Já não se fazem heróis como antigamente

Multidões nas ruas noite e dia exigindo anulação de eleições corruptas, lideradas por um candidato defensor da democracia. Lutando pela liberdade contra sinistros sobreviventes da era soviética, que submetem a Ucrânia a um regime despótico.

Em suma : uma luta entre o Bem e o Mal.

Essa a imagem passada pela internet, TVs e jornais para o mundo. Que pouco tem a ver com a realidade. Na crise ucraniana, “ninguém” é mocinho, embora todos tenham algo de “bandido”.

Os dois candidatos representam antigas lideranças estalinistas, que enriqueceram fabulosamente na desestatização da economia soviética, assumindo o controle dos principais setores, através de métodos escusos.

Yanukovich, atual primeiro ministro, promete que irá aprofundar a presença do Estado na economia e aumentar a aproximação com a Rússia. É o candidato dos grupos dominantes, dos senhores da indústria pesada.

Assim como ele, Yushchenko, seu adversário, também é um filho do crony capitalism (capitalismo “camarada”), do establishment econômico russo-ucraniano. Presidente do Banco Central em 1990, Yushchenko estabeleceu boas relações com bancos europeus e americanos, preciosas para ajudá-lo a defender o rublo. Isso fortaleceu sua posição junto aos oligarcas ucranianos e ele foi nomeado primeiro-ministro, em 1999. Mas, ao favorecer a penetração dos interesses ocidentais, Yushchenko entrou em choque com seus protetores. E foi afastado.

Sua gestão no Banco Central foi marcada por um escândalo nas negociações com o FMI. Através da falsificação de dados, a instituição internacional foi levada a efetuar três desembolsos em vez de um como deveria, como foi constado por auditoria da PriceWaterhouseCoopers.

E o que aconteceu com esse dinheiro?

Para Lazarenko, o primeiro-ministro que sucedeu a Yushchenko, 613 milhões do volume total foram lavados, fato que causou sua prisão na Suíça. Ele conseguiu fugir para os Estados Unidos, ali sendo preso sob acusação de suborno.

Lazarenko foi o responsável pelo espantoso enriquecimento de Julia Timoshenko. Líder da campanha de Yushchenko, ela tem aparecido com destaque na TV, clamando por democracia e exigindo o fim da corrupção. O que não é coerente, pois foi devido a práticas desse tipo que ela se tornou bilionária.

Quando primeiro-minsitro, Lazarenko criou um sistema de monopólios de gás para fornecer às indústrias ucranianas. Uma das principais beneficiárias deste sistema, foi uma empresa fundada e dirigida por Julia, a United Energy System.

Diz Matthew Brzezinski (ex-assessor de segurança do governo Clinton) que Julia, graças à “proteção” de Lazarenko, ganhou controle sobre quase 20% do produto nacional bruto da Ucrânia. Acusada de pagar comissões a seu benfeitor, o que Brzezinski confirma, ela tem um prontuário policial respeitável com prisão por corrupção em fevereiro de 2001 e diversos processos pelo mesmo motivo tanto na Rússia quanto na Ucrânia.

Aliada a Yushchenko, Julia Timoshenko fundou a aliança “Nova Ucrânia”, que prega a abertura da economia para o capitalismo ocidental, privatizações maciças e a entrada da Ucrânia na NATO. Além de ter por si os grupos econômicos ucranianos pró-ocidente, a oposição conta com o apoio do mega financista George Soros. Vislumbrando bons negócios no esfacelamento do império soviético, George Soros atua na Ucrânia desde 1990, aplicando 10 milhões de dólares anuais através da sua fundação Open Society Institute, supostamente para “desenvolver a economia, a cultura e a democracia”. Em 1995, em entrevista ao New York Times, Soros reconheceu sua ingerência no país. Provada pela nomeação de alguns dos seus seguidores como Oleg Havrylyshin, vice-ministro das finanças, e George Yurchyshin, vice-diretor do Banco da Nação. Nesta eleição, ele passou para o lado da oposição que postula idéias favoráveis a seus interesses. Como também aos do governo Bush. Afinal, numa Ucrânia governada por Yanuchovick, haverá bases militares da NATO a pouca distância do Kremlin. O oleoduto que leva petróleo do Cáucaso para o Ocidente, hoje controlado pelos russos, passará para autoridades afetas aos Estados Unidos. E a Rússia tenderá a perder sua influência na Ucrânia, com quem mantém operações comerciais no valor de 20 bilhões de dólares. O mercado ucraniano, com 47 milhões de habitantes, poderosas indústrias pesadas e químicas e vastos campos de trigo não é nada desprezível.

Os americanos já conseguiram penetrar no quintal da Rússia, em países ao longo de suas fronteiras sul e oeste. Na Geórgia, Uzbesquistão e Quirguistão, centenas de oficiais do seu exército treinam tropas locais no uso de equipamentos americanos. Isso esbarra nos planos de Putin de recriar a Rússia potência mundial, com aqueles países mais a Belarus gravitando ao seu redor. Ele tem trunfos para manter relações privilegiadas com a Ucrânia. 83% das indústrias de alumínio do país são de propriedade russa e 4/5 do petróleo e do gás é importado da Rússia.

Apesar do que afirma sua propaganda, Yushchenko está longe de ser um herói da democracia. Yanuchovick não é muito diferente. Ambos representam interesses econômicos e políticos que não são exatamente “do bem”. Difícil dizer com segurança quem ganhará as eleições de 26 de dezembro. Uma coisa é certa: não será o povo.

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