De repente, a Turquia.

Nos últimos anos, a Turquia passou de uma posição periférica na arena internacional a um papel de protagonista, admirada como modelo a ser seguido pelos países da Primavera Árabe.

 

No começo dos anos 20, o império turco-otomano estava em completa decadência que, aliás, vinha de longe. Como aliado da Alemanha fora derrotado na 1ª. Grande Guerra e perdeu todo o seu território europeu, com exceção de Istambul, além da Síria, Líbano, Palestina e Mesopotamia, entregues à França e à Inglaterra, como protetorados.

Em 1923, o Império Otomano foi dissolvido oficialmente e proclamada a República da Turquia no território remanescente.

Em 1924, Kemal Ataturk tornou-se o primeiro presidente e iniciou uma série de reformas cujo objetivo era tornar a Turquia um país moderno e secular.

Como na época, o Ocidente estava séculos adiantado em relação ao Oriente, Ataturk tomou suas instituições como modelo.

O código civil turco baseava-se no código civil suíço e o código penal, no italiano.

Foi estabelecida a igualdade entre os sexos e as mulheres ganharam o direito de voto, de que não dispunham em muitos países europeus.

Embora o islamismo fosse a religião oficial do país, Ataturk fez questão de impor um caráter secular ao estado, vetando a participação dos clérigos na política. A educação passou a ser estatal e as  escolas islâmicas foram proibidas.

Em 1945, a Turquia tornou-se uma democracia, interrompida diversas vezes nas décadas seguintes por golpes militares, que instauraram curtos regimes repressivos. No último, em 1997, os militares não assumiram o poder, mas exigiram uma série de medidas para assegurar o secularismo de Ataturk contra possíveis tentativas de islamização do governo.

Durante a Guerra Fria, temendo a União Soviética, que insistia na concessão de bases no país, os turcos entraram na OTAN e tornaram-se fiéis seguidores da política externa americana.

Posteriormente, o país aproximou-se  da Europa, filiando-se a diversas organizações do continente.

No entanto, seu pedido para tornar-se membro pleno da Comunidade Europeia ainda não foi aceito, pois considerou-se que a democracia do país precisaria ser aprimorada.

A Turquia chegou ao século 21 muito mais próxima do Ocidente do que dos países islâmicos.

Mostrou-se sempre favorável à

independência da Palestina, mas mantinha relações amigáveis com Israel. O exército turco chegou a realizar manobras conjuntas com o exército israelense.

Até então a política externa turca alinhava-se sempre à dos EUA.

As coisas começaram a mudar em 2003, quando o governo turco manifestou-se contra o ataque ao Iraque e recusou-se a enviar soldados para integrar as “forças de paz.”

Nos anos seguintes, a Turquia firmou-se como um player na política internacional.

Depois de condenar severamente o ataque israelense a Gaza, no massacre da Flotilha da Liberdade rebaixou ao mínimo sua representação diplomática em Israel. Exigiu desculpas e reparações do governo de Telaviv às vitimas turcas. Diante da negativa, expulsou o embaixador israelense. Toda a cooperação militar com os judeus foi suspensa.

Nos fóruns internacionais, o governo turco passou a ser um dos mais decididos defensores da independência da Palestina. Mais uma vez contrariando os EUA, recebeu como convidado especial Haniyeh, o primeiro ministro de Gaza, governada pelo Hamas, que os americanos e israelenses rotulam de movimento terrorista.

Na questão nuclear iraniana, o governo turco, juntamente com o brasileiro, propôs uma solução que, embora anteriormente aceita por Barack Obama, não foi sequer considerada.

Mas os turcos não deram por encerrada sua atuação nessa questão. Constantemente, vem criticando tanto as sanções, quanto a ideia do ataque militar, exigindo negociações diplomáticas.

Recentemente, na Conferência da Organização de Cooperação Islâmica, em Doha, o representante turco declarou enfaticamente que, “apesar da retórica”, não há evidências da existência de um programa nuclear militar iraniano.

Num desafio às proibições americanas, o governo de Ancara declarou que continuará importando petróleo do Irã. E mais: prevê que, o volume de transações entre Turquia e Irã, que hoje chega a 15 bilhões de dólares anuais, dobrará até 2015.

Os regimes islâmicos que chegaram ao poder durante a Primavera Árabe, vêm a Turquia como um modelo a ser seguido: um país inspirado nos princípios islâmicos, porém, secular. Que concilia democracia com progresso econômico – em 2010, atingiu um crescimento de 8,9%, sendo que nos primeiros 9 meses de 2011 cresceu 9,6%.

Numa pesquisa da Fundação de Estudos Sociais e Econômicos Turcos, realizada no Oriente Médio, 80% dos respondentes disseram ter uma visão favorável da Turquia.

Apesar de constituir-se hoje num campeão das causas do mundo islâmico, o país de Ataturk mantém uma política externa rigorosamente independente, de acordo com seus valores éticos e interesses.

Depois de tentar, sem êxito, convencer o governo de Bashar Assad à conciliação, acabou voltando-se contra ele, devido às violências cometidas contra a população.

E a Síria vinha sendo um grande aliado da Turquia.

Outro aliado que ela desgostou foi o Irã, quando aceitou que a OTAN instalasse uma barragem de radares, parte do escudo anti-míssil, destinado à proteção dos países-membros. Contra ataques do Irã, diz a OTAN, contra  ataques do leste, dizem os turcos, não importa de que país partirão.

Mas, como nada é perfeito, o regime turco também tem seus pontos negativos.

A oposição vem sendo tratada de maneira bastante dura.

‘O número daqueles que enchem as prisões devido a suas ações e ideias oposicionistas e daqueles que estão sofrendo processos é crescente”, acusa o professor universitário Ahmet Insel, no jornal Radikal.

Pelo menos 70 jornalistas e escritores foram presos por criticas ao governo, segundo grupos de direitos humanos.

No entanto, comparando com outros países do Oriente Médio, a Turquia avançou muito mais no caminho da democracia.

 

 

 

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