Israel: entre o centro-direita e a extrema-direita.

Depois da inesperada informação da comissão eleitoral, corrigindo o resultado que havia fornecido, Netanyahu ficou em posição melhor no próximo Knesset (parlamento de Israel).

Ele terá apoio suficiente da direita e da extrema- direita para poder governar.

Mas não é uma posição sólida: uma maioria de apenas 2 votos é sempre perigosa.

O ideal para ele será ter o apoio tanto dos ultra- religiosos, quanto do partido de centro do astro de TV, Lapid. O que lhe daria um total de 80 votos.

Isso parece complicado.

Os partidos radicais ortodoxos, o Shas e o United Torah Judaism, não vêm com bons olhos a entrada do partido de Lapid, o Yesh Atid, na coligação governista.

Tanto que decidiram unir-se numa frente comum para, com seus 18 deputados, enfrentarem os 19 do Yesh Atid, na disputa pelas melhores posições no novo governo.

Eles tem suas razões.

Sendo o secularismo a ideologia dos partidários de Lapid, eles defendem o fim dos privilégios de que gozam os ultra- ortodoxos, como isenção do serviço militar, por exemplo.

A plataforma eleitoral do Yesh Atid afirma:”Trabalhar para promover o casamento civil, inclusive entre parceiros do mesmo sexo, e retificar a desigualdade nas leis da família (que colocam a mulher em plano inferior)”.

Na sua página do Facebook, Lapid escreveu:”Enquanto a exclusão ds mulheres for preocupante, não pode haver compromisso nem negociação.”

Com tais posições, os secularistas do Yesh Afit entram em conflito direto com os ultra- ortodoxos do Shas e do Uniteh Torah Judaism, que defendem ideias exatamente opostas.

Seria muito difícil para os três partidos conviverem pacificamente na coligação do novo governo Netanyahu.

Meir Porush, do United Torah Judaism, percebeu isso com clareza ao declarar jornal israelense Maariv: “Se eles (o Yesh) tentarem pressionar os Haredim (judeus ultra-ortodoxos), então nós estaremos caminhando para um profundo rompimento.”

O pessoal de Lapid também tem sérias divergências com o partido de Benett, o líder dos assentamentos, provável aliado de Bibi.

Yael German, deputada eleita pelo Yesh Atid afirmou no Canal de TV 2, de Israel, que acabar com a isenção de serviço militar dos ultra- ortodoxos não é o único dos objetivos básicos do seu partido.

“Nós insistiremos na igualdade do serviço militar, mas também insistiremos no começo imediato das negociações de paz, não apenas para simplesmente entrar em negociações, mas para buscar um acordo final com os palestinos”.

Se depender de Benett, nada feito, pois não cogita de criar condições para que os palestinos sequer topem sentar-se com os judeus à mesa das negociações.

Seu partido, não só insiste em manter todos os assentamentos, como também na criação de novos e em grande número.

No fim, dá para sentir o que iria acontecer.

Com esses 4 partidos reunidos no mesmo balaio, Lapid compraria briga com o Shas e o United Torah pela secularização do estado israelense e extinção dos privilégios e das leis ortodoxas.

E ainda bateria de frente com a extem-direita, exigindo “negociações imediatas e pra valer” com os palestinos, coisa que o partido de Benett quer inviabilizar, através da expansão dos assentamentos.

Como Bibi iria lidar com essa briga de foice?

Poderia, talvez, levar adiante somente alguns dos pontos do partido de Lapid, convencendo os religiosos a fazer certas concessões pontuais.

E quanto às negociações com os palestinos, lembro que Benett declarou que aceita uma Palestina independente, desde que fique para Israel 62% do território da Cisjordânia.

Some-se a esta perspectiva “conciliadora” o fato de Lapid ter afirmado que não entregaria Jerusalém Oriental aos palestinos..

Está aí uma base para um acordo entre os dois lados, aparentemente inconciliáveis, lembrando que o astro da TV, quando o grupo de Bibi e a oposição pareciam empatados, descartou fazer parte de um governo de esquerda.

É bem possível que o centro secularista, a direita radical de Bennet e os ultra- ortodoxos acabem fazendo frente comum com a extrema-direita de Bibi e Avigdor Lieberman.

Mas, repito, não será nada fácil conciliar grupos ideologicamente pouco compatíveis.

Caso isso não aconteça, será difícil antecipar por quem Bibi acabará optando.

Por suas posições radicais na questão iraniana, de linha dura no trato com os palestinos, francamente favorável à expansão dos assentamentos e contrária a uma Palestina independente e viável, ele se sentiria mais feliz com o Shas, o United Torah Judaism e o Jewish Home, de Benett.

Mas, Netanyahu é político.

Sabe que preferindo uma coligação de extrema- direita será obrigado a adotar políticas que chocarão o mundo.

Terá de enfrentar a ONU. E, até certo ponto, a Europa Unida, que já demonstra estar cansada de aturar as violações de direitos humanos e das leis internacionais praticadas por Netanyahu.

E, pior: Obama, que está longe de gostar de Bibi, demonstra que pode não continuar adotando a política de alinhamento incondicional com Israel.

Claro, ele não deixará Telaviv na mão, mas a nomeação do independente Hagel para a Defesa, sugere que os EUA pensarão bem antes de assinar de olhos fechados tudo o que for do interesse de Israel.

Se quiser continuar com a Casa Branca a seu lado, Bibi terá de fazer concessões, tomar atitudes mais civilizadas, respeitar mais a Carta das Nações Unidas e a Convenção de Genebra.

Em suma: deslocar a política externa israelense um pouco mais para o centro.

Desta vez, ao que parece, Netanyahu será forçado a escolher entre o agradável e o útil.

Os dois não vai dar.

 

 

 

 

 

 

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