Cartão amarelo para Israel.

A omissão diante do massacre dos judeus pelo nazismo tornou a comunidade internacional refém de Israel.

Possuídos pelo sentimento de culpa, os EUA e os países da Europa se auto atribuíram um pesado débito em relação aos judeus.

Com o decorrer do tempo, esse sentimento de culpa, sabiamente estimulado pela constante propaganda do Holocausto, tornou esses países francos defensores de Israel, como o país que representava os judeus trucidados por Hitler.

Graças a esse apoio, liderado pelos EUA, os israelenses venceram os países islâmicos árabes em várias guerras e ocuparam a parte da Palestina destinada pela ONU aos árabes.

Desde então passaram a cometer uma série de violências contra a população local, derrubando casas, destruindo colheitas e instalando assentamentos judaicos em terras palestinas.

Os atentados terroristas cometidos contra Israel e sua população civil pelos movimentos de libertação palestinos reforçaram o apoio internacional ao governo de Telaviv e a tolerância ás violências cometidas por seu exército de ocupação.

Mas, com o passar dos anos, a comunidade internacional começou a protestar.

A ONU determinou que Israel saísse da Palestina ocupada, retrocedendo até os limites estabelecidos a seu país em 1967.

Diversas comissões da ONU denunciaram crimes do exército israelense contra a população civil árabe, o massacre de Sabra e Chatila, o bloqueio e o ataque a Gaza, a expansão dos assentamentos, as políticas de “limpeza racial”…

Nada disso resultou em qualquer sanção a Israel, em parte pelos vetos dos EUA, em parte pela timidez europeia.

Mas agora o holocausto já tem crca de 80 anos.

Os atentados terroristas rareiam.

Os lançamentos de foguetes de Gaza contra Israel causam medo e intranquilidade mas poucas baixas civis.

Da Margem Oeste, há muitos anos que não sai uma única incursão terrorista.

Já da parte de Israel, as transgressões não param, com a continuação da construção de novos assentamentos, ilegais pelo direito internacional; a destruição de plantações palestinas; as violências do exército israelense de ocupação ; os “assassinatos seletivos” de líderes da resistência; as retaliações aéreas ; o o bloqueio e as mortes de civis em Gaza.

E a comunidade internacional começa a perder seu sentimento de culpa, a achar que já pagou seu débito por ter dado as costas ao holocausto.

Especialmente porque os responsáveis ou já morreram ou estão muito velhos, aposentados há mito tempo.

Na Alemanha, país que mais se ressente pelos crimes contra os judeus ,por razões óbvias, a última pesquisa já mostra a população farta dos abusos de Israel, pedindo para seu governo imparcialidade diante do problema da Palestina.

Nos demais países da Europa e da América Latina, essa situação se repete.

E apareceu com muito impacto na discussão na ONU do pedido de reconhecimento da Palestina como estado não-membro.

Apesar de toda pressão exercida pelos EUA, ainda protetor de Israel por razões de política interna, a vitória da Palestina foi esmagadora.

Além da unanimidade da América Latina, Ásia e África, como era esperado, contou com a maioria dos votos europeus, que, normalmente, apoiavam Israel.

A reação do premier Netanyahu foi desafiadora.

Ordenou o bloqueio dos impostos devidos à Autoridade Palestina, mas que são cobrados por Israel.

E pior: aprovou o plano de construção de 3.000 novos assentamentos entre Jerusalém Oriental e a Margem oeste, na chamada zona E1.

Aí, parece que ele foi longe demais.

Ban-Ki-Mon, o secretário da ONU, avisou que, caso Bibi implementasse esse plano, seria um “golpe quase fatal”nas esperanças de paz com os palestinos.

A França, a Inglaterra e a Alemanha e mais 6 nações, inclusive o Brasil,também protestaram, exigindo a presença dos embaixadores israelenses para prestarem esclarecimentos.

A França considerou os novos assentamentos uma “colonização”e apelou para que as autoridades de Israel se abstivessem de construir os novos assentamentos para garantir a confiança necessária ao início das negociações.

