Ditadura, nazismo, comunismo, extrema direita…A Polônia não merecia.

Os cientistas na Suécia social-democrata propõem a legalização do canibalismo.

Na Polônia, sob a extrema direita, há quem faça esta bizarra acusação.

Não, não foi um louco (ou talvez, seja), Zbigniew Rau é o novo ministro das Relações Exteriores do governo do presidente recém-eleito, Andrei Duda.

Católico fundamentalista (e põe fundamentalista nisso), Rau publicou no Facebook algumas estarrecedoras denúncias: “A ideologia LCGBT+ promoveu uma revolução de morte anti-cristã.” E seguiu nessa batida, afirmando que, desde a revolução moral de 1968, a Europa legalizou a zoofilia, a eutanásia dos mais fracos, mais velhos e doentes e propôs a legalização da pedofilia.’’ E não teria ficou nisso: Recentemente, os cientistas da Suécia teriam chegado a proclamar “…a necessidade de considerar a legalização do canibalismo.”´

No ano passado, durante sua campanha para deputado, Rau declarou que as pessoas que promovem direitos gays estariam por trás de todo o tipo de política moralmente condenáveis. “Se lhes derem rédea livre, eles legalizarão a eutanásia dos indivíduos fracos, o sexo com menores de idade e animais e o consumo de carne humana.”

“Sob o pretexto da defesa do clima”, concluiu, “ o homem pode ser reduzido a ser, não apenas um brinquedo sexual, mas também uma refeição normal.”.

Só faltou esclarecer se picanha humana viria a ser prato obrigatório nos restaurantes chiques.

Nem Hitler, nem Stalin, nem Gengis Khan, nem Nero foram tão longe quanto essa Europa distópica do ultra-fanático Rau, dominada pela revolução sexual e pelos LGBT+  (Pink News, 21-08-2020).

Imagino que esse cidadão deve ter sofrido o mais brutal trauma na sua infância, que devastou todas as regiões do seu cérebro. Ou que se trata de um humorista, extremamente popular, politicamente bem sucedido como o foram seus colegas da profissão na Itália e na Ucrânia, eleitos para governar seus países.

Nada disso, o caso é mais sério, a voz de Rau não destoa no coro de militantes do seu Lei e Justiça, um partido pseudo-cristão de extrema direita, auto-proclamado “a última barreira que nos protege e a nossa família do caos a que a esquerda quer nos lançar.” Ali, os surpreendentes conceitos de Rau não são incomuns.

Duda, o presidente recém eleito,  tem feito da comunidade LGBT+ do país um dos seus alvos prediletos.

Para saber como a Polônia de Chopin, Paderewski e Kociusko desceu a esta situação, digamos, bizarra, vamos dar uma olhada rápida no que aconteceu no país nos últimos séculos.

Historicamente, a Polônia viveu momentos gloriosos e sofridos, como outras nações da Europa. Um dos mais tristes deles foi em 1795, quando perdeu a independência.

Seus pouco amistosos vizinhos, a Prússia (origem da Alemanha) e os impérios austríaco e russo, usando a força das armas, dividiram o território polonês entre eles.

Somente em 1918, no fim da 1ª Guerra Mundial, quando alemães e austríacos foram derrotados, e a revolução comunista derrubou o regime czarista, a Polônia voltou a existir como país livre.

Em 1920, depois de um período de transição, o povo elegeu os social-democratas para o governo do país. Mas, a democracia não durou muito. Em 1926, um golpe militar colocou o marechal Pilsudski no poder. Ele governou com mão de ferro, como o líder supremo e único do país, até sua morte, em 1935.

Foi sucedido pelo chamado “governo dos coronéis”, uma típica ditadura, inicialmente bem-vista por outro ditador, Adolf Hitler, da Alemanha.

Em 1938, quando esse chefão estava destruindo a Checoslováquia como nação, propôs que a ditadura polonesa anexasse um bocado do território checoslovaco, o que foi prazerosamente aceito.

No ano seguinte, a errática Alemanha nazista atacou a Polônia e a anexou em sociedade com o regime soviético, que ocupou parte do leste do país.

Com a queda hitleriana na 2ª Guerra Mundial, a Polônia recuperou sua independência, mas não a democracia perdida em 1926, pois tonou-se satélite da União Soviética, tendo de adotar um regime comunista.

Em 1987, caiu o muro de Berlin, e com ele foi se desmontando o arquipélago das potências subordinadas a Moscou.

