Delenda Teerã

Quando Roma já era uma das maiores potências do mundo antigo, a cidade de Cartago disputava com ela o controle dos países do mar Mediterrâneo. Para o partido da guerra romano, a solução correta seria destruir a rival. Tendo isto em mente, um dos seus líderes, o senador Catão, terminava todos os seus discursos repetindo: delenda Cartago, ou seja, Cartago deve ser destruída. No fim, foi o que acabou acontecendo.

A história se repete. Israel é a mais poderosa potência militar no Oriente Médio. Seus líderes proclamam que esta posição tem de ser mantida por uma questão de segurança. Perdendo-a, os países islâmicos hostis que a cercam, fatalmente lhe moveriam guerra. E acabariam com Israel.
Isso é o que eles dizem, os representantes do complexo industrial-militar que domina o país há muitos anos. Não por coincidência, grande parte dos governantes do país foram generais. Eles sustentam que para ser o mais forte, Israel tem de investir muito em armamentos. Daí a força da indústria de armamentos, hoje a quarta do mundo, apesar do país ter pouco mais de 7 milhões e quinhentos mil habitantes.
Seja como for, esta idéia de superioridade bélica na região ser essencial à segurança do país foi vendida à população israelense que, em sua maioria, a comprou de olhos fechados.
O perigo veio quando o Irã cresceu aceleradamente nas últimas décadas, quer econômica, quer militarmente. Pode se dizer que, nos dias de hoje, é páreo para Israel. Descontando, é claro, as 200 a 300 bombas nucleares que Israel tem em estoque.
Desde a revolução islâmica, em 1979, o Irã tornou-se um campeão da volta dos árabes expulsos da Palestina pelo exército israelense, durante as guerras de 1948 e1967.
Seu atual presidente, Ahmadinejad ronca grosso, chegou a ameaçar de varrer Israel do mapa.
Mera bravata, nenhum israelense inteligente acredita que ele seja capaz disso. Mesmo que venha a ter armamentos nucleares. Demoraria muitos e muitos anos para o Irã conseguir produzir um número desses engenhos comparável aos 200 a 300 de Israel, sem contar que, caso houvesse uma corrida atômica, os israelenses teriam  ampla vantagem, já que sairiam com centenas de bombas estocadas.
 Aliás, talvez com medo das conseqüências de suas ameaças, Ahmedinejad já reiterou que fora mal entendido, não seria o Irã que acabaria com o estado sionista, mas sim a História. Mesmo porque seria loucura enfrentar os EUA, o “aliado especial” de Israel.
Tudo isso os líderes de Israel estão cansados de saber. Mas não vão perder este mote para mobilizar os governos ocidentais, especialmente os EUA, contra o fantasma do Irã, um “rogue state “ (país desrespeitador das leis) ,nuclearmente armado, que poderia destruir Israel e , por que não?, os  EUA e a Europa. Evidentemente isso seria muita areia para um relativamente pequeno caminhão. Mas o Ocidente foi devidamente assustado e convencido. Aí, que venham rodadas e mais rodadas de sanções cada vez mais terríveis. Se não derem certo, delenda Teerã, que venha a guerra pois a revolução islâmica tem de ser destruída para que Israel não tenha competidores à altura no Oriente Médio.
Desmascarando essa teoria da ameaça nuclear iraniana a Israel e ao mundo, alguns dos principais líderes do país, “en famille” ou mesmo por distração, tem demonstrado que não é mesmo pra valer.
Recentemente, o Ministro da Defesa, Ehud Barak, declarou à revista alemã Der Spiegel não acreditar que o programa nuclear militar iraniano destinava-se a destruir Israel. Afinal, disse ele, o país está cercado de potências atômicas – Índia, Paquistão, Rússia, China e o próprio Israel. Se ele, Barak, fosse iraniano, haveria de querer ter bombas atômicas para se defender.
Informa o jornal israelense Haaretz que, ainda no dia 27 último, Tamir Pardo, chefe do Mossad (serviço secreto), em reunião com 100 embaixadores, declarou que não considerava um Irã com bombas atômicas uma ameaça à existência de Israel.
E, quando se falava que o ministério estaria discutindo sèriamente a idéia de bombardear as instalações nucleares iranianas, o antecessor de Pardo no Mossad, Meir Dagan, taxou a idéia da coisa mais estúpida do mundo.
