EUA: a disputa pelo voto judeu

Segue firme a campanha de caça ao voto e às carteiras dos judeus americanos.

Marlene Bachman, a 3ª preferida pelos republicanos para ser Presidente dos EUA jogou pesado: :”Estou convencida de que se os Estados Unidos falharem em apoiar Israel, será o fim dos Estados Unidos…Temos de mostrar que como nação fomos abençoados devido ao nosso relacionamento com Israel…”

Rick Perry, o no.1 nas pesquisas, também explorou o filão religioso:”Como um cristão, tenho uma clara orientação para apoiar Israel.”

Talvez Mitt Romney não tenha tido o caradurismo dos seus colegas, mas não teve vergonha de apoiar fortemente o muro que o finado Ariel Sharon construiu para separar seu país da Margem Oeste da Cisjordânia. E que, para indignação dos palestinos, cortou pelo meio cidades, propriedades rurais e até habitações de famílias.

Mas foi por ocasião do pedido de reconhecimento do Estado palestino pela ONU que os adversários de Obama aproveitaram para realçar seu amor a Israel, em contraste com os procedimentos
ditos censuráveis do Presidente.
 

Em entrevista nas vésperas da reunião da ONU, Perry começou inculpando Obama por “…precipitar esse perigoso requerimento” . Os palestinos não se atreveriam “…se a política de Obama no Oriente Médio não fosse ingênua, arrogante, mal orientada e perigosa.”

Mais adiante o pré-candidato republicano declarou-se revoltado por certos líderes do Oriente Médio terem descartado a proposta de negociações tão agradáveis a Nethanyau. E concluiu: ”Nós estamos igualmente indignados com a política de apaziguamento de Obama no Oriente Médio que encorajou esse vergonhoso ato de má fé.”

Acrescente-se que Perry estava ladeado por dois políticos israelenses de extrema-direita, ambos partidários da linha dura em relação aos palestinos. Sobre esta entrevista, escreveu o jornal israelense liberal, Haaretz: “Exceto pelo fato do evento ser em inglês, um israelense, na conferência de imprensa de Rick Perry, em Manhattan, poderia imaginar que estava numa reunião política de direita em Israel.”
Embora não tão abrangente quanto Rick Perry, Mitt Romney  também caiu de pau no modo com que Obama administrou a questão do reconhecimento israelense, taxando-o de “um desastre diplomático indesculpável.” E disse mais:”É o ponto culminante dos esforços repetidos de Obama durante tres anos para atirar Israel embaixo de um onibus e sabotar sua posição nas negociações.”

Recorde-se que, anos atrás, quando governador do estado de Massachussetts, Romney recusou-se a oferecer seguranças a Khatami, então presidente do Irã, que estava nos EUA, em viagem de boa vontade, buscando entendimentos com o país.

Os dois republicanos uniram-se ao propor que, em caso de vitória da reivindicação dos palestinos, os EUA deveriam cortar toda ajuda à Autoridade Palestina. E Mitt Romney foi além. Se a Palestina for reconhecida como estado, ele quer que o governo americano “re-avalie” suas contribuições financeiras à ONU e suas relações com cada nação que votou a favor dos palestinos.

Debaixo dessa saraivada de ataques e obséquios ao governo israelense, Obama esmerou-se no seu afã de agradar Israel, de olho nos corações dos judeus americanos. Inicialmente, ele fez o que Bush não ousou: forneceu ao governo de Telaviv bombas capazes de destruir alvos subterrâneos, mesmo quando solidamente protegidos por barreiras de concreto. Era uma solicitação antiga de Israel que Bush hesitou, adiou, mas não atendeu, receando que Nethanyau, de posse dessas armas não resistisse à tentação e bombardeasse com elas instalações nucleares iranianas enterradas bem abaixo do solo.

No campo de batalha da assembléia da ONU, Obama contra atacou a ofensiva dos dois republicanos. Contestando o pedido de reconhecimento do estado palestino, fez um discurso comovente, discorrendo detalhadamente sobre os sofrimentos dos judeus e a insegurança de Israel. Emocionado, o duro Nethanyau declarou que o Presidente merecia uma “medalha de honra”. E Avigdor Lieberman, o feroz Ministro das Relações Exteriores, entusiasmou-se ao máximo, afirmando que assinaria o discurso de Obama com as duas mãos (melhor diria, com as quatro patas).

