Dívida de sangue.

O povo inglês terá de pagar pelas atrocidades cometidas pelo seu governo durante a rebelião Mau- Mau, no Quênia, entre 1952 e 1960.

No mês passado a Justiça inglesa decidiu que as vítimas sobreviventes tinham direito a indenização . E o Foreign Office (Departamento de Relações Exteriores) aceitou negociar o devido pagamento.

Os Mau-Mau protagonizaram a mais violenta das revoltas de libertação colonial contra o domínio britânico, no século 20. Na repressão, o governo usou de extrema violência, cometendo vários crimes capitulados pelo direito internacional.

As causas principais da rebelião foram a negação de terra aos agricultores quenianos e o altíssimo desemprego na capital, Nairobi.

A sociedade secreta dos Mau-Mau surgiu em 1950, formada por membros das etnias Kikuyo, Embu e Meru, com o objetivo de lutar pela independência do Quênia.

Cometeram muitas ações violentas, assassinando africanos fiéis ao governo e colonos europeus, estes em número muito menor.

A reação inglesa foi devastadora.

O historiador Daniel Goldhagen a descreve como um exemplo de política de eliminação étnica, tomando como alvo os Kikuyos, Embus e Merus.

As forças de segurança adotaram uma estratégia baseada na punição coletiva – um crime de guerra segundo a Convenção de Genebra. Todos os quenianos que viviam na área considerada de emergência eram considerados culpados até provarem sua inocência.

Assim, 150 mil pessoas das etnias suspeitas foram presas numa rede de campos de concentração, os chamados Gulags britânicos. Deles, 90 mil foram torturados, mutilados ou executados, segundo a Comissão de Direitos Humanos do Quênia

Em nenhum outro lugar do império britânico a pena de morte foi aplicada de maneira tão indiscriminada, sendo o total de executados duas vezes maior do que o promovido pelos franceses na revolução argelina.

O governador sir Evelyn Baring chegou a assinar um decreto condenando à pena de morte todos que administrassem o juramento dos Mau-Mau

Poucos anos depois dos rebeldes serem vencidos, os ingleses concederam independência ao Quênia.

O governo do novo país, talvez em retribuição, manteve o movimento fora da lei.

Em 2002, quando foi suprimida a proscrição dos Mau- Mau, a Comissão de Direitos Humanos do Quênia procurou antigos membros, que haviam sido castrados ou torturados de várias outras maneiras.

Revelou-se, então, publicamente, as violências praticadas em massa pelo exército da metrópole.

A comissão solicitou à Corte Suprema de Londres permissão para processar o governo de inglês, exigindo indenização às vítimas.

Na contestação, os advogados alegaram que o processo deveria ser instaurado contra o governo queniano e não o governo inglês, de acordo com o princípio de sucessão.

Alguns historiadores, chamados como peritos no caso, perceberam que os relatórios do governo inglês eram incompletos.

Pesquisando, descobriram um grande arquivo de documentos da era colonial, que o Foreign Office tinha conservado escondido, por décadas.

Os papéis secretos mostraram que altas autoridades coloniais autorizaram torturas e espancamentos de suspeitos – homens e mulheres – nos campos de concentração e que ministros estavam a par disso.

Em um caso, prisioneiros foram “assados vivos”, conforme expressão usada em carta de autoridade local.

Em 1954, num dos poucos processos movidos contra os torturadores, um juiz de Nairobi, Arthur Cram, comparou os métodos dos interrogadores aos da Gestapo.

Na correspondência entre as autoridades do Quênia e o Foreign Office, foram reportados numerosos assassinatos e estupros por militares ingleses e alguns casos particularmente dramáticos como uma criança africana “queimada até a morte”e o defloramento de uma menina.

O governador Baring estava consciente da extrema brutalidade das torturas que incluíam  espancamentos por vezes até a morte,  prisão solitária, privação de alimentos,  castração, sovas de chicote,  queimaduras, estupros,  sodomia e introdução forçada de objetos no anus.

Constatou-se haver um programa de violências sistemáticas nos campos da colônia, no qual os guardas eram autorizados a cometer contra os prisioneiros Mau- Mau, para quebrar sua vontade e forçá-los a se submeter ao governo.

Em nenhum momento, torturador algum foi punido.

Tudo foi mantido cuidadosamente em segredo.

O Procurador-Geral no Quênia, Eric Griffith-Jones, depois de alterar a lei permitindo as violências, avisou o governador Baring: “Se nós vamos pecar, vamos pecar silenciosamente.”

Assim foi feito. 8.000 documentos foram escondidos durante mais de 50 anos no arquivo de Hanslope Park, até serem descobertos recentemente.

Agora revelados, eles testemunham de maneira incontestável a crueldade de um império colonial, que se apresentava como vanguarda da civilização.

A Comissão de Direitos Humanos do Quênia já levantou uma relação de cerca de 50 mil antigos membros do Mau Mau, que alegam terem sofrido torturas. Por decisão da justiça inglesa, o governo terá de pagar indenizações a todos quenianos brutalizados durante a rebelião Mau Mau,

Esta dívida de sangue do governo inglês vai ser mais cara do que se previa.

Terá também um elevado custo moral, sentido por John Notingham, que foi um alto funcionário colonial: “O que aconteceu nos campos e cidades do Quenia foi tortura brutal e selvagem. Eu me sinto envergonhado por ter sido a Inglaterra que fez o que aconteceu aqui (no Quênia).”

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *