Efeitos colaterais da intervenção na Líbia.

Não se sabe exatamente quem foram os responsáveis pelo filme que insultava o profeta Maomé.

Inicialmente, atribuiu-se a um cidadão israelense-americano, Sam Bacile, morador na Califórnia, que disse haver levantado 5 milhões de dólares com judeus locais para financiar a produção.

O reverendo Terry Jones, famoso por ter queimado um exemplar do Alcorão diante das câmeras de TV, e um grupo de cristãos coptas fundamentalistas estariam associados ao projeto.

Novas informações lançaram dúvidas sobre todos estes pontos.

O certo é que, segundo o jornalista do Guardian, Andrew Brown, trata-se de “uma peça realmente nojenta de propaganda mentirosa, um discurso de ódio, já que o ódio é sua causa e a propaganda do ódio, seu objetivo.”

De fato, Sam Bacile, o diretor-produtor do filme, em entrevista telefônica à Associated Press informou que desejava provocar indignação mundial contra o islamismo por ele considerado “um câncer”, restando um serviço, no entender dele, ao estado de Israel.

Foi  uma provocação aos muçulmanos, extremamente agressiva, pois é sabido como os enfurece desrespeitos ao fundador de sua religião.

No filme, “A Inocência dos Muçulmanos”, Maomé é retratado portando uma coleção dos piores defeitos e perversões, inclusive  pedofilia.

O diretor-produtor imaginou que a exibição do filme pela internet iria gerar as mais violentas  manifestações das massas islâmicas, inclusive  com derramamento de sangue.

O que viria manchar a imagem internacional desse povo.

Como era pretendido, ‘A Inocência dos Muçulmanos” está  levando multidões de muçulmanos  a grandes protestos nas ruas de países do Oriente Médio.

Porém, apenas em um deles causaram mortes.

Em Bengazi, Líbia,  o embaixador dos EUA e 3 outros membros do corpo diplomático foram assassinados e a sede do consulado, incendiada.

Como revela a Al Jazeera, membros da milícia salafista Ansar-al-Sharia, armados até com lança-granadas, lideraram o ataque e o incêndio do consulado.

E foram eles quem emboscaram o carro do embaixador, na saída da cidade, e mataram seus ocupantes.

Por que esse nível de violência só aconteceu na Líbia?

Analistas russos não hesitam em afirmar que foi uma conseqüência inevitável da imposição de mudança do regime pela força, graças ao apoio militar do Ocidente.

Quando Gadafi e os seus foram derrotados de vez, a Líbia ficou dividida entre dezenas de milícias.

Conservando seus poderosos armamentos, recebidos dos países aliados, elas apossaram-se de centros estratégicos, edifícios e cidades.

Diversas delas ocuparam prisões para onde foram trazidos suspeitos de “Gadafismo”, ali torturados e mesmo executados.

Combates, seqüestros, queima de mesquitas e assassinatos sucedem-se,  deixando em pânico as populações de várias regiões do país.

A Human Rights Watch e a Amnesty Internacional publicaram relatórios denunciando as violências praticadas pelas milícias e pedindo providências às autoridades.

O governo provisório tentou desarmar e desmobilizar essas tropas irregulares, mas é fraco, pouco conseguiu.

Obama exigiu a punição dos culpados.

E mandou fuzileiros navais, drones e vasos de guerra para a Líbia.

Mais para impressionar seu eleitorado.

Os fuzileiros serão úteis para reforçar o policiamento das instalações consulares americanas.

Os drones, se usados, só vão criar novos problemas para os EUA.

Como o filme blasfemo é de origem americana, o povo líbio está indignado com os EUA.

Entrando em ação, os drones vão certamente matar gente da Al Qaeda e grupos afins, mas, como acontece no Paquistão e no Yemen, vão matar também os civis líbios incautos que estiverem por perto.

E o  anti-americanismo só vai crescer.

Em tempos eleitorais, isso é secundário para o presidente candidato à reeleição: o que lhe importa é agradar os votantes americanos.

Para isso, ele espera que os culpados pelo assassinato do embaixador sejam presos e punidos.

Não será fácil.

É verdade que o novo governo da Líbia, cujo premier acaba de ser eleito pelo parlamento, deverá ter mais força por representar, ainda que indiretamente, o seu povo.

Ele se chama Mustafá Abou-Shakour e é membro do mais antigo partido de oposição a Gadafi. Tem o apoio tanto de secularistas, quanto de islâmicos, o que não é pouco.

Parece dispor de melhores condições para por ordem no país do que teve seu antecessor, o interino Jabril, ex-membro do governo Gadafi.

Prender os assassinos do embaixador americano é o primeiro desafio que Shakour deve enfrentar.

A milícia à qual eles pertencem não vai gostar da idéia, mesmo porque foi a autora do atentado.

Deve ter a seu lado pelo menos alguns dos muitos grupos armados que proliferam no país.

Por sua vez, Obama está ávido para liquidar a fatura logo, tendo Romney às suas costas exigindo ação e resultados rápidos.

É possível que os americanos sintam-se no direito de comandar a operação contra os culpados, que eles já identificam com a Al Qaeda.

Talvez Obama insista em usar os drones, sua arma de estimação, o que não deixará de criar problemas com o povo.

Rodeado de tantas pressões, Shakour terá condições de agir com  a autonomia que a primeira autoridade de um país independente deve ter?

Chovem condenações dos países do Ocidente contra o atentado.

Será que alguns deles não sentem também uma ponta de culpa?

Sim, foi a Ansar-al-Sharia quem matou o embaixador.

Mas quem colocou a arma nas mãos dela?

 

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