Atolados no Afeganistão.

Sair ou não sair, eis a questão.

O governo Obama parece imobilizado no Afeganistão, aturdido por pressões e argumentos antagônicos.

Até pouco tempo atrás tudo estava claro.

Obama, como prêmio Nobel da Paz, repetia que, graças a ele, os EUA deixariam o Afeganistão em fins de 2014.

Não era bem assim: cerca de 10 mil soldados ficariam. Parte deles para treinar afegãs. E a outra parte, as forças especiais, para combater os talibãs.

Eis que os problemas começam a aparecer.

O presidente Karsai, esse ingrato, criava caso para assinar o BSA – tratado que regulava a permanência de tropas americanas.

Exigia várias condições, como o fim dos raids noturnos.

O povo afegão revolta-se contra esses raids, nos quais as forças especiais americanas invadem domicílios no meio da noite, tirando as pessoas da cama. Presas e levadas para interrogatório, a maioria delas eram liberadas alguns dias depois, mas o terror e a humilhação marcavam.

Depois de muito discutir , o presidente afegão acabou topando o acordo. Mas, logo voltou atrás: antes de assinar, exigia  o fim dos raids e também dos ataques dos drones, que atingiam também inocentes.

Caso contrário, deixaria a conclusão do affair para depois das eleições, em abril.

Obama não gostou nada.

Em novembro, declarou que não poderia esperar tanto tempo. O processo da retirada era muito complexo.  Precisaria de todo um ano para ser completado.

E deu um ultimato: ou o presidente afegão assinaria até o fim de dezembro ou a retirada das tropas seria total. Não ficaria um único soldado americano. Karsai teria de encarar os talibãs sozinho.

Assessores de Obama lembraram ao afegão que nesse caso, ele poderia esquecer os 4 bilhões de ajuda americana prometidos.

Contra todas as expectativas, Karsai não cedeu e o presidente dos EUA teve de se humilhar, estendendo o prazo do ultimato para mais um mês.

Enquanto isso, outro golpe foi vibrado contra a manutenção parcial de tropas americanas na guerra.

Sucessivas pesquisas mostravam uma modificação surpreendente no pensamento do povo dos EUA.

Na mais recente delas, da CNN/ORC, publicada em fins de 2013, 82% da população declarou-se contra a guerra do Afeganistão.

82% é muita coisa.

Há 5 anos atrás, apenas 46% pensava assim.

Nem a guerra do Iraque – 69% contra, em pesquisa CNN- nem a guerra do Vietnã, 66% contra pelo Gallup, foram tão mal vistas.

Mais da metade dos respondentes querem os EUA fora do Afeganistão antes do prazo de 31/12/2014, sendo que apenas 25% aceitam que permaneçam mais tempo.

Por fim, revela a CNN/ORC, 55% acham que as coisas vão mal no Afeganistão. Apenas 33% acham o contrário.

Resultado surpreendente, considerando a intensa propaganda feita por generais e pelo governo, garantindo que os americanos estão ganhando a guerra.

A realidade mostrou uma face muito dura na mesma ocasião da pesquisa.

Estudo da National Intelligence Estimate, com dados de 16 agências de inteligência, referido no Washington Post  (29/12/2014), previa algo nada bom para os próximos anos.

Mesmo havendo o apoio de tropas americanas e entrando a ajuda de 4 bilhões de dólares, os talibãs e outros insurgentes aumentariam sua influência no país até 2017.

A propósito, lembro estudo de assessores do governo inglês, publicado graças a lei de Liberação de Documentos Oficiais, que comparava a guerra do Afeganistão atual com a guerra  contra os soviéticos, nos anos 80.

Ele dizia: ”As duas intervenções (americana e soviética) apresentam-se como forças estrangeiras lutando a favor de um governo central corrupto e sem apoio popular, lutando contra uma insurgência local que tem apoio popular, forte motivação religiosa e refúgios seguros no exterior”.

Os dois estudos, ambos oficiais, se completam – o inglês explica as previsões do americano.

