Dilma na ONU: política externa não muda

Para tristeza da Folha e do Estadão, Dilma desfez todas as dúvidas. Por seu discurso na ONU, ficou bem claro que a política externa brasileira continua independente.
Foi esse o principal destaque da apresentação da presidente brasileira.

À parte seus tiques de feminista provinciana, quando ressaltou ser “a primeira voz feminina” a falar na inauguração da ONU”, fato que não surpreende  no mundo civilizado onde inexiste machismo, o aspecto negativo foi o estilo um tanto sobre o amorfo, típico da diplomacia de Antonio Patriota. Segundo a Folha, a própria Dilma fez essa crítica e incluiu “expressões fortes” no discurso que o Itamarati tinha escrito para ela.
Sendo o conteúdo normalmente mais importante do que a forma, o discurso da presidente merece, na minha opinião, uma nota alta por manter, com altivez,  a linha de independência do governo anterior.
Com isso, chocou-se com as principais posições da política americana e dos atuais governos conservadores das grandes nações da Europa Ocidental. Como se verá a seguir, em alguns casos ela poderia ser mais afirmativa, explicitar melhor seu pensamento, embora não necessariamente dar nome aos bois, talvez inadequado para a solenidade.
Acho que ela defendeu o reconhecimento do estado palestino pela ONU de uma maneira excessivamente soft.  Poderia contestar a teoria das “negociações”, lembrando que se tratava de um caminho trilhado sem êxito há 19 anos. E que, ao atender o pedido dos judeus de reconhecimento do Estado de Israel, em 1948, a ONU não exigiu negociações prévias com os árabes. Por que no caso da Palestina elas seriam necessárias?
A presidente do Brasil foi corajosa quando afirmou que há violações dos direitos humanos em todos os países, sem exceção. Como diz a Folha, ela colocou…   “no mesmo patamar os Estados Unidos…e países criticados por Washington por violar direitos humanos como o Irã.”
Claro, gostaríamos que ela denunciasse o caradurismo de países como os EUA que denunciam com horror desrespeitos a direitos humanos no Irã e praticam ações semelhantes em Guantanamo. Seria pedir demais uma menção explícita, mas Dilma poderia referir-se aos países que manipulam a causa dos direitos humanos em proveito dos objetivos externos, apesar de estarem longe de serem exemplares nesse quesito.
O repúdio “às repressões brutais que vitimam populações civis” era esperado. E foi correto. Mas foi errada, típica da imprensa que informa mal, a interpretação da Folha. Ao afirmar que Dilma se referiria apenas à Síria e à Líbia, omitiu que Iemen e Bahrein (governos aliados aos EUA), também se enquadram na categoria dos regimes que atiram no povo.
Depois de agradar a todos com essa postura, Dilma enfrentou consensos, ao classificar as intervenções militares como última alternativa. Eufóricos com sua operação aérea bem sucedida na Líbia, os EUA, a França e o Reino Unido não devem ter recebido bem esta afirmação. Especialmente por que cogitam de repetir sua ação na Síria. Também não gostaram da censura implícita à ação da OTAN que extrapolou sua missão na Líbia: ao pretender proteger os civis de Bengazi contra as ameaças apocalípticas de Gadafi, matou centenas de líbios das cidades sob o ditador. Isso sem falar no bombardeio de regiões habitadas,  palácios, reservatórios de água, refinarias e das tropas adversárias em retirada, sem condições , nem intenções de atacar qualquer outra cidade rebelde. Nada a ver com a autorização para “criar uma zona de exclusão aérea sobre Bengazi”.
Dilma ponderou, ainda, que intervenções militares acabam plantando sementes de terrorismo em países onde antes não havia, além de causar a morte de inúmeros civis. Caso do Iraque, sem tirar nem por.
Faltou falar de outras alternativas para conter regimes que violam direitos humanos. Poderia citar as sanções contra o governo racista da África do Sul que resultaram no fim do apartheid.
Também vale destacar a condenação das velhas idéias dos velhos países que conduziram à crise que o mundo está tendo de amargar. Referia-se, é óbvio, aos dogmas do FMI e do Banco Mundial que provaram na prática seu fracasso. E que ainda vigoram na Europa quando, por exemplo, impõem à Grécia um arrocho tão violento que o país será incapaz de gerar impostos suficientes para pagar seus compromissos.
Não vou comentar a oferta de ajuda financeira às grandes nações em crise,  pois não tenho condições de dizer se tem sentido ou não passa de mera bazófia, típica da época ufanista e triunfalista do “nunca antes em tempo algum”.

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