A normalização das relações Israel/Mundo Árabe subiu no telhado.

A normalização das relações Israel/Mundo Árabe subiu no telhado.

Naquele dia, estava tudo armado em Washington.

A hora em que o avião do príncipe aterrissaria, a casa onde ficaria, o local onde seria gravado seu encontro com Netanyahu ele anunciaria a normalização das relações sauditas com Israel, assistida por dezenas de milhões de americanos, através das cadeias de Rádio e Tv.

E aí, surpresa, a notícia soou como uma bomba: Mohamed bin Salman, o príncipe coroado da Arábia Saudita, não viria mais. E o show montado por Donald Trump – durante a conferência de paz árabe/israelense – perdeu sua grande atração.

MBS (apelido do príncipe), a princípio até que gostou do plano de Trump. No entanto, exigia que sua presença em Washington fosse mantida em rigoroso sigilo, só sendo revelada quando o conclave já tivesse começado. Bin Salman sabia que o assassinato do jornalista Kashoggi horrorizara os americanos, até mesmo os congressistas dos dois partidos. Temia que seria recebido por grandes e furiosas manifestações de protestos, divulgadas pela TV em todo o mundo. Seria humilhação demais e repercutiria de modo devastador à sua imagem internacional.

Os assessores insistiram que não valia à pena MBS arriscar-se, já que o vazamento da viagem era provável. E ainda havia a declaração do rei Salman, condicionando a independência palestina à aprovação de laços amigos com Israel. Será que ele a repetiria?

E assim o príncipe bin Salman decidiu ficar em casa (Middle East Eye, 25-08-2020).

A perspectiva da Arábia Saudita fazer as pazes com Israel faria com que muitos estados árabes que respeitam a liderança do reino do deserto corressem a imitá-lo.

A conferência – mesmo sem o príncipe saudita- estava sendo divulgada como uma reunião convocada por Washington para discutir a paz no Oriente Médio, na qual os sauditas, os estados do Golfo Arábico e mais alguns de outras plagas, trocariam cordiais abraços com os israelenses e anunciariam uma frente comum contra o fantasma iraniano.

Tudo sob a sombra benévola do grande articulador da paz, Donald Trump.

Depois da desistência de MBS, o brilho do evento apagou-se de uma vez quando nenhum país árabe topou imitar a decisão da União dos Emirados Árabes. E não adiantou mandar o secretário de Estado Pompeo percorrer o Oriente Médio para pressionar os países da região. Alegando diversos motivos, Qatar, Omã, Sudão, Egito, Kuwait, Marrocos e até o semper fidelis Bahrein disseram “não”: topam ir à reunião de Trump, mas continuam negando-se a estabelecer relações com Israel.

Grande decepção para The Donald. O presidente contava conquistar muitos votos na próxima eleição presidencial posando como o estadista que retirara Israel do seu isolamento no Oriente Médio, forjando uma sólida união do seu aliado número 1 com os estados árabes.

Apesar das cornetas triunfais, a promoção desse soi disant acordo de paz União dos Emirados/Israel valia pouco. Em primeiro lugar porque sequer seria um acordo de paz, algo que exige a assinatura de estados em guerra, coisa que não ocorre entre Israel e a União dos Emirados, países, aliás, que vem mantendo, secretamente, acordos nas áreas da segurança e do comércio, há muitos anos.

Para Netanyahu, embora circunscrito aos Emirados, o acordo é vantajoso pois melhora a imagem interna do premier, enxovalhada pela sua posição de réu de corrupção em processo movido pelo próprio procurador-geral, e por sucessivas manifestações populares atacando o chefão do Likud..

Quem acabou fazendo mau negócio foi a União dos Emirados Árabes.

Embora o príncipe herdeiro, Mohamed bin Zayed, ditador de fato dos Emirados, não costume dar a menor atenção a seu povo, ele respeita a opinião pública do mundo árabe como um todo. Os cidadãos dos países dessa parte do orbe defendem de modo intenso os interesses do povo palestino. As últimas pesquisas revelam que 75% dos habitantes da região aceitariam que seus países fumassem o cachimbo de paz com Israel, desde, é claro, que o governo de Jerusalém retirasse suas tropas da Palestina ocupada e concedesse independência à Palestina, em termos aprovados pelos líderes rebeldes.

Juntando-se ao algoz dos palestinos, o governo de Manassa ficou sujo com a massa dos habitantes dos países árabes.

Tentando salvar sua face, Zayed anunciou que ao assinar o acordo, Israel se comprometera a suspender a anexação de 1/3 da Palestina ocupada.

 Forget it, disse Netanyahu, pois uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, a anexação não estava na mesa do acordo, seu governo a executará quando achar conveniente.