Apesar dos seus dirigentes não serem estúpidos, os EUA discordam dele, pois tem todo interesse em liderar o coro do “delenda Teerã”.
 Em primeiro lugar, por que não admitem em hipótese alguma a existência de uma potência hostil que possa disputar a hegemonia no Oriente Médio com eles.  Afinal, lá estão as maiores reservas de petróleo do mundo e os americanos precisam dispor delas para alimentar seu gigantesco consumo de gasolina e óleo. Evidentemente, as petrolíferas americanas também estão de olho no grande potencial de petróleo do Irã, o 4º produtor do mundo. Mas, isso vem por acréscimo.
Em segundo lugar, porque para Obama liderar esta guerra por enquanto fria contra o Irã é necessária para manter a maioria dos votos e dos financiamentos eleitorais da comunidade judaico-americana. Ainda mais agora que os republicanos insistem em atacá-lo por uma suposta “fraqueza’ na defesa de Israel (e dos EUA, segundo eles) contra a ameaça nuclear iraniana.
A campanha  de “delenda Teerã” vem dando certo. Tanto os líderes democratas e republicanos nos EUA, quanto a maioria dos chefes de governo europeus (principalmente dos 3 maiores países) consideram inaceitável, fator de risco para a humanidade a posse de armas nucleares pelo Irã. Sequer param para pensar porque um país muito mais agressivo, que é Israel, ou muito mais radical, que é a Coréia do Norte, podem ter armas atômicas e o Irã, que nas últimas décadas jamais invadiu outro país, como Israel, jamais afundou navios de outro país, como a Coréia do Norte, não podem.
Mais: até outro dia, sem qualquer prova, davam de barato que Teerã devia ter um programa militar nuclear.
Agora, o caso chegou a um ponto de crise iminente.
O Congresso americano aprovou uma lei que decreta o boicote do petróleo do Irã. País que importá-lo não poderá mais negociar com os EUA. A Europa fala em fazer o mesmo. Se isso for aprovado, a economia iraniana realmente não agüentará. Nessa eventualidade, o governo prometeu fechar o estreito de Ormuz, por onde passa 1/3 do petróleo consumido no mundo, o que elevará o preço do petróleo a níveis altíssimos, deixando as nações que passam por situações mais difíceis em condições imprevisíveis. Por sua vez, os americanos anunciaram que, nesse caso, reagirão à ação iraniana o que significará guerra.
Podem acontecer alguns fatos que acabem evitando esse cenário tenebroso: Obama vete as novas sanções e os europeus o acompanhem; os iranianos encontrem meios de exportar seu petróleo indiretamente, através de países como a Índia ou a China, sem fechar Ormuz; a Arábia Saudita e os Emirados aumentem sua produção de petróleo para substituir os fornecimentos iranianos e usem oleodutos recém-construídos para exportá-los.
Mesmo que alguma dessas alternativas aconteça e funcione, nem assim o perigo de guerra está afastado.
Netanyahu desta vez foi longe demais na sua pregação em favor do bombardeio das instalações nucleares do inimigo. Explicações dos graves problemas decorrentes do bombardeio do Irã feitas por Leon Panetta, Secretário da Defesa dos EUA, provocaram sua fúria.
Ele enviou o embaixador Oren a Panetta para reclamar em termos candentes. E, como sempre acontece nas disputas entre Israel e EUA no governo Obama, Israel venceu. Panetta em entrevista à rede CBS afirmou que os EUA não tirariam nenhuma opção da mesa para evitar que o Irã produzisse  bombas nucleares. É mais do que o já sovado “todas as opções estão sobre a mesa.”
E indo mais longe. A Casa Branca informou a Israel que não deveria pensar em atacar o Irã. Deixasse por conta dos EUA. Eles já tinham definido um ponto vermelho, que não poderia ser ultrapassado. Caso isso acontecesse,  seriam logo enviados bombardeiros americanos  contra as instalações nucleares dos aiatolás.
O triste é que a temperatura da crise chegou a esse ponto da mais alta gravidade em função de fatos altamente discutíveis: a alegada conspiração para matar o embaixador saudita nos EUA e o último relatório da IAEA (agência atômica da ONU).
