El Salvador: esquerda pragmática no poder.

Derrotado por diferença mínima, o candidato presidencial da direita salvadorenha fez a habitual alegação de fraude e convocou o exército para “exercer seu papel”.

Tendo sido um ex-guerrilheiro o vencedor, este suspeito apelo, poderia provocar ações armadas.

Afinal, era América Central.

Mas passou direto, sem qualquer reação.

Presidentes com antecedentes revolucionários já não assustam em El Salvador.

O anterior, Mauricio Funes, membro da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional como Sanchez Sender, o novo presidente, já tinha governado o país com moderação.

Ele privilegiou ações sociais, com programas que deram, por exemplo, sementes e fertilizantes grátis aos agricultores pobres; pensões aos velhos; uniformes, livros e sapatos aos estudantes sem recursos.

Mas o problema da segurança continuou extremamente grave. As gangs (as chamadas Maras) pintaram e bordaram, explorando o narcotráfico.

De acordo com Roberto Rubio, da Fundação Nacional pelo Desenvolvimento, “O número de homicídios caiu, mas os criminosos ainda matam; agora enterram suas vítimas”. O que foi comprovado pela descoberta de um cemitério clandestino.

Maurício Funes não conseguiu recuperar a economia, nem criar novos empregos, num país profundamente lesado por uma guerra civil que durou 12 anos.

Para se ter uma idéia, El Salvador é um dos países centro-americanos mais dependentes das remessas de dinheiro de emigrantes nos EUA, que representam quase 20% da economia nacional.

Apesar do insucesso de Funes na área econômica, o povo não esqueceu os desastrosos 3 governos anteriores da ARENA- partido da elite – e preferiu votar num ex-guerrilheiro da  FMNL.

Com o acordo de paz de 1992, ela se tornou um partido político, popular e progressista, mas não exremistal.

As propostas do presidente Sanchez Ceren consistem basicamente em aprofundar os programas sociais do seu antecessor.

Promete ainda incluir no seu gabinete  oposicionistas competentes, como fez o presidente Mujica, no Uruguai.

Realista, Cerem entende que, além de melhorar a vida dos mais pobres, é necessário promover o desenvolvimento da economia.

Reformas radicais não estão em seus planos.

Coisa que a FMNL defendeu durante a luta contra as ditaduras e falsas democracias, no período entre 1980 e 1992.

Nessa guerra civil, as forças dos governos cometeram crimes odiosos.

O mais escandaloso foi o assassinato do arcebispo de São Salvador, Oscar Romero.

Todos os domingos, Romero pregava na catedral contra as violações dos direitos humanos e as repressões brutais praticadas pelos soldados e esquadrões da morte.

Ele também denunciou o envolvimento dos EUA, por enviar bilhões de dólares em ajuda  militar ao governo de El Salvador.

No dia 23 de março de 1980, Romero dirigiu-se aos soldados, dizendo: “Em nome de Deus. Em nome daquelas pessoas  sofredoras, cujos gritos ecoam até o céu mais alto a cada dia, eu lhes imploro, eu lhes peço, eu lhes ordeno: parem com a repressão.”

No dia seguinte, ele foi assassinado por um pistoleiro, enquanto celebrava a missa.

O crime provocou imensa indignação internacional. Instituições de muitos países exigiram do governo pronta investigação e punição dos culpados.

Mas isso jamais ocorreu.

Depois do fim da guerra civil, em 1993, a Comissão da Verdade em El Salvador da ONU concluiu que Robert d´Aubuisson, fundador da ARENA e dos esquadrões da morte, que liderava,  “deu a ordem para assassinar o arcebispo a oficiais do exército.”.

Alguns dias depois, o congresso local, controlado pela ARENA, editou uma lei de anistia, impedindo que d´Aubuisson fosse processado.

Em 2004, a Igreja Católica de El Salvador solicitou que o caso voltasse a ser investigado, mas o então presidente, Antonio Saca, negou-se, com base na lei de anistia e no desejo de evitar a abertura das velhas feridas  da guerra civil.

Que, por sinal, eram muitas e muito graves.

75 mil pessoas foram mortas, 17 mil desapareceram e 1 milhão viajaram para outros países, fugindo da violência.

A Comissão da Verdade em El Salvador da ONU registrou mais de 22 mil queixas de violências políticas, somente entre janeiro de 1980 e julho de 1981.

60% eram de assassinatos sumários; 25%  de seqüestros e os demais de torturas.

85% atribuíam-se a atos do exército, polícia e esquadrões da morte e apenas 5% à FMNL.

O trabalho da comissão encerrou-se em julho de 1991, pois teve apenas  3 meses de prazo.

A participação dos EUA na repressão é inegável, fornecendo bilhões em armamentos e treinamento às forças armadas salvadorenhas.

Robert d´Aubuisson,  por exemplo, graduou-se na Escola das Américas, um estabelecimento militar americano especializado em contra-insurgência.

O US Bureau of Public Affairs  justificou o apoio da Casa Branca deste modo: “O gol do exército e das forças de segurança salvadorenhas- e dosEUA nos anos 80 –era evitar a tomada do poder pela guerrilha esquerdista e suas organizações políticas aliadas (Department of State, Bureau of Public Affairs (1985) Central America US policy.)”

O novo governo de El Salvador está disposto a esquecer esta página negra da história americana, no apoio a ditaduras selvagens latino-americanas.

Não se espera dele na ONU votos a favor de Israel, dos drones e de outras causas duvidosas dos EUA.

Certamente formará ao lado dos governos progressistas da América Latina nas questões de interesse mútuo.

No entanto, o pragmático Ceren  já demonstrou desejos de manter bom relacionamento com a Casa Branca, buscando obter ajuda e boa vontade para resolver os duros problemas econômicos e sociais de El Salvador.

É a nova face pragmática da esquerda.

Voltada mais para o bem estar dos povos, do que para a ideologia.

 

1 pensou em “El Salvador: esquerda pragmática no poder.

  1. Estivemos em El Salvador em Janeiro de 2014. Observamos na cidade de San Salvador muita desorganização e pobreza. Um comércio desorganizado, um trânsito caótico e transportes coletivos de péssima qualidade. No entanto, o povo é solicito, educado e bastante generoso. Estivemos no comitê central da Frente Farabundo de Libertação Nacional, fomos muito bem recebidos e estivemos também no Museu do grande lider revolucionário do país Schafik Handal , lá fomos recebido pela bibliotecária Yanci, a qual nos deu uma aula sobre o museu e sobre a história da guerrilha salvadorenha. Entendemos que , hoje o vitorioso Salvador Sanchez Cerén, éx-lider da FMLN apoiado pela forças de esquerda do país , poderá sem dúvida melhorar vida do povo salvadorenho, com reformas sociais, criação de empregos e melhoria no antendimento médico-hospitalar. Verificamos também que as forças armadas ainda tem muita força no país. Fiquei detido por um período de 2 horas na fronteira entre El Salvador e Honduras. Os guardas de fronteira me questionaram de todas as maneiras para saber se eu era um guerrilheiro das FARCS. Após não conseguirem nada comigo, me liberaram para seguir viagem a Nicarágua. Penso que o governo de Salvador Cerén terá que ter o controle total do país, se quizer governar com tranquilidade.

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