A 3ª Intifada: de possível a provável.

Em 1987, o povo palestino estava cada vez mais indignado com as violências e humilhações sofridas por parte de Israel.

As coisas explodiram quando um fotógrafo israelense publicou foto mostrando soldados israelense “molestando violentamente” civis palestinos.

Espontaneamente, adultos, jovens e crianças começaram a atirar paus e pedras nos soldados. E isso se espalhou por toda a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, então sob domínio de Telaviv.

A reação foi brutal, o que, ao invés de conter o povo, ampliou sua revolta.

Que acabou somente 6 anos depois, em 1993, quando foram firmados os Acordos de Oslo, patrocinados pelo Ocidente, no qual Israel reconhecia o direito dos palestinos à independência e se estabeleciam os passos para se chegar lá.

Nos anos seguintes, as ilusões foram sendo desfeitas.

Israel continuou procurando inviabilizar a ideia de uma Palestina independente, construindo sucessivos assentamentos no território dos palestinos.

A ira voltou a ganhar espaço na região, especialmente, em 2.000, depois da apresentação de uma esperada proposta israelense definindo os limites do futuro estado palestino.

Considerada injusta, foi recusada pelo então líder Arafat.

A última gota d´água foi a visita do general Ariel Sharon, notório adversário da independência palestina, ao “Monte do Templo”, local sagrado para palestinos e judeus.

Desafiando os islamitas, ele declarou: “O Monte do Templo está em nossas mão.”

No dia seguinte, os palestinos realizaram uma manifestação de protesto na Esplanada das Mesquitas.

 

Foram reprimidos a tiros pelas forças de segurança de Israel, que mataram 7 civis e feriram 100.

Assim começou a segunda Intifada.

Como a primeira, o povo palestino usou paus e pedras para atacar as forças de ocupação.

Que reagiram de forma desproporcional, usando armas de guerra.

Amos Malka, chefe de inteligência do exército de Israel, contou que suas tropas dispararam mais de 1 milhão e trezentos mil tiros na Cisjordânia, somente no primeiro mês da Intifada.

Diante disso, os rebeldes também apelaram para emboscadas e armas de fogo, defendendo-se contra os ataques do exército israelense.

Depois de 1 ano de revolta, com a morte de 400 palestinos, seus líderes concluíram que pouco poderiam fazer para enfrentar o poderoso exército adversário.

Os atentados suicidas surgiram como uma reação de desespero.

Como afirmou o Robert Pape, cientista político, da Universidade de Chicago: “Ataques suicidas são sempre um último recurso.”

A 2ª Intifada durou 5 anos. Terminou em 2005 com um saldo macabro de 3.000 palestinos e cerca de 1.000 israelenses mortos.

Tantas vezes anunciada como possível, uma 3ª Intifada parece agora provável.

Para Benjamin Ben Eliezer, dirigente do Likud (partido de Bibi),  estamos nas vésperas de mais uma delas. Ele declarou a uma Rádio local: ‘Como alguém que já passou por duas intifadas, eu digo que esta será a mais sangrenta”.

Ele tem seus motivos.

Nos últimos dias, multidões percorrem as ruas das cidades da Cisjordânia, protestando contra a morte de um palestino, sob custódia do Shin Bet (polícia política).

Esta morte poderá ser o gatilho de uma nova Intifada, segundo Avi Dichter, Ministro da Defesa de Israel, a exemplo das duas anteriores que foram o resultado de “grande número de mortos durante protestos.”

Preso no sábado passado, Arafat Jaradat morreu na prisão, segundo autoridades israelenses, de ata      que cardíaco depois de confessar ter atirado pedras em soldados israelenses.

No entanto, o patologista da Autoridade Palestina, Saber Aloul, presente na autópsia, afirmou que havia sinais claros de múltiplas torturas, incluindo queimaduras; ossos quebrados do pescoço, braços, coluna e pernas, além de profundos cortes nos ombros.

Israel diz que foram resultantes dos esforços feitos para revivê-lo…

Mas a ONU, informada do fato pelo embaixador da Palestina, pediu uma investigação neutra. Prontamente recusada por Telaviv.

Esse caso de morte por tortura, acobertada pelos israelenses, somou-se a muitos outros incidentes que estão detonando uma tempestade na Cisjordânia.

Repetidos choques entre civis palestinos e colonos dos assentamentos, apoiados pelos soldados. Na cidade de Qusra, um palestino foi ferido no estômago durante um desses choques.

Manifestações sucessivas contra o tratamentos dos prisioneiros árabes em cadeias de Israel.

Eles são 4.800, dos quais 178 estão detidos sem processo ou sequer acusação, de acordo com denúncia da ONG Addameer. Mais de 3.000 entraram em greve de fome.

 

Em retaliação à aprovação pela ONU da Palestina como país independente, Netanyahu ordenou o sequestro dos pagamentos de impostos da Autoridade Palestina, que são recolhidos por Israel.

Graças a essa apropriação indébita, os 150 mil funcionários da Cisjordânia administrada pela Autoridade Palestina estão sem receber salários.

Esta situação está levando ao caos a prestação dos serviços públicos na região.

Somando a todos estes fatos as declarações de líderes do Likud, inclusive  Netanyahu, negando a interrupção da criação de novos assentamentos e as intenções de buscar a paz, o resultado só pode ser um: a cristalização da desesperança.

Sentimento muito próximo do desespero.

A 3ª Intifada certamente não é a melhor solução.

Mas é  única que está ao acesso do povo.

Penso que a resistência civil teria mais chances.

Mas é uma decisão que necessita ser tomada pela Autoridade Palestina, pois implica na renúncia da de toda colaboração com Israel, inclusive o encerramento da própria Autoridade Palestina.

Abbas e seus ministros relutam em dar esse passo.

Receiam desagradar Obama, o que poderia representar o afastamento dos EUA das reivindicações palestinas.

Temem a fúria de Netanyahu que, sem o freio americano, seria capaz das ações mais violentas e de ceder aos elementos mais radicais do seu grupo, negando de vez independência à Cisjordânia.

Isolados e indefesos, os palestinos teriam de renunciar ao sonho de um país livre.

Um processo de paz que parado há 20 anos conseguiria alguma coisa diferente?

 

 

 

 

 

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