Economia do Irã: muito aquém do caos.

Os EUA e as nações mais ricas do mundo se uniram para lançar contra o  Irã o peso das mais pesadas sanções.

Com elas, esperavam destruir a economia iraniana, gerando uma situação absolutamente caótica, que pioraria tanto a vida do povo, que o levaria à revolta.

Aí, ou cairia a Revolução Islâmica ou, pelo menos, o governo teria de render-se e emascular seu programa nuclear.

Passou-se o tempo, novas sanções foram surgindo, fechando o cerco da economia iraniana, mas, para surpresa geral, ela está, digamos, se acomodando. Muito longe de uma crise realmente grave.

Uma das mais importantes razões foi, no ano passado, a desvalorização do rial(moeda local), que perdeu 2/3 frente ao dólar até atingir, no mercado livre, 36.500.

Como o governo controla o setor do petróleo (80% das exportações), ele  pode distribuir as divisas obtidas onde lhe interessa.

Assim, o dólar é vendido por um valor baixo para a importação de alimentos e matérias primas básicas, medicamentos e outros produtos essências.

Já quem deseja importar produtos de luxo ou viajar para o exterior é obrigado a comprar dólares por preço alto.

Com isso, o governo pode evitar uma crise nos pagamentos externos mesmo que a receita do petróleo venha a cair mais tarde.

É certo que as reservas baixaram de 100 bilhões de dólares, em fins de 2011, para os 70-80 bilhões atuais.

Mas isso não preocupa o governo. Ele calculou que seria necessário conservar pelo menos 60 bilhões. Caso haja ameaça de queda ele tem gorduras a cortar: importação de produtos de luxo- incluindo carros estrangeiros , celulares e eletrônicos e subsídios para estudantes no exterior são algumas medidas cogitadas.

Por efeito das sanções, as restrições à exportação de  petróleo, que fornece 2/3 das receitas públicas, abalaram as finanças do governo.

Mas, graças ao rial desvalorizado, ele saiu lucrando, pois está vendendo  petróleo às empresas privadas por preços muito mais altos do que há um ano atrás.

O FMI calculou que o déficit do orçamento do Irã, neste ano, seria 3,9% do PIB.

Sem grandes problemas para um país cuja dívida pública bruta corresponde a de 9% do PIB.

Para diminuir o mais possível a queda no volume de exportações de petróleo e de gás, o governo tem usado uma série de medidas criativas.

Nas vendas de gás à Turquia, da qual é o principal fornecedor, recebe o pagamento em ouro pois o dólar é proibido.

Vai começar a construir uma grande usina de refinação de petróleo, em sociedade com o Paquistão, na cidade paquistanesa de Gwadar.

Que terá uma capacidade de refinação de 400 mil barris por dia de petróleo, fornecidos, é claro, pelo Irã – o Paquistão não é produtor.

Também com o governo de Islamabad, o Irã constrói um mega gasoduto de 1,5 IP de gás que ajudará a resolver o problema de energia paquistanês.

Segundo o Wall Street Journal de 21 de fevereiro, o governo americano protestou e pressiona para que o Paquistão desista, pois o gasoduto significa importação de gás iraniano, o que as sanções proíbem.

Parece que não vai adiantar; o Presidente Zardari anunciou que continuará apoiando o projeto por ser essencial a seu país.

A desvalorização do rial tem favorecido também o desenvolvimento de indústrias nacionais que não podiam antes competir com produtos importados nos tempos do dólar mais barato.

A indústria de móveis é uma das que estão crescendo mais.

Mas a alta inflação – 27,2% em fins de 2012- tem feito a economia iraniana sofrer..

Os altos preços na importação de peças, combinados com as sanções, elevaram substancialmente os custos da indústria automobilística.

Com isso, a produção, que chegou a 1,6 milhão de veículos em 2010, caiu muito e milhares de trabalhadores perderam seus empregos.

Em contrapartida, os investidores procuram fugir da inflação aplicando seu dinheiro na construção de imóveis. Com isso, a indústria de construção civil está em grande desenvolvimento, oferecendo grande número de empregos.

O governo tem protegido as classes pobres contra a inflação, tabelando rigorosamente os produtos essenciais ao consumo. E os produtores também são protegidos com subsídios governamentais.

Quem sofre mais é a classe média pois tem de pagar preços inflacionados por bens de consumo aos quais estão acostumados como roupas e sapatos de moda, livros, equipamentos eletrônicos, automóveis, viagens, alimentos sofisticados,etc

Seu padrão de consumo baixou mas não o suficiente para empurrar seus integrantes para segmentos mais pobres da sociedade.

Resumindo: as sanções podem ter interrompido o desenvolvimento do país – e mesmo feito recuar em muitos setores – mas não provocou a crise devastadora que o Ocidente visava.

A economia iraniana revelou uma solidez e uma energia inesperadas.

Não será fácil abatê-la.

 

 

 

 

 

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