Boicote às empresas dos militares.

Criada pelo Presidente Anuar Sadat, em 1970, para financiar tecnologias militares, a Organização Árabe pela Industrialização voltou-se para atividades econômicas civis. Utilizando seus recursos, o exército egípcio investiu em indústrias de veículos, plásticos, cimento, alimentação e aparelhos elétricos. Também atuou como uma empresa de engenharia construindo pontes, estradas, estádios de futebol, aldeias de beduínos, projetos turísticos e conjuntos habitacionais.

Todas estas empresas são dirigidas por generais e coronéis reformados ou mesmo na ativa.

Atualmente, calcula-se que a participação das empresas militares na economia do Egito está entre 25 a 40%.

Elas se beneficiam de uma série de privilégios de que nenhuma outra empresa privada ou pública dispõe: subsídios, isenções de taxas, trabalho dos recrutas e ainda o direito de adquirir terras públicas. Embora o controle de vastas áreas do território fosse justificado em termos de defesa nacional, o exército as usa para operações comerciais.

O que é mais grave, os militares não precisam prestar contas de seus empreendimentos empresariais a nenhum dos três poderes. O orçamento do exército, que inclui as despesas e receitas destas organizações, é tratado como segredo de estado- o povo é mantido alheio a tudo que se passa no setor da economia constituído pelas empresas dos militares.

Os ativistas egípcios acreditam que os militares não permitem que suas ações na economia sejam de domínio público para poderem esconder especulações ilegais e garantir o fluxo de imensos lucros.

Seja ou não verdade,   numa democracia, as instituições públicas devem ser transparentes. O povo tem direito de saber como o governo e suas instituições, inclusive o Exército, está usando o seu dinheiro. Só assim poderá exercer fiscalização e evitar desmandos.

Como parte de uma grande campanha que pede ao Supremo Conselho das Forças Armadas que entregue ao povo os poderes que lhe são inerentes, ativistas estão exigindo que as empresas dirigidas pelo exército passem para civis ou para o governo.

Para pressionar o Conselho, os ativistas estão apelando para que o povo boicote as empresas dirigidas por militares: não compre seus produtos, nem use seus serviços.

Os autores da iniciativa usam a blogosfera e o Facebook na divulgação de listas das empresas sob boicote, para esclarecer a população.

Evidentemente, não é desejável que o Exército concentre em suas mãos além do poder militar, também o econômico.

Mas a campanha tem outras justificações.

Zenaid Abul-Magd, professor de História na Universidade Americana do Cairo explica que é necessário mudar mitos que grande parte da população tem a respeito do papel dos militares na economia.

“As pessoas pensam que os militares dirigem empresas somente com o objetivo de conseguir auto-suficiência; pensam que a atividade deles ajuda a expandir a economia e criar oportunidades de emprego”, ele afirma. ”Mas os negócios militares produzem lucros que vão muito além da auto-suficiência”.

Para onde vão esses lucros, por enquanto, é segredo de estado…

Os ativistas argumentam também que os oficiais que dirigem as empresas do Exército ficam demasiadamente envolvidos na vida empresarial. Tornam-se muito mais executivos do que militares. Seus deveres com a defesa nacional ficam em segundo plano, diante dos seus deveres como dirigentes de empresas.

O resultado é que vem ocorrendo uma deteriorização progressiva na capacidade de combate do exército egípcio.

 

 

 

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