Bibi perde o pique.

A estratégia de Netanyahu era muito clara.

Iria usar o relatório da IAEA (Agência de Energia Atômica da ONU), denunciando o aumento da produção iraniana de urânio a 20%, para dobrar Obama.

Contava com o apoio da imprensa internacional, que certamente proclamaria a gravidade desse fato.

Os EUA teriam de definir a sua linha vermelha, estreitá-la até ficar igual à de Israel, que considera a constatação da “capacidade nuclear” iraniana motivo bastante para bombardear as instalações nucleares do governo de Teerã.

Se ainda assim Obama vacilasse, o Partido Republicano estava pronto para denunciar sua fraqueza diante do Irã, sua falta de apoio ao aliado Israel.

Com a campanha eleitoral americana bombando,  Obama não teria como resistir.

Como também não fugiria a seu dever de amigo, de aliar-se a Israel, se não no bombardeio, pelo menos na guerra contra o Irã, que fatalmente se seguiria.

Mas, desta vez Bibi não se deu bem.

O general Martin Dempsey, chefe do estado-maior conjunto das Forças Armadas dos EUA, estava fora do script.

Falando á imprensa inglesa, ele condenou o projetado bombardeio do Irã como incapaz de destruir todo o aparato nuclear iraniano.

Capaz, isso sim, de provocar uma guerra regional e de romper a coalizão do Ocidente e países asiáticos amigos, ora unidos nas sanções contra o Irã.

Fechou sua entrevista com uma frase, com o impacto de um míssil intercontinental : “Não quero ser cúmplice, se eles (os israelenses) decidirem fazer isso (o bombardeio).“

Ora, “cúmplice” é uma palavra feia. Em geral associada a ações criminosas.

Quando Dempsey diz que não quer ser cúmplice de um ataque israelense ao Irã, ele está condenando esse ataque como algo, vamos dizer, perverso.

E antecipando uma provável subida no muro americana.

O que deixaria os israelenses sozinhos contra o Irã, mais seus aliados Iraque e Hisbolá, e, provavelmente, no desenvolvimento da guerra, também a maioria dos demais países islâmicos.

Para completar, os republicanos não se manifestaram, ignoraram a falta de reação pública de Obama às denúncias apressadas do relatório da IAEA e das indignadas queixas de Bibi.

As últimas pesquisas mostram que o povo americano está cada vez mais cansado de guerras. E não só os eleitores democratas: também a maioria dos independentes e até mesmo dos próprios republicanos.

Os analistas dessas pesquisas chegam a falar mesmo num crescimento do isolacionismo na comunidade dos EUA. O que, aliás, fortalece a chamada ala realista do Partido Republicano que, desde os anos 80, vem sendo suplantada pelos ultra-conservadores, sequiosos por avanços imperiais.

Considera-se que, por estes motivos, os amigos republicanos deixaram Netanyahu na mão.

Ele sentiu o golpe.

Por seu lado, Obama deu novas provas de que, desta vez, não iria arreglar.

Agiu de forma indireta.

As largamente anunciadas grandes manobras conjuntas das forças americanas e israelenses para testar sistemas de defesas contra mísseis tiveram suas proporções consideravelmente reduzidas.

Claro, Obama não quis exagerar. A audácia não é própria do presidente americano.

Para compensar ainda que ligeiramente os golpes infringidos no governo Bibi, assessores de Obama informaram em off que novas sanções contra o Irã estavam sendo estudadas, que se completaria o escudo anti-míssil de proteção a Israel e países amigos da Península Arábica e aumentaria a frota que patrulha o Golfo Pérsico.

Nada muito apetitoso; em sanções, já se sabe que Bibi não acredita e as outras duas notícias não eram novidade.

Nada que compensasse o impacto do “cúmplice” que o general Depsey não quer ser.

Falando à agência Reuters, Giora Eilaad, antigo assessor de segurança nacional de Israel, afirmou que a entrevista de Dempsey alterou os cálculos políticos do seu governo.

“Os líderes israelenses não podem fazer nada diante do muito explícito “não” do presidente (Obama)”, Giora Eilaad  disse.”Portanto, agora eles estão explorando qual espaço lhes resta para operarem.”

Alguns analistas israelenses acham que o primeiro ministro desistiu dos seus sonhos de destruição do Irã nuclear nos próximos meses.

Dão como prova a substituição do comandante das Forças Armadas israelenses, pois, como eles dizem, não se muda o comando militar de uma nação perto de uma guerra.

Certamente, Netanyahu não vai desistir de atacar seu inimigo mortal.

Vencendo Romney, as probabilidades que isso ocorra logo serão melhores.

Mas Obama deve se reeleger.

A maioria acha que ele continuará a pressionar o Irã com sanções cada vez mais pesadas, na esperança de que os aiatolás entreguem os pontos.

Não me parece que ele tenha uma estratégia de longo prazo, prevendo o que fazer caso essa situação se prolongue indefinidamente.

Uma mudança de rumos, consistente no abrandamento das exigências feitas ao Irã ou na decisão de acabar atacando, vai depender de uma série de variáveis.

Algumas delas serão as pressões do “partido da guerra” dos EUA, apoiado ou mesmo liderado pelas indústrias de armamentos; a atitude da população diante da situação economica do país; a capacidade do governo de Israel e dos lobbies americano-israelenses de influenciarem o Congresso; o crescimento dos movimentos pacifistas nos EUA; a expansão da Primavera Árabe nos países do Oriente Médio; a eleição de um governo  moderado no Irã.

Embora pareça excesso de otimismo, vou lembrar também que o próprio Obama pode mudar.

Quem sabe? Vai ver ele estava sendo sincero quando dizia que procuraria ter um entendimento justo com o Irã.

Não precisando mais pensar em nova reeleição, proibida nos EUA, ele não precisará mais agradar os republicanos, a direita democrata, os lobbies pró-guerra e pró-Israel, os cristãos fundamentalistas, a rede Fox…

Poderia voltar a ser o que era: o Obama da sua primeira campanha eleitoral.

Sim, ele pode.

 

 

1 pensou em “Bibi perde o pique.

  1. Um pouco de otimismo é muito bem-vindo Eça nestas épocas de sinistrose generalizada e repetitiva.
    Tomara que esse quadro benéfico que você delineou da volta de OBAMA aos princípios da campanha 1ª eleição, sem mais tantas pressões e chantagens, seja a possibilidade que de fato aconteça…….Sonhar com um mundo mais justo e pacífico é sempre muito bom!!!!

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