A Inglaterra tratou o plano de Bibi como uma ameaça à solução dos 2 estados, que tornaria progressos nas negociações muito difíceis de se conseguir.

Um diplomata inglês sênior informou: “Desta vez não será apenas uma condenação, haverá uma ação real contra Israel. Londres está furiosa com a decisão do E1”.

Até mesmo os EUA foram contra. Não chamaram o embaixador de Israel para explicações, mas afirmaram que a decisão prejudicava a solução dos 2 estados.

Conforme explica o geógrafo Danny Seiedeman: “O impacto representa basicamente a criação de fatos que tornariam a solução de 2 estados morta.”

De fato, os novos assentamentos dividirão a Margem Oeste em duas partes e deixarão Jerusalém, que os árabes querem que seja a capital da Palestina independente, cercada por territórios israelenses.

A postura altamente crítica dos seus tradicionais aliados levou Bibi a tomar uma atitude típica da política externa israelense: colocou-se como vítima de um mundo “eternamente hostil” aos judeus.

Negando-se a interromper seus planos, ele foi talvez longe demais ao declarar que o problema não é os novos assentamentos e sim “a própria existência do estado de Israel e o desejo de varrê-lo da face da Terra.”

É muito injusto, considerando as centenas de bilhões de dólares de ajuda que Israel já recebeu dos EUA e da Europa, do apoio num sem número de posições injustas e, especialmente, na extrema permissibilidade de que o país tem gozado na prática de contínuas violações das leis internacionais.

Indo ainda mais longe do que Netanyahu, uma autoridade anônima do governo de Telaviv afirmou que provavelmente os EUA estariam por trás da reação europeia.

Obama, sem coragem de pronunciar-se publicamente com a mesma força, teria instigado os governos da Inglaterra, França e Alemanha a condenarem de forma até agressiva os novos assentamentos de Bibi.

Segundo essa fonte, Obama quer pressionar novamente em favor das negociações de paz.

Por isso, seria indispensável que Bibi desistisse de suas ideias perigosas, além de acalmar os palestinos, coisa que o presidente americano fizera, ao negar-se a cortar a ajuda à Autoridade Palestina, como se temia.

Não sei se é verdade.

De qualquer forma, os palestinos estão agindo com prudência.

Antes de se decidirem a processar Israel no Tribunal Criminal Internacional pela construção de assentamentos ilegais, pediram para o Conselho de Segurança da ONU tomar uma atitude, apesar de, em 2010, os EUA terem vetado uma proposta semelhante.

Enquanto estão esperando para ver o que a Europa fará.

Hanan Ashrawi, da Autoridade Palestina, aplaudiu as recentes sanções diplomáticas contra Israel mas afirmou que a comunidade internacional deve ir além. Entre outras medidas, a Europa Unida deveria reconsiderar seu acordo de associação com Israel, que lhe tem garantido consideráveis benefícios.

É possível que isso aconteça.

Como disse Wilian Hague, Secretário das Relações Exteriores do Reino Unido, referindo-se ao plano de novos assentamentos israelenses: “Senão houver volta na decisão anunciada, nós teremos de considerar quais passos os países europeus deverão tomar a seguir.”

O certo é que a reação europeia foi um autêntico cartão amarelo.

Por enquanto, Bibi não está se tocando.

Prefere agradar seu eleitorado, cuja agressividade anti-árabe foi por ele mesmo estimulada.

Pelo menos até a eleição de 22 de janeiro.

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1 pensou em “Cartão amarelo para Israel.

  1. Penso que o comentarista é refem de sua hostilidade para com Israel o que o faz derrapar em sua análise. Evidentemente todas as criticas apresentadas no artigo a respeito da atitude de Israel para com os Palestinos são válidas e a atitude de Israel é indefensável. Entretanto a inserção do holocausto como argumento para desqualificar a politica de Israel é um erro grave e perigoso. Ela é uma atitude que contribui para dar peso ao revisionismo histórico que nega a existência do holocausto qualificando como propaganda sionista. É preciso desvincular o estudo e o significado do holocausto e mesmo o seu eventual uso pelo estado de Israel do reconhecimento da tragedia historica e de sua importancia para a humanidade.

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