Derrotas do lobby pró-Israel favorecem mudanças.

A AIPAC é o principal lobby pró-Israel dos EUA.

Conta com 100 mil membros em todo o país, inclusive algumas das maiores fortunas. Em 2012, seu orçamento foi de 65 milhões de dólares a serem gastos na promoção de suas idéias.

Segundo J.J.Goldbergh em seu livro, The Jewish Power, a AIPAC  durante a campanha eleitoral de 1994, contribuiu com 45% dos recursos dos candidatos democratas e 25% dos republicanos.

Em 2006, Richard Cohen, no Washington Post, atualizou esses números para 60% e 35%, respectivamente.

Com essas credenciais, a AIPAC tem exercido forte influência no Congresso americano na defesa dos interesses do governo de Telaviv.

Sob seu patrocínio, em 2013, o Comitê de Relações Exteriores do Senado aprovou a Resolução 65, indicando que, caso Israel ataque o Irã, os EUA devem apoiar incondicionalmente, inclusive com ações militares.

Ou seja, Tio Sam teria de obedecer às decisões de Telaviv, como se fosse um mero satélite.

Na verdade, só se Obama quizer pois essa resolução é apenas uma posição, não tem força de lei.

Também estimulada pela AIPAC, a Casa dos Representantes procurou sabotar o acordo de paz com o Irã, fulminando Teerã com novas e ainda mais terríveis sanções.

Aí, se deu mal.

O projeto chegou ao Senado para discussão final virtualmente aprovado, com o endosso de 59 parlamentares – todos os republicanos- menos 2, e parte dos democratas.

Mas, o presidente Obama, foi contra.

Mostrou que a medida marcaria o fim da diplomacia na questão nuclear iraniana e os EUA seriam empurrados para a guerra.

Enquanto isso, 75 organizações pacifistas, religiosas e de ação cívica bombardearam os senadores com milhares de petições, emails e chamadas telefônicas exigindo a negação de novas sanções.

No mesmo sentido se pronunciaram quase todos os jornais de âmbito nacional e regional, além dos meios intelectuais, com exceção dos neo-conservadores.

Acrescente-se o apoio ao acordo com o Irã por parte da maioria da população americana – 60%, conforme pesquisa nesta semana  Associated Press- GIK.

Com isso, Obama encontrou força para, pela primeira vez em seus 5 anos de governo, de uma só vez, enfrentar os lobbies pró-Israel e ameaçar o Congresso com um veto.

Mas a AIPAC e seus mais fiéis senadores não desistiram.

Trataram de suar a camisa para conseguir mais votos que lhes garantisse a derrubada do veto presidencial.

Está acontecendo o contrário.

Alguns democratas voltaram atrás, resolveram dar uma chance à paz.

E aí – surpresa – parece que a AIPAC vai perder esta parada.

Foi a terceira vez em apenas um ano.

A primeira aconteceu quando Obama indicou Chuck Hagel para a secretaria da Defesa e os líderes do lobby fizeram uma grande campanha contra.

Não aceitavam a nomeação para cargo tão importante de um político que sempre rejeitou a influência da AIPAC na política externa americana.

Mas Hagel venceu, com apoio de uma sólida maioria.

No segundo semestre, a AIPAC novamente entrou em ação.

Desta vez, ela formou ao lado de Obama.

Tendo acusado Assad da autoria de ataque químico, o presidente americano pediu o aval do Senado para bombardear Damasco.

Netanyahu deu seu OK e a AIPAC lançou-se ao trabalho de convencimento dos senadores.

Inesperadamente, Obama e o lobby pró-Israel perderam.

Diante das pesquisas que mostravam a maioria dos americanos contra  a ação militar, uma onda pacifista começou a se espalhar entre os senadores democratas.

Nas hostes republicanas, o grupo daqueles que sempre se opõem a tudo que Obama propõe,  foi inflexível.

E o presidente desistiu.

Aderiu à proposta russa, aceita por Assad, de destruir todo o armamento químico sírio.

E ainda acabou saindo bem, celebrado por seu equilíbrio e moderação apesar de, no caso, ter sido pacifista malgré lui.

Estas 3 derrotas da AIPAC são de uma importância muito maior do que está sendo atribuída, pelo menos no Brasil.

Elas rompem o mito da invencibilidade do Israel, first nas discussões da política americana no Oriente Médio.

Para muitos observadores, os rumos  dessa política tem sido traçados em Telaviv e impostos à América, através da AIPAC e de outros lobbies pró-Israel.

Há um  certo exagero nisso.

Embora os parlamentares americanos normalmente ecoem as posições de Israel, alguns presidentes tem apresentado, temporariamente, posições até divergentes.

Obama, por exemplo, em 2009, condenou os assentamentos, propôs que as fronteiras do futuro Estado palestino fossem as de 1967 e parece estar agora tentando convencer o governo de Israel a aceitar um acordo de paz decente com os palestinos.