O Pentágono, publicamente, limitou-se a, olimpicamente, desconsiderar o futuro sombrio anunciado pelo National Intelligence Estimate.

Esse conjunto de fatos não favorece a estratégia de sair, sem sair.

O governo afegão, que seria o principal beneficiário da permanência dos 10 mil soldados americanos, demonstra pouco interesse nisso.

Respeitável inteligência oficial garante que não vale à pena.

O povo, farto de guerras, quer a retirada total do Afeganistão. Quanto mais cedo, melhor.

E, afinal, qual seria o interesse dos EUA em continuar lutando?

O país foi à guerra para impedir que o Afeganistão se tornasse um santuário da al Qaeda.

Objetivo já alcançado.

Desde o ano retrasado, a presença dos sicários do extinto Bin Laden é apenas simbólica. Menos de 50, segundo a última previsão.

Eles preferem se concentrar no Iraque, na guerra da Síria, no Yemen e em vários países da África.

Os inimigos afegãos dos EUA são os talibãs, que nunca sequer sonharam em promover atentados em solo americano.

É verdade que, abandonando o regime de Kabul, os talibãs ficariam ainda mais fortes, teriam mais chances de ganhar a guerra.

E aí os EUA teriam trocado um aliado por um provável inimigo.

Mas, essa perspectiva não é a única: talibãs e governo oficial podem muito bem chegar a um acordo.

Claro, em qualquer das duas eventualidades, o Partido Republicano vai pular, brandindo a velha acusação da “fraqueza dos governos democratas.”

No passado, isso pegaria.

Hoje é diferente.

A crise mudou o povo americano.

Agora, ele está mais voltado para o seu bem estar do que para as glórias do excepcionalismo  americano, cantadas por seus canhões nos 4 continentres.

Acho que, por mais que os republicanos gritem, a saída total do Afeganistão renderá alguns pontos nas pesquisas de performance  do governo Obama.

Admito que é uma visão otimista já que esses grupos tem à sua disposição vasta concentração midiática, incluindo a poderosa  rede Murdoch de jornais, rádio e TV, além de um sem número de âncoras e articulistas de prestígio.

Problema maior será enfrentar o Pentágono e seu aliado, a indústria militar.

Os lobbies de ambos são muito poderosos, contam com uma bancada formada por dezenas de senadores e representantes, até do Partido Democrata.

Muito raramente um presidente americano tem coragem de se opor a eles em questões-limite.

Aqui vale lembrar o discurso de despedida do presidente Eisenhower, em 1961.

“Nas esferas do governo, devemos nos proteger contra a influência

injustificada  exercida pelo complexo militar-industrial. A possibilidade do surto desastroso de um poder mal orientado existe e permanecerá. Não devemos nunca permitir que o peso desta coalizão ameace as nossas liberdades ou os processos democráticos”.

Acredito que essa “influência injustificada” pode estar acontecendo.

Não é à toa que o orçamento militar para 2014 é de 832 bilhões de dólares, quase igual ao total gasto em defesa por todos os demais países do mundo.

Repetidas declarações demonstram que os chefões do Pentágono não admitem uma saída total do Afeganistão.

E agora, Obama?

De um lado, a maioria dos americanos, o governo afegão, amplos setores da inteligência e a falta de interesses reais dos EUA em permanecer na guerra.

Do outro lado, a oposição dos republicanos, do Pentágono e da indústria militar e o perigo de ser considerado “um presidente fraco.”

A opção menos complicada  é ficar com os mais fortes.

Conseguir forçar Karsai a acabar assinando o acordo logo ou esperar por abril mesmo.

Sucede que, com a divulgação das restrições de Karsai aos raids das forças especiais, cada vez mais americanos começaram a perceber que havia algo estranho em todas estas discussões.

Afinal, os tais 10 mil soldados seriam só para treinar afegãos?

Caso eles acabem ficando, fatalmente entrarão em combate, que é para isso que as forças especiais existem.

E Obama não poderia mais afirmar que tirou os EUA da guerra do Afeganistão.

O que é pior: ser chamado de fraco ou de mentiroso?

 

 

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