Democracia ou hipocrisia

“Deus deu aos EUA a responsabilidade de liderar e conduzir o mundo no caminho da liberdade, também deu ao país uma grande tarefa: prover a segurança que garante a liberdade”.
(John Ashcroft, Secretário da Justiça no 1º. governo Bush)

“O destino da Europa e da Ásia não foi confiado por Deus aos Estados Unidos, e apenas a arrogância, os sonhos de grandeza, os vãos desvios de imaginação, a sede de poder ou o desejo de escapar de nossas obrigações e nossos perigos internos poderiam nos levar a supor que a Providência nos tivesse indicado como o povo escolhido por Ele para pacificar o mundo”.
(Charlie Beard, grande historiador americano)

No discurso de posse, Bush afirmou: “A política dos Estados Unidos é promover e apoiar o crescimento dos movimentos e instituições democráticos em cada nação e cultura, com o objetivo final de acabar com a tirania em nosso mundo”.

Poderia começar por seu próprio país.

Ali, graças às leis Patriot 1 e 2 (de sua autoria), os cidadãos podem ser tiranizados pelo governo.

Quem, mesmo inocentemente, ajudou organizações ligadas a grupos considerados terroristas pelas autoridades perde a cidadania e pode ser deportado, sem direito a revisão judicial. Para os estrangeiros residentes no país é ainda pior. Estão sujeitos a prisões secretas, deportações arbitrárias e julgamento por tribunais militares – sem respeito às normas jurídicas vigentes.

As leis Patriot autorizam ainda os agentes a arrombar a casa de qualquer pessoa e revistá-la, sem conhecimento do proprietário. A acessar os extratos de cartão de crédito e outras informações particulares, dispensando aprovação judicial prévia e o consentimento do cidadão.

Entre outras violações dos direitos individuais está a inversão do ônus da prova para os acusados de terrorismo que perdem a “presunção de inocência”, salvaguarda fundamental nas sociedades civilizadas.

As leis Patriot foram apresentadas como provisórias, para garantir a segurança dos Estados Unidos num período de quatro anos. O prazo da Patriot 1 vence em 2005, mas Bush já fala em prorrogá-la. A Patriot 2 deverá ficar até 2009, mas ninguém garante que ambas não continuarão por muito tempo ainda.

Quem sofreu mais a tirania do governo Bush são sem dúvida os presos de Guantanamo e o povo do Iraque.

A prisão de Guantánamo é chamada pela Anistia Internacional de “a imagem da ilegalidade” (“icon of lawlessness”). Ali, 650 suspeitos de terrorismo estão presos, alguns há mais de 3 anos, sem acusação formal, acesso a advogado e prazo de detenção, com julgamento por comissões militares, ninguém sabe quando. O governo americano classifica-os como “combatentes inimigos”, não protegidos nem pelas leis americanas, nem pela convenção de Genebra. Verdadeiros párias, a mercê de seu captor, o exército que garante que eles são tratados humanamente. No entanto, advogados ingleses e americanos do Centro de Direitos Constitucionais, a Cruz Vermelha Internacional e até o FBI produziram relatórios denunciando constantes abusos e torturas.

Até agora, Bush tem se preocupado mais em exportar a democracia para outros países do que em cuidar da qualidade da sua.

As eleições do Iraque parecem ter sido uma operação desse tipo bem sucedida. Mas, não se pode desvinculá-la do seu contexto.

Desprezar o direito de autodeterminação dos povos e as regras da ONU, invadindo um país, sob pretextos comprovadamente falsos. Destruir sua economia, uma das mais pujantes da região, hoje com 70% de desempregados. Matar 100 mil iraquianos (segundo pesquisa das universidades americanas John Hopkins e Columbia). Causar a expansão do terrorismo num país onde não existia.

Parece que a implantação da democracia à força, está custando um preço demasiadamente alto ao povo do Iraque, o qual ainda não se sabe se será compensado futuramente pelo estabelecimento de um regime independente e livre.

Mas, dizem os otimistas, no discurso de posse, Bush não falou em guerra e Condoleezza Rice, o falcão em pele de pomba, percorreu a Europa jurando que chegou a hora de trocar as bombas pela diplomacia. É verdade que, na França, ela esqueceu as falas do seu novo papel. Ao ser perguntada se os EUA pretendiam invadir o Irã, deixou escapar que “simplesmente não está na agenda neste momento”. Mais adiante, chi lo sa?

Bush falou também em seis principais tiranias que os EUA pretendiam democratizar. Cheney e Condoleezza explicitaram quais eram: Cuba, Mianmar, Coréia do Norte, Irã, Bielorússia e Zimbábue, por coincidência países fora da órbita americana.

Outras tiranias não foram mencionadas, os “tiranos do bem” para o maniqueísmo “georgista”, países onde os Estados Unidos tem grandes interesses econômicos e sólidos apoios políticos.

Por exemplo, a Arábia Saudita, que não permite partidos de oposição organizada, nem imprensa livre, nem voto feminino, nem eleições governamentais; o Uzbequistão, para a Human Rights Watch “um dos mais repressivos dos novos estados independentes”, onde esta ONG descobriu 505 presos políticos, dos quais 14 vieram a morrer na prisão e 5 desapareceram, “sem evidência de qualquer deles ter cometido crimes graves”; a Líbia, do outrora inimigo Gaddafi, recém-convertido ao time dos good guys; a Guiné Equatorial, o Egito, o Kuwait, a China – respeitada pelo seu imenso mercado e imensas compras de títulos americanos, países nada democráticos.

Isso lembra os tempos da guerra fria, quando os Estados Unidos apoiavam ditaduras selvagens porém aliadas, como as de Pinochet, Somoza, Batista e Trujilo.

Estes fatos não combinam com a apregoada dedicação sem limites de Bush à democracia. Mas ele não se toca, pois, como já disse: “eu sou o comandante – não preciso explicar. Não penso que deva explicações a ninguém”.

Yawohl, mein fuhrer.

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