Dois mísseis contra o Estado Policial.

Para defender a importância da  bisbilhotagem  das ligações telefônicas, Obama e a NSA, serviço que a realiza, dizem que já salvou vidas americanas.

Graças a ela, muitos atentados teriam sido evitados.

No entanto, não citaram nenhum caso.

Sabe-se agora a razão: não houve um único.

O professor de direito Geoffrey Stone, membro do task force da Casa Branca que revê os programas da NSA, disse à NBC News que procuraram encontrar casos onde a espionagem telefônica em massa frustrou atentados terroristas.

Eis o que o relatório da comissão concluiu: “Nossa revisão sugere que informações contribuindo para investigações de terrorismo, através do uso da seção 215 sobre metadatas  telefônicas não foram essenciais para evitar ataques…”

Outro membro do task force, o ex-diretor da CIA Michael Morell, não fez por menos. No programa da CBS Face the Nation, testemunhou: “O programa até agora não exerceu um papel significativo na interrupção dos ataques terroristas nos EUA.”

Apesar disto, o governo Obama vem gastando bilhões de dólares para manter enormes equipes com múltiplos equipamentos de última geração, em prédios gigantescos.

Além de prejudicar sua imagem com mentiras, hoje desmascaradas.

A comprovação da inutilidade da violação da privacidade americana foi um verdadeiro míssil contra a hegemonia do Estado Policial nos EUA.

O outro míssil ainda está para ser lançado pelo Senado.

É a provável publicação de um relatório sobre os “métodos enérgicos” de interrogar da CIA e o programa de “rendições extraordinárias” do governo Bush.

Uma das promessas de Obama foi acabar com as torturas.

E, em 2009, cumpriu, proibindo essas práticas desumanas.

Fez o mesmo com as “rendições extraordinárias”, que promovia seqüestros no exterior de suspeitos, que, transportados clandestinamente para locais secretos em outros países, eram interrogados sob torturas.

A primeira proibição foi pra valer, embora tenham ocorrido algumas denúncias, não devidamente investigadas.

Já as “rendições”, inicialmente interrompidas, recomeçaram nos últimos meses, é verdade que raramente. Como no caso do seqüestro de um suspeito na Líbia, por sinal país amigo dos EUA, que até apóia seu governo.

Não se sabe se foi torturado ou não nos 2 meses que passou preso num navio de guerra americano. É louvável ter sido encaminhado para ser processado por um tribunal civil, em vez de internado nas profundezas de Guantánamo.

Tendo  Obama dito que “passado é passado” e que só puniria eventuais violações das leis anti-tortura no seu governo, os movimentos de direitos humanos não se conformaram.

Em parte por pressão deles, o Senado decidiu promover um amplo e profundo estudo dos métodos de contra-terrorismo da CIA durante o governo Bush.

Esse estudo levou anos e suas terríveis conclusões vão pegar fundo na consciência dos americanos e por pra baixo a reputação da CIA.

Comentando essas conclusões, diz a senadora democrata Dianne Feinstein (membro da comissão do Senado responsável pelo estudo) : ”Locais secretos clandestinos e técnicas coercitivas de interrogatório foram terríveis erros que danificaram nossa reputação, irritaram nossos aliados e não produziram informações de inteligência que não pudessem ser conseguidas através de interrogatórios não-coercitivos.”

“Técnicas de interrogatório coercitivas”, conforme o relatório revela, compreendem waterboarding (que reproduz sensação de afogamento), humilhações religiosas e sexuais, hipotermia, posições de stress e privação de sono por longos períodos.

Quanto à possível eficácia dessas técnicas, repetidas vezes membros da CIA garantiram que “salvaram vidas americanas”.

O vice de Bush, o notório Dick Cheney, clama que a segurança dos EUA está em primeiro lugar. Portanto, pau nos suspeitos!

Chegou a afirmar que o waterboarding não é tortura.

O próprio John Brennan, assessor de contra-terrorismo do governo Obama, admite que as “técnicas coercitivas funcionam.”

Embora, em tese, ele condene violências nos interrogatórios.

Fica num meio termo um tanto ambíguo.

Há um ano atrás, o Senado concluiu seu estudo e, democraticamente, deu voz ao acusado : entregou à CIA seu relatório para que opinasse.

Enquanto o Senado não receber resposta, para análise e eventuais correções, o estudo permanece “classificado”.

Ou seja, secreto.

Acontece que já passou mais de um ano e a CIA…nada!

Está claro que não deseja que o público conheça suas malfeitorias.

Os senadores exigem que o governo Obama não caia na manha da CIA e “desclassifique”o relatório, tornando-o aberto ao publico.

Jane Mayer, no The New Yorker, escreveu que John Brennan pressiona Obama para não liberar a publicação do relatório. Como se sabe, Brennan foi importante diretor da CIA durante os tempos negros de Bush.

No outro lado, a senadora Feinstein pede que o presidente  desclassifique pelo menos o resumo das conclusões do relatório.

Dá 300 páginas de barbaridades.

A CIA justifica seu atraso de mais de um ano, dizendo estar  trabalhando em possíveis “erros significativos.”

Mas o senador democrata Martin Heinrich contesta.

Como revisor do relatório, ele já tomou conhecimento dos tais erros e verificou que eram insignificantes. E, mesmo assim, já foram levados em consideração.

Outro senador, Mark Udall, quer que a CIA libere também o relatório de uma investigação interna sobre torturas. Udall recebeu informações seguras que suas conclusões principais são semelhantes às do Senado.

O bombardeio sobre a CIA não fica nisso.

Nas várias vezes que foram  chamados ao congresso sob acusações de prática de torturas diversas, elementos da CIA alegaram que obedeceram a ordens emitidas pelo Departamento de Justiça.

Seria o argumento da “obediência devida”, criado pelos advogados dos criminosos nazistas no julgamento de Nuremberg. E repetido pelos assassinos da ditadura militar argentina.

Em nenhum caso isso pegou. Todos, nazistas e militares argentinos, foram condenados em seus países.

Nos EUA, os torturadores da CIA falam em autorização superior, não para fugir à cadeia, já que Obama perdoou os criminosos  da era Bush, mas para se justificar perante a opinião pública.

Os senadores envolvidos no estudo do contra-terrorismo na era Bush passaram mais de um ano pedindo o memorando do Departamento de Estado, que “legalizava” a prática de torturas pela CIA.

Nunca receberam.

Conclusão é que não existe.

Todas estas coisas impactam de modo muito negativo as ações dos elementos do Estado Policial na América.

O presidente parece estar começando a se opor contra a posição hegemônica que esse verdadeiro Leviatã assumiu, escudado no atentado contra as Torres Gêmeas.

O pavor do povo americano foi tão grande que aceitou passivamente todas as leis e instituições repressivas criadas pelo governo Bush  (e mantidas no governo Obama) como indispensáveis à sua segurança.

Mesmo implicando em negação dos princípios da Constituição americana, das normas da ONU e da Convenção de Genebra.

Entregaram à CIA e similares suas liberdades individuais e os direitos humanos, seus e de outros povos.

Mas o atentado de 11 de setembro já completou mais de 12 anos.

A Guerra ao Terror, invocada por Bush para justificar a transformação da América num Estado Policial, parece estar se desvanecendo por gerar mais danos do que benefícios.

À medida que seus sub-produtos, como a espionagem  dos telefones e computadores e a guerra suja da CIA, caem em descrédito.

 

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