“Bloody” Hillary.

Nesta semana, Hillary Clinton esteve em 3 países fazendo declarações que certamente contribuíram para o acirramento dos conflitos em diversos fronts.

Começou em sua terra, onde falou na cadeia ABC de televisão sobre a aguardada reunião dos P+5 – ou seja, EUA, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha- com o Irã para discutir o seu programa nuclear.

Como essa reunião parece decisiva para evitar a guerra, seria de esperar declarações otimistas e confiantes da Secretária de Estado.

Não foi o que aconteceu.

A belicosa Hillary fez várias exigências que o Irã teria de cumprir se quisesse paz.

A mais difícil foi a obrigação do Irã provar que não tem um programa nuclear militar.

Há aqui uma curiosa inversão do ônus da prova que, em todos os países civilizados, cabe a quem acusa. É princípio de Direito Internacional.

Sejamos realistas, depois dos EUA e de Israel desrespeitarem tantas vezes o Direito Internacional, não vale à pena recorrer a ele.

Vamos falar em termos práticos.

Como provar algo que você não tem?

Parece missão impossível.

Um enigma digno da Esfinge de Giseh.

No lugar dos aiatolás, eu ficaria com a sensação de que a tão esperada reunião não é pra valer.

É sim para demonstrar, especialmente ao eleitorado americano, que os iranianos não aproveitaram a “última chance” concedida pelos benignos americanos para eles provarem boas intenções.

Em seguida, Hillary Clinton viajou para Ryadh, na Arábia Saudita, para reunir-se com os líderes dos países do Golfo e incitá-los contra os iranianos.

Depois de chamar o Irã de uma “ameaça global e regional”, ela procurou incentivar os presentes a erguerem uma forte barreira anti-míssíl para proteção contra ataques balísticos lançados pelo governo de Teerã.

Muito estranho, considerando que o Irã não tem o menor interesse em atacar qualquer desses países, com os quais mantém boas relações diplomáticas e comerciais.

O governo de um deles, o Qatar, apesar das pressões americanas, já declarou que não cederá seu território para ataques contra os iranianos.

Mesmo a Arábia Saudita, principal aliado árabe americano, cujas relações com Teerã não são das melhores, não tem interesse em militarizar sua inimizade.

Uma autoridade local (que quis permanecer anônima) declarou ao jornalista Patrick Searle por ocasião da visita de Hillary Clinton : ”A vocação essencial do reino da Arábia Saudita deve ser, certamente, unir os muçulmanos, não dividi-los.”

Mas Hillary foi mais adiante: para instigar os países do Golfo à ação, declarou que os EUA os ajudariam a construir sua barreira defensiva.

Na verdade, se tal barreira fosse construída só serviria para duas coisas:

a)Indispor os países da reunião com o Irã, acabando com os bons negócios que todos vinham mantendo;

b)Proporcionar altos lucros à indústria militar americana que, inevitavelmente, seria contratada para a caríssima e inútil obra.

Para aproveitar a viagem ao máximo, a Secretária de Estado procurou, mais uma vez, estragar o clima da reunião de discussão do programa nuclear iraniano.

Para isso, nada melhor do que ameaças para irritar um povo orgulhoso como o do Irã.

E foi o que Hillary fez: “Cabe ao Irã mostrar que fez a escolha certa. O que é certo é que a janela de oportunidades para o Irã procurar e conseguir uma resolução de paz não permanecerá aberta para sempre.”

Novamente colocou os iranianos na situação de terem de provar o que não tem.

Bibi Netanyahu respondeu a esse enigma: basta os iranianos abandonarem o enriquecimento do urânio, ao qual, aliás, eles tem direito garantido pelas leis internacionais. Aí, não teriam como produzir armas nucleares.

Mas isso ele sabe que os iranianos jamais topariam: além de tornar sua indústria nuclear incompleta seria uma vergonhosa humilhação.

Depois de Ryadh, Hillary Clinton viajou para Istambul, onde deixou o Irã em paz para envenenar o estado das coisas na Síria.

Depois de muito trabalho, Kofi Anam estava conseguindo que a oposição e o governo sírio aceitassem seu plano que previa uma trégua, na qual haveria um cessar fogo simultâneo das duas partes.

Hillary quis subverter tudo. Exigiu que o ex-Secretário da ONU impusesse um prazo para Assad fazer seu exército retirar-se das cidades e parar de atirar, sem exigir que as forças da oposição fizessem o mesmo.

Prudentemente, o plano de 6 pontos de Kofi Anan não impunha a saída de Assad do governo já.

Em Istambul a representante dos EUA foi insistente: Assad tem de sair!

Enquanto o ex-secretário geral da ONU realizava uma série de reuniões com Assad,  a oposição e os governos dos países próximos, com o objetivo de interromper as hostilidades para aí iniciar as negociações, Hillary atuava em sentido contrário.

Na reunião dos “Amigos da Síria,” ela informou que os EUA estavam fornecendo aos milicianos da oposição equipamentos de comunicações por satélites para organizarem ataques contra o governo. E ainda estimulou os países do Golfo a oferecerem 100 dólares a cada soldado de Assad que desertasse.

Em outras palavras: Hillary sabotou a busca de Kofi Anan por um cessar fogo provisório, encorajando a luta armada.

Se não for interrompido o derramamento de sangue, a guerra civil síria ameaça durar muito tempo. A possibilidade de vitória da oposição, sem apoio militar estrangeiro, é mínima.

Mesmo que a aviação da OTAN ataque alvos sírios, a guerra será longa e vai trazer muito sofrimento para o povo sírio. São estas as conclusões dos especialistas em Oriente Médio e assuntos militares.

A única esperança de paz que existe no momento é a missão Kofi Anam.

Sabe-se que, depois do cessar fogo, ele vai propor anistia e um governo provisório, marcando eleições supervisionadas pela ONU.

Não será fácil, Anan precisará de muito tato e, de preferência, contar com o tato dos países do Ocidente e da Liga Árabe para convencer Assad a deixar o poder sem mais problemas.

Com Obama e sua Secretária de Estado gritando que Anan perdeu o direito de governar, as coisas ficarão ainda mais difíceis.

É o que os EUA querem.

A paz não é seu alvo. Derrubar Assad para enfraquecer seu aliado, o Irã, é o que lhes interessa.

Mesmo que custe mais derramamento de sangue.

 

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