Como ficou claro, a conspiração não passou de um blefe. Não se sabe ao certo se foi uma Operação Sting – na qual um indivíduo emocionalmente perturbado é estimulado por um policial disfarçado a atos criminosos – ou uma provocação articulada pelo MEK, movimento terrorista inimigo do governo de Teerã. Mas nenhum observador imparcial deu crédito a uma ação protagonizada por um vendedor de carros usados, bêbado e falastrão, que teria sido credenciado pela Guarda Revolucionária do Irã para contratar uma gangue de traficantes de drogas para matar o diplomata de um país que o Irã procurava agradar.
Não se pode também levar em muita consideração o relatório do IAEA (agência de energia atômica da ONU), cujo diretor-geral mostrou-se claramente favorável às posições anti-iranianas dos EUA, antes mesmo de tomar posse, segundo telegramas revelados pelo wikki leaks. Além disso, apesar de concluir que o Irã estava investido num programa nuclear militar, o relatório informa que nenhuma quantidade de urânio enriquecido poderia ter sido usada com esse fim. Há outros pontos negativos no relatório, tais como, falar na assessoria de um cientista nuclear russo que, na verdade, era especialista em “nano diamantes”, e ter  se baseado em fotos de agências secretas dos EUA, Israel e França- todas interessadas em incriminar Teerã.
Com base em elementos tão frágeis, Obama, que tem se recusado a discutir várias propostas apresentadas pelo Irã nos últimos meses, alegando que eram apenas para ganhar tempo, agora estuda um projeto do Congresso que nega até a ele o direito de manter conversações diplomáticas com o país dos aiatolás. Está muito claro que, para Obama, o Irã pode escolher entre aceitar sem reagir sanções esmagadoras ou encarar uma nuvem de super-bombardeiros e caças F-16 voando sobre Teerã com intenções pouco amigáveis.
Evidentemente, a segunda opção não é desejada por ele. Mas, se o boicote (um ato de guerra, segundo o senador republicano, Ron Paul) sair e o governo de Ahmadinejad reagir, fechando o estreito de Ormuz, os EUA serão obrigados a embarcar na sua terceira guerra regional destes últimos 10 anos.
Haveria uma solução salvadora. Caso não tivesse mesmo um programa militar nuclear (não há indícios de ter,mas nada é impossível), o Irã poderia abrir o país inteiro à inspeção de quem quisesse (incluindo os EUA, mas excluindo Israel, que aí seria demais).
Mesmo assim, dificilmente daria certo. Para Israel, seria inaceitável, o ”delenda Teerã” iria para o espaço. Netanyahu proclamaria que as tais instalações nucleares militares estariam tão bem escondidos que ninguém acharia.
E Obama acabaria engolindo. Embora, ele certamente fosse contra mais uma guerra, não seria mal liquidar esse atrevido país que pretende disputar a hegemonia do Oriente Médio, apoiando os hostis Hamas, Hisbolá e Síria. Ainda mais que discordando de Netanyahu estaria sujeito a perigosas discordâncias com os israelenses.O que forneceria abundante munição para que os pré-candidatos do Partido Republicano, os jornais pró-Israel e os pastores do Cristianismo Sionista acusassem o presidente de “covardia” ou “traição” aos “aliados especais.”
Voltando ao terreno da realidade, se tivesse um pouco da honestidade de propósitos e da coragem de Jimmy Carter, Obama poderia buscar uma solução diplomática. Uma reunião entre ele e Ahmadinejad, com técnicos e não assessores políticos, procurando chegar a uma solução sensata. Seria um passo que ele anunciou várias vezes, nos bons tempos do começo do seu governo, mas nunca concretizou.
Poderia até dar certo. Claro, teria de enfrentar as iras de Netanyahu e dos setores mais radicais dos dois grandes partidos americanos. O Obama da campanha eleitoral toparia essa briga. Mas o Obama de hoje é outro.
De olho nas pesquisas, que apontam pequena vantagem a seu favor, ele nem cogita de uma idéia dessas. Nunca se arriscaria a perder o apoio da comunidade judaico-americana, hoje 62% com ele. Aparentemente, o Obama de hoje prefere arriscar o mundo a mais uma guerra. Desta vez com conseqüências que atingirão a maioria dos habitantes deste planeta.

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