De quem é a culpa?

Sirenes cortando o ar, chamando as pessoas para a proteção dos abrigos anti-aéreos.

Mísseis assombrando o céu, estourados no ar pelos interceptadores do “Domo de Ferro”.

São imagens e sons de pesadelo, que criam um cotidiano penoso para os habitantes de Israel, particularmente às crianças.

Em Gaza é muito pior.

O medo tem muito mais razão de ser.

Enquanto os mísseis palestinos mataram apenas um civil israelense, os bombardeios e a artilharia de Israel mataram até hoje (19 de julho), cerca de 310 habitantes de Gaza.

Diz a ONU que entre 75% e 80% eram civis, inclusive mais de 60 crianças.

O presidente Obama acha pouco.

Ele declarou “esperar que Israel irá continuar agindo no processo de um modo que minimize as vítimas civis.”

Já Nick Clegg, vice- primeiro ministro do Reino Unido não concorda.

Recentemente, ele taxou os bombardeios retaliatórios de Gaza como algo “deliberadamente desproporcional”, representando “punição coletiva”. O que, de acordo com as leis internacionais, é um crime de guerra.

Seja como for, para o Ocidente, o responsável por toda esta mortandade é o Hamas.

Teria razão?

Até junho, o cessar-fogo acertado em 2012, entre Israel e o Hamas,  governante de Gaza, vinha funcionando razoavelmente bem.

Aqui e ali, alguns ataques aéreos israelenses e alguns foguetes  de Gaza, quase todos lançados por movimentos fora do controle do Hamas.

Incidentes  isolados.

Em maio deste ano, numa manifestação de protesto na Cisjordânia, soldados israelenses mataram a tiros dois jovens palestinos.

As autoridades do exército alegaram que os jovens ameaçavam a segurança dos soldados, que nem teriam usado munição real, ao se protegerem.

Mas um vídeo e uma autópsia confirmaram que fora mesmo uma execução sem qualquer justificativa lícita. Os jovens eram manifestantes pacíficos, alvejados por tiros de verdade.

A população palestina ficou revoltada.

Foi tão forte o escândalo que até os EUA exigiram investigações oficiais (aliás, sem resultados conhecidos).

Pouco depois, aconteceu o desaparecimento de 3 jovens israelenses.

O primeiro-ministro Netanyahu logo clamou que teria havido um seqüestro. E acusou o Hamas da autoria, mas sem mostrar uma única evidência.

Evidências havia da inocência do movimento palestino.

O Shin Bet (agência de segurança interna) possuía a gravação de um telefonema de um dos jovens, pedindo socorro à polícia. No fundo, ouvia-se,  a seguir, tiros e vozes celebrando o assassinato dos três jovens.

Analisando o material, o FBI concluíra que os assassinos teriam usado silenciadores.

Como criminosos não usam silenciadores quando vão seqüestrar alguém, configurou-se um assassinato planejado.

A tese de que o Hamas seqüestrara  os jovens judeus para trocá-los por prisioneiros de Israel virava fumaça.

Ora, Netanyahu decidira aproveitar o crime para vibrar um golpe mortal no Hamas e liquidar a unificação dos movimentos palestinos.

Para isso, já havia iniciado uma gigantesca operação militar, de casa em casa, prendendo centenas de palestinos, especialmente membros do Hamas, inclusive parlamentares.

Sem prova alguma de que tivessem qualquer ligação com o presumido seqüestro.

Como é que as coisas agora iriam ficar?

O primeiro-ministro de Israel não podia permitir que se exonerasse o Hamas das culpas.

Ele conseguiu uma ordem judicial, proibindo a imprensa de divulgar o conteúdo da gravação, que provaria ter acontecido um assassinato,  assim isentando o Hamas.

E os raids continuaram, varejando muitas centenas de casas, prendendo por razões mínimas, aterrorizando a Cisjordânia.

Os palestinos reagiram com várias manifestações de protesto.

Isso não impediu a prisão de mais de 500  palestinos, dos quais 200 ainda continuam detidos, sem acusações.

E, mais grave, a morte de 17 civis palestinos, alguns em confrontos com o exército, outros por ele alvejados em manifestações pacíficas.

Acho que todas estas ações violentas de Israel já configuram um ataque contra o povo palestino, que o Hamas representa.

 

O Hamas não tem forças capazes de enfrentar o exército de Telaviv.

Há muito tempo, abandonou a promoção de atentados.

A única forma de retaliação de que dispõe é o lançamento de foguetes de Gaza.

A princípio, foi usada com moderação.

Partiram de Gaza alguns foguetes primitivos, que não causaram danos, respondidos por ataques aéreos israelenses, também sem grande impacto.

Até que, em 11 de junho, uma última gota fez derramar o copo já cheio.

Diz o Human Rights Watch: ”Um ataque aéreo israelense contra um alegado membro de um grupo armado e o seu filho numa motocicleta em Gaza deflagrou lançamentos de foguetes por grupos armados palestinos e provocou  uma maciça escalada de ataques por Israel.”

O resto todos conhecem.

Muitas centenas de bombardeios contra Gaza.

Muitas centenas de foguetes contra Israel. Sem terem capacidade de orientação para objetivos determinados, a maioria cai em áreas vazias.

Cerca de 90% dos que atingem cidades são destruídos no ar pelo “Domo de Ferro”, equipamento israelense de interceptação de mísseis, doado pelos EUA.

Os danos causados pelos foguetes de Gaza são mínimos. Além do já mencionado israelense morto, alguns feridos, algumas construções parcialmente danificadas.

Já o poder de fogo de Israel é incomparavelmente superior.

Seus aviões percorrem à vontade os céus de Gaza, sem serem incomodados por uma ação  anti-aérea efetiva.

Suas bombas de altíssimo poder já mataram centenas de palestinos, feriram cerca de 2.200 e destruíram outros objetivos nada militares como estações de tratamento de água e de esgoto, cafés, um hospital e cerca de 1.300 lares.

O Ocidente não ficou impressionado com esses números.

Prefere sensibilizar-se com a situação da população israelense, sujeita a ameaça cotidiana de mísseis que, embora quase inofensivos, tumultuam suas vidas, impondo correrias para os abrigos anti-aéreos.

Quanto ao povo de Gaza,  o mundo está acostumado com o sofrimento deles.

Os EUA e a maioria dos governos da Europa condenaram o Hamas, mas se limitaram a lamentar as vidas palestinas perdidas.

Alguns pediram ao governo de Telaviv que agisse com “moderação”, numa ofensiva, assim definida pelo colunista israelense, Gideon Levy, do jornal Haaretz:  “O objetivo da operação é restaurar a tranqüilidade. O método: matando civis. Tornamos o slogan da Máfia a política oficial de Israel.”

1 pensou em “De quem é a culpa?

  1. Que horror! A ONU é a culpada! Foi irresponsabilidade a “invenção” de Israel.
    Eles (da Onu) devam imaginar o que iriam aprontar.

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