Com estas duas jogadas de mestre, Obama fez a opinião pública judaico-americana esquecer sua vacilada do começo do ano. Quando, num raro momento de coerência com seu passado, afirmou que o estado palestino precisaria ser criado com urgência, com base nas fronteiras de 1967. É verdade que, admoestado publicamente por Nethanyau, só faltou pedir desculpas ao explicar-se na reunião da AIPAC, o poderoso  lobby judaico americano. Mas, para alguns assessores, o mal estava feito e sabia-se que os republicanos não deixariam de explorar a inédita coragem de Obama como ação anti Israel.
Afinal, por que fazem os políticos americanos tantas juras de amor a Israel, atendem pressurosos a seus desejos, brigam com o mundo para defender os interesses israelenses, mesmo quando injustos? Será que ganhar o apoio dos judeus dos EUA vale tudo isso? Será que Telaviv vale bem tantas missas?
Em número de votos, os judeus americanos representam apenas entre 2 e 2,5% do total do país. Mas, 94% se concentram em 13 estados, especialmente em Nova Iorque, onde chegam a mais de 9%,  Nova Jersei e Florida, onde atingem cerca de 5%. Numa disputa acirrada, os votos deles podem ser decisivos.
 Historicamente a comunidade judaica americana sempre apoiou teses progressistas, como os Direitos Humanos e o fim da guerra do Vietnam. Judeus de esquerda destacaram-se como intelectuais, jornalistas e políticos. Natural que a maioria judaica preferisse os candidatos a presidente democratas em função da postura mais aberta do partido. É o que vem acontecendo desde Roosevelt, que levou 90% dos votos judeus.
Esta situação foi mudando à medida que se repetiam os atentados terroristas contra a população de Israel. O número dos defensores dos direitos dos palestinos diminuiu, enquanto crescia a aceitação das ações brutais do governo e do exército de Israel como necessárias à segurança da nação. Essa segurança passou a ser o principal valor, tanto para os judeus de Israel quanto para seus irmãos dos EUA. Como os partidos israelenses de direita defendiam com mais vigor o uso da força, o país foi gradativamente pendendo para eles. Governos conservadores e radicais passaram a conquistar a maioria dos votos e assumir o poder, com posições cada vez mais intransigentes contra os palestinos.
Influenciada por isso, a opinião pública judaica americana foi oscilando para a direita. Embora ainda existam muitos intelectuais e jornalistas judeus americanos que favorecem a causa dos palestinos, a comunidade como um todo adota uma posição de franco apoio aos governos israelenses de direita, dos quais Nethanyau é, certamente, o mais radical de todos que já apareceram.
Apesar disso, os presidentes democratas continuaram a ser preferidos pelos judeus dos EUA por que sempre estiveram, uns mais, outros nem tanto, ao lado de Israel. A única exceção foi Jimmy Carter que procurou levar Israel a aceitar uma paz justa com os palestinos. Ainda assim, ganhou na comunidade judaico-americana, mas por pouco : 45% contra 39% para Reagan.

O prestígio de Obama junto aos judeus dos EUA foi abalado nos anos seguintes à sua posse por sua insistência em pretender que Nethanyau congelasse a construção de assentamentos em terras árabes. A maioria conseguida nas eleições de 78% dos votos judeus caiu em 2010 para 42%.(pesquisa McLaughlin).
Mas em 2011, pesquisa do lobby judaico liberal JStreet dava 63% para Obama. Consequência de coisas como o veto americano á condenação de violências israelenses na Margem Ocidental da Cisjordânia e dos esforços para sabotar as investigações da ONU dos massacres de Gaza e da Flotilha da Liberdade.
Visivelmente, Nethanyau bem que preferiria os inimigos de Obama que jamais o perturbarão com exigências descabidas de parar assentamentos, negociar uma Palestina livre com base nos limites de 1967 ou moderação na Margem Oeste da Cisjordânia. É fato que sua política truculenta chocou os judeus americanos de boa vontade. E assim seu prestígio junto a eles caiu de 62%, em 2010, para 54%, em 2011.
Mas continua muito alto junto aos congressistas, vide a recepção de herói que ele teve quando chegou para contestar a  proposta de Obama de criação do Estado palestino com aquela base odiada por Nethanyau.
É justamente essa área o alvo prioritário dos lobbies judaico americanos. O raciocínio é simples: conquistando o Congresso, conquista-se a Casa Branca, que dele depende para aprovações das leis. E é o que os lobbies (particularmente a poderosa AIPAC) vem fazendo com grande eficiência.
Mais do que como eleitores, os judeus americanos são importantes como doadores. Os grupos mais conservadores e direitistas são exatamente a elite da minoria judaica dos EUA. E eles estão sempre prontos a doar substanciais quantias para eleger senadores e deputados que defenderão Israel de olhos e punhos fechados.
É também nessa classe que se encontram líderes comunitários, militantes ativos, jornalistas e pastores simpatizantes, sempre prontos a protestar e divulgar acusações contra políticos rebeldes a Telaviv.
Também entre os doadores os judeus democratas fazem boa figura. O que não quer dizer nada: os congressistas que eles elegem competem com os republicanos em solidariedade ao governo israelense. Mesmo assim, o número de judeus democratas vem decrescendo : 53% em 2009 -48% em 2010 e 45% em 2011.
 Sinal que os políticos republicanos estão trabalhando melhor. Como a representante Isabel Ros-Leitner, que apresentou um projeto cortando os fundos americanos para a ONU, a ajuda para a Autoridade Palestina e para os países que votarem a favor do estado palestino. Ou Joe Walsh, que pretende que o Congresso expresse aprovação à anexação oficial por Israel de grande porções da Cisjordânia, pela audácia da Palestina pretender que a ONU a reconheça como um estado. Ele enfatizou sua proposta, afirmando que a idéia de uma Palestina independente é absolutamente ultrajante.
Embora a comunidade judaica nos EUA já não seja um todo monolítico, vaquinhas de presépio diante de Israel, a parte liberal ainda é minoritária, embora o número dos liberais cresça de ano para ano, sob o estimulo da intransigência de Nethanyau.
Seja como for, Obama, por enquanto, é o favorito nos dois grupos, por razões até opostas.
Estamos ainda há mais de 1 ano da eleição.Obama terá muitas oportunidades para agradar os judeus americanos que somam com o governo de Israel. Como as posições de Nethanyau tem sido inarredáveis, serão novas oportunidades para o Presidente contribuir para o povo palestino ser enganado e sacrificado.
Por mais que os republicanos vociferem, quem tem o pão e o queijo na mão é o presidente democrata.
Aos adversários só restam as palavras. E palavras costumam pesar menos do que fatos.

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