Ele brecou temporariamente a anexação porque os países europeus protestaram com inusitada indignação, a União Europeia ameaçou cortar seus laços com Israel e, conforme  Heiko Maas, o ministro do Exterior alemão, contou a Netanyahu, havia países que falavam em impor sanções a Israel. O próprio Trump, assustado com o barulho atroador causado pela iniciativa israelense, pediu que fosse adiada.

Tudo bem para o chefe israelense. Mas, suspensão, nunca!

O príncipe ainda não havia se recuperado do choque de ver virar pó seu fulgurante anúncio, quando sofreu mais um golpe.

Ele havia solicitado aos EUA a venda do F-35, afinal Israel só teria a ganhar no fortalecimento da aviação do seu agora aliado, os Emirados dos países do Golfo.

Ledo engano.

Israel protestou contra esse negócio.

Para garantir a segurança do país, os EUA tinham jurado ajudar a garantir a superioridade das forças armadas israelenses sobre as de todos os países árabes somados (por isso mesmo, dá anualmente a Israel 38,8 bilhões de dólares em armamentos avançados). Ora, contando com o F-35, a aviação dos Emirados seria (teoricamente) páreo para a aviação de Israel. Hoje os dois países juram amizade eterna, mas no futuro, chi lo sai. Portanto, Israel insistia, Trump jamais poderia colocar o F-35 nos hangares de Abu Dhaib.

Ora, para o morador da Casa Branca, os desejos de Israel são ordens. Ainda mais tendo em vista a aproximação da próxima eleição presidencial. Mas, não pense que Trump está de olho no voto dos judeus americanos, já que eles deixaram de ser defensores incondicionais das políticas israelenses.

Pesquisas mostram que a maioria desse pessoal é contrária a posições fundamentais do governo Netanyahu. Em pesquisas, 64%, por exemplo, declararam-se favoráveis ao acordo nuclear com o Irã e 66% queriam o desmantelamento de assentamentos de Israel na Cisjordânia e em Jerusalém (Laura Friedman em “A Comunidade Judaico-Americana e a Eleição Presidencial de 2020”).

O que interessa a Trump é o dinheiro dos bilionários americanos de origem judaica. Como The Donald não gosta de gastar o dele, conta com as doações desses poderosos magnatas para abastecer as arcas de sua campanha eleitoral.

Inquirido sobre o impasse entre os recém-amigos Israel e Emirados Unidos, o pai da transbordante Ivanka informou, ambiguamente, que a venda dos F-35 poderia acontecer um dia…Quem sabe? Observou estar satisfeito ao ver que os senhores dos Emirados tinham suas carteiras bem nutridas uma vez que pretendiam comprar um avião caríssimo.

O que se sabe é que somente Bibi Netanyahu saiu ganhando no seu enlace político com os emires do Golfo Arábico. Ficou frustrado, é verdade, com a negativa dos outros países árabes em seguir os passos da União dos Emirados. No entanto, ainda resta uma esperança para o premier: Trump não desistiu e poderá conseguir a adesão de talvez alguns dos monarcas ou dos generais-ditadores que ousaram desprezar as ordens da potência mais poderosa do mundo.

Há dois meses da eleição, as coisas vão mal para o golfista da Casa Branca. Biden galopa bem à sua frente na corrida pela presidência. As pesquisas continuam implacáveis.

Para virar o jogo, The Donald precisa de fatos novos de grande impacto popular, como, por exemplo, seu hoje fracassado feito “histórico”, na sonhada aproximação de um punhado de países árabes a Israel, um movimento até agora solidamente empacado. Se desse certo, poderia vitaminar as chances de sua atualmente esquálida candidatura.

Conjectura-se que existiriam jogadas eleitorais de grande efeito, mas que tem o defeito de serem suscetíveis de estourar nas mãos do suposto beneficiário, causando perdas, em vez de ganhos.

Lançar uma vacina contra o covid19 antes das eleições, saltando etapas cientificamente indispensáveis, exigiria o apoio de entidades médicas ou grupo de cientistas de moral notoriamente duvidosa, portadores de escassa credibilidade.

Lançar um ataque contra o Irã, do tipo daquele que vitimou o General Suleimani, onde havia um risco virtual das coisas saírem do controle, seria uma ideia por demais perigosa. Caso o inimigo retaliasse brandamente, como o fez no assassinato daquele comandante das operações internacionais de Teerã, tudo bem. O povo americano valorizaria seu presidente, por dar um chega prá lá naqueles audaciosos xiitas. E as chances de Trump aumentariam.

Mas, se eles contra-atacassem de forma mais violenta do que o aceitável, aí os EUA se veriam obrigados a responder com força ainda maior.

E a paz iria para o brejo.

Como o povo americano, em inúmeras pesquisas, vem se posicionando firmemente contra novas guerras, o feitiço acabaria virando contra o feiticeiro.

São ideias loucas, absurdas.

Lembro que The Donald tem uma vontade louca de se reeleger.

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