A bola da vez

Depois do Afeganistão e do Iraque, parece que chegou a vez do Irã. Um artigo de Seymour Hersh, no The Independent de Londres, deixou o mundo de orelhas em pé. Ele garantiu que não somente a invasão do Irã era fava contada como também já havia planos para lançar nukes (pequenas bombas atômicas) contra as mais importantes e bem defendidas instalações nucleares do país. 

Ora, Seymour Hersh não é qualquer um. Foi ele quem denunciou o massacre de My Lai e as barbaridades de Abu Ghraib. Sem negar taxativamente o planejamento de ataques – com armas atômicas ou mesmo convencionais -, Bush limitou-se a dizer que as denúncias de Hersh não passavam de “especulações exageradas”, pois a administração desejava resolver o caso diplomaticamente. Porém, seu porta-voz, Scott McClean, insistiu que o uso da força era uma opção. E a secretária de Estado, Condoleezza Rice, entrevistada pela televisão inglesa, declarou que o presidente busca uma solução diplomática; “contudo, não descarta outras opções”.

O Ministério do Exterior iraniano desprezou essas ameaças: elas não seriam reais, apenas uma tática para assustar e forçar seu governo a aceitar as exigências do Ocidente.

Com isso, Bush estaria repetindo Nixon. Nos primeiros anos de seu governo, ele fingira ser um fanático louco, que não vacilaria em atacar com bombas atômicas o Vietnã do Norte caso seus líderes não suavizassem seus termos para um acordo de paz. Mas eles nem se tocaram e tudo acabou como se sabe.

Alguns analistas lembram que o Irã não é o Iraque. Suas forças armadas são mais fortes, bem equipadas e superiormente motivadas, capazes de causar muito estrago. Pode-se contar com milhares de baixas entre os americanos, chuvas de mísseis sobre Israel e os campos petrolíferos da Arábia Saudita e com o bloqueio do fluxo de petróleo no Golfo Pérsico, levando seu preço às alturas e à expansão da guerra por todo o Oriente Médio.

Portanto, a invasão do Irã ou mesmo “bombardeios pontuais” custariam muito caro. Se a crise do Iraque já está corroendo a imagem de Bush, imagine uma segunda crise, talvez até pior.

Com tantos argumentos contra, iria ele lançar-se nesta aventura?

Hersh responde citando um conselheiro sênior do Pentágono: “a Casa Branca acredita que o único modo de resolver o problema é mudar a estrutura de poder do Irã e isso significa guerra”. Com base neste e noutros depoimentos, o jornalista garante, em artigo na revista New Yorker, que o plano de ataque ao Irã é parte de uma estratégia de longo prazo para controlar o Oriente Médio durante a próxima década e assim garantir o petróleo da região, do qual os Estados Unidos dependem cada vez mais. De fato, as jazidas de petróleo americanas estão se esgotando, enquanto o consumo cresce desmesuradamente; de 19,7 milhões de barris por dia, em 2002, para 26,7 milhões previstos para 2020.

O governo Bush acredita que não se pode dar ao luxo de permitir dois países hostis e regionalmente poderosos, capazes de obstaculizar o fornecimento de petróleo aos Estados Unidos. Conquistou o Iraque e nele pretendia ficar até a constituição de um governo amigo, mantido na linha por poderosas bases militares.

Mas as coisas não deram certo. Estando o povo americano cada vez mais indignado com a situação no Iraque, sair passa a ser urgente. O problema é que o governo eleito, de maioria xiita, está fortemente ligado aos aiatolás iranianos. Seria trocar seis por meia dúzia. Para evitar este péssimo negócio, só derrubando o regime iraniano.

O argumento eleitoral também pesa na decisão de atacar o Irã. Bush vem caindo nas pesquisas principalmente devido ao fracasso no Iraque. Não mudando nada, a derrota do seu partido é certa nas eleições de novembro. Com maioria no Congresso, o Partido Democrata causaria muitos problemas ao governo Bush. Aparentemente, esse seria um argumento contra a invasão, pois, se o povo critica Bush pelo fracasso no Iraque, uma segunda guerra aumentaria essa rejeição.

Engano: recente pesquisa do Instituto Zogbi revela que 47% dos americanos apóiam um ataque ao Irã, se a diplomacia falhar. É, a propaganda que pinta Ahmenadabad como um segundo Hitler funciona. Uma figura assim de posse de armas nucleares inspira terror. Livrar-se dele pela força passa a ser justificável.

Alguns depoimentos de personagens abalizadas mostram que esse processo já começou. Vincent Cannistraro, ex-diretor da CIA e do Conselho Nacional de Segurança, consultor internacional em questões de segurança, revela que tropas especiais americanas disfarçadas já estão em território iraniano identificando alvos e ajudando grupos dissidentes. Guerrilhas sunitas da etnia Balluchi, apoiadas pelos Estados Unidos, realizaram ataques em Sistan – Baluchistão, matando 20 funcionários do governo e ferindo o próprio governador.

Segundo o Washington Post, planejadores da CIA e do Pentágono estão analisando possíveis alvos, incluindo a fábrica de enriquecimento de urânio em Natanz.

Enquanto Bush não declarar formalmente que não invadirá o Irã, o medo subsiste, inclusive entre os países aliados. Jack Straw, o ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, tentou esconjurá-lo: “as razões pelas quais nos opomos à ação militar é porque ela é uma opção infinitamente pior e porque não se justifica”. A França e a Alemanha, incapazes de repetir seu gesto de independência quando da invasão do Iraque, procuram ganhar tempo, adiando as decisões da ONU. Por sua vez, a Arábia Saudita, que seria alvo de retaliações iranianas, também se move pela paz. O presidente do Conselho Nacional de Segurança Saudita foi a Moscou exortar o governo russo a evitar que o Conselho de Segurança da ONU adote uma resolução cujo não cumprimento pelo Irã justifique um ataque americano.

De fato, Vladimir Putin, presidente russo, tem argumentos para moderar os americanos: suas 2 mil ogivas nucleares. Aos poucos, o chefe do governo de Moscou vem num crescendo de contestações às políticas de Bush, mas não se sabe se ele considera que chegou a hora da Rússia de falar grosso e assumir a posição de pólo do poder mundial que a extinta União Soviética ocupava.

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