No entanto, tudo ainda não passou de words, words, words

Os EUA não tomaram nenhuma atitude efetiva contra os assentamentos. Ao contrário da Europa, que já baniu acordos com entidades israelenses da Palestina ocupada.

As fronteiras de 1967 já foram “modificadas” por Obama para respeitar certos assentamentos de Israel na Cisjordânia.

E, embora rudemente atacado até por ministros israelenses, Kerry acabou de declarar, em Davos, que só haveria um Estado palestino quando Israel tiver suas exigências de segurança atendidas.

Ou seja, “nunca”, pois elas implicam na manutenção do vale do Jordão sob controle do exército de Israel e dos assentamentos ali existentes. O que os negociadores palestinos já declararam inaceitável.

A futura Palestina independente ficaria com uma área mínima, de territórios não contíguos. Cercada por todos os lados por Israel, já que não teria fronteiras com qualquer outro país.

Mesmo admitindo que, provavelmente, Kerry estaria com boas intenções, nada indica que o governo americano, na hora da decisão final das negociações, irá contrariar Telaviv.

Pelo contrário, ele sempre defendeu Israel incondicionalmente na ONU – tanto no Conselho de Segurança, quanto na Assembléia Geral e na Comissão de Direitos Humanos, na UNESCO e nos demais foros internacionais.

Graças aos bons ofícios do seu aliado especial americano, o governo israelense safou-se de um sem número de condenações internacionais por várias e constantes violações dos direitos humanos dos palestinos e do direito internacional.

No parlamento, os deputados  e senadores americanos vem votando medidas claramente inspiradas por Telaviv e empurradas  pela AIPAC e similares.

O rompimento dessa rotina com as 3 derrotas da AIPAC e dos interesses israelenses,  parece indicar que alguma coisa está mudando.

O povo americano está farto de guerras e não fica mais tão entusiasmado com as façanhas heróicas dos seus soldados porque custam caro em termos humanos e financeiros.

A crise recente, da qual o país começa a sair penosamente, teve um efeito educativo, convenceu o povo da importância de não se esbanjar seus recursos em aventuras no ultramar.

O perpétuo estado de guerra ao terror já não é mais mobilizador, o atentado de 11 de setembro está se tornando uma página virada.

Os americanos não estão mais tão dispostos a renunciar de seus direitos à liberdade e ao bem estar em função da segurança.

É certo que Israel continua muito forte nos EUA, com suas bandeiras conduzidas pela AIPAC e similares.

No entanto, sempre que colidirem com os anseios dos americanos por paz e direitos individuais, elas podem ser derrotadas.

O presidente Obama tem agora uma grande chance para começar as mudanças na política externa, prometidas em 2008.

 

 

4 pensou em “Derrotas do lobby pró-Israel favorecem mudanças.

  1. Muito lúcido, gostei bastante do seu texto. É importante ressaltar também o papel que o BDS (Boycott, Divestment and Sanctions) está tomando pelo mundo.

  2. Caro Luiz Eça, ao se referir a lobbies pró-Israel, não deixe de considerar que há fortes grupos judaicos que , mesmo sendo pró-Israel, são pelo fim da ocupação dos territórios tomados na guerra de 1967. Sugiro acompanhar a dinâmica do Jstreet, que é o principal deles. Têm levado, ano após ano, militares da reserva e mesmo ex-oficiais do Mossad, para mostrar ao Congresso e ao executivo as posições da oposição israelense.

  3. Bem, Israel teme os acordos não por ser contra a paz mas por ser a favor. Pensem. Um país de cultura muçulmana que prega frequentemente destruir Israel está enviando frequentemente armas a Gaza. Esse mesmo país resolveu desenvolver urânio. Vamos apoiar ou ir contra? Esse é o raciocínio Israeli. Agora sobre os assentamentos. Maioria quer apenas Jerusalém unificada e do resto fazer o estado da Palestina. Alguns tbm qrem o Jordão. Esses não vêem os palestinos como minoria. Vêem eles como árabes e é sabido que os árabes são maioria na região. Israel é 1/6 de 1% do mundo árabe. Eles apenas querem evitar viver entre os árabes pq existe a idéia de guerra demográfica e judeus não se imaginam vivendo sob a sharia da opressão. Sem os feriados, sem as liberdades ocidentalizadas, etc. Outros no caso menos da metade da população acha que tem direito a toda a terra pois a consideram como presente divino do povo hebreu/judeu e crêem que já que a Síria, O Egito e a Jordânia anexariam essa região se n fosse as nações unidas decidirem por Israel eles têm o direito. Até 48 a região da Cisjordânia era apenas conhecida como Judea e Samaria. Cisjordânia, Transjordânia, Jordânia. Mesma cultura, língua, fé e uma bandeira se não igual mto similar. Eles apenas vêem o direito história de habitar livres uma região de onde herdaram o nome judeu. Judea. Mas pela demografia acredito na solução de 2 estados.

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