Na sua luta pela sobrevivência, o regime comunista polonês fez diversas concessões e até eleições que, em 1990, levaram ao poder o líder sindical, Lech Walesa. Nos primeiros anos seguintes, a centro-direita de Walesa e os social-democratas foram as forças dominantes, enquanto uma direita radical crescia, com base nas dolorosas lembranças dos 30 anos de comunismo, que contaminaram os partidos de esquerda para onde fluíram muitos ex-políticos do regime cadente.                       

Surfando no clima de anti-comunismo dominante, a extrema direita conseguiu algumas importantes vitórias em 2005, para em 2015, o PIS, seu principal partido, conquistar a maioria na Câmara e no Senado, repetindo seu sucesso nas eleições presidenciais de 2019 com Andrei Duda, que foi reeleito neste ano de 2020.

 O candidato centro-direitista Trzaskowski ficou em segundo lugar, num pleito decidido somente no 2º turno. O candidato da esquerda social-democrata ficou longe.

A plataforma de Duda, apresentada na sua campanha eleitoral, destacava a defesa dos valores da família polonesa, a proteção das crianças contra a “a ideologia estrangeira LGBT+”, o que incluía  a proibição dos casamentos de mesmo sexo, da adoção de crianças por gays e da propagação da “ideologia LGBT+” nas escolas e instituições públicas.

Nos discursos da campanha, o presidente reeleito fartou-se de prometer defender as tradições católicas polonesas da influência de alemães, estrangeiros e gays.

Os alemães foram incluídos nesta lista negra, não só pelos anos atrozes da dominação nazista, mas também porque o país de Ângela Merkel é visto popularmente como um estrangeiro imperialista, assombrando a vizinha Polônia.

Duda deverá ter em seu apoio a maioria dos bispos e cardeais poloneses que costumam comparar a “ideologia LGBT” ao comunismo, ao nazismo ou à pandemia. MarekJedrazewski, arcebispo de Cracóvia, ao falar no dia de Corpus Christi, denunciou que as ideologias estrangeiras “corroem as instituições do casamento e da família.”

Junto com sua “cruzada”, o novo presidente vai certamente pressionar para que sejam completadas as reformas da justiça e da imprensa, já iniciadas no seu primeiro mandato. O objetivo é colocar sob controle estatal estas duas áreas, visando calar juízes e jornalistas, que teimam em obstaculizar as práticas ilegais do seu governo.

A reforma judiciária de Duda foi contestada severamente pela União Europeia. Relatório do Comitê de Liberdades Civis, Justiça e Assuntos Internos do parlamento europeu condenou:”…a contínua deterioração da democracia, do Estado de Direito e dos direitos fundamentais na Polônia (MSN News, 16-07-2019).” Foi destacada a falta de independência e de imparcialidade dos tribunais e dos juízes, decorrente das novas leis do governo do PIS.

O relatório do comitê do parlamento europeu aprovou por 52 votos versus 15 um pedido para que as 26 nações da União Europeia acelerem um procedimento legal contra Varsóvia, o qual poderá suspender os direitos de voto da Polônia nas questões do bloco de nações do Velho Mundo.

Atualmente, o radicalismo de direita não é unanimidade. Ele venceu o pleito deste ano por uma diferença mínima. Quase a metade dos votos foi para a Plataforma Cívica, partido de centro-direita liberal, que obteve maioria nas cidades grandes e junto ao público com menos de 50 anos, enquanto as pessoas acima dessa idade e habitantes das pequenas cidades somaram com Duda e o PIS.

A grande maioria dos jovens poloneses não está em cima da janela para ver a banda passar. Promovem frequentemente grandes manifestações de protesto contra as leis e ações mais reacionárias do governo, haja ou não repressão policial violenta.

Nas próximas eleições, é bem possível que os poloneses mais velhos e habitantes do interior comecem a abrir os olhos.

A União Europeia, por sua vez, está atenta aos desvios autoritários do regime do PIS, fazendo as devidas ameaças quando necessário.

Embora Duda e seus iguais sejam todos eles nacionalistas xenófobos e contrários ao multilateralismo, não convém ao país sair da União Europeia, especialmente via expulsão.

O que limita a ação corretiva da instituição europeia é a necessidade das suas decisões serem aprovadas por todas as 26 nações que a integram. Orban, governante da Hungria, tão autoritário quanto Duda, não vai deixar seu parceiro na mão.

Mas, o tempo corre contra ele. É cada vez maior a rejeição da população húngara. Por sua vez, a oposição vem crescendo continuamente. Se esse ritmo não parar, chegará a hora em que Orban se verá obrigado a ser mais cordato com a União Europeia, do que com seu confrade de Varsóvia.

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