizando as barreiras contra a imigração.

O jornal Le Monde descreveu o programa econômico de Marine Le Pen “estatísticas irreais e uma real ameaça”.

Faz 17 anos que um líder socialista não é eleito Presidente da França.

Por que o calmo e sem carisma François Hollande conseguirá, quando tantos fracassaram?

Hollande responde,  citando Shakespeare: ‘Eles falharam porque não começaram com um sonho.”

 

Luiz Eça

www.olharomundo.com.br

9/2/2012

 

 

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