Trump está com o dedo no gatilho.

TRUMP COM O DEDO NO GATILHO

O Acordo Nuclear do Irã, de 2015, tem as digitais do então presidente Obama, pois foi ele quem mais contribuiu para sua realização.

Empenhado em destruir as mais significativas obras do seu antecessor, Donald Trump apressou-se em retirar os EUA do acordo, três anos depois de sua criação.

Fez de tudo para que as outras nações signatárias imitassem seu exemplo. Mas, o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Rússia e a China ficaram firmes, não abandonaram o Irã.

The Donald não desistiu: passou a focar os iranianos, procurando forçá-los a aceitar renegociar uma nova tratativa nuclear, nos termos ditados pelos EUA.

 Para convencer os aiatolás, Trump usou a força como argumento, lançando sua chamada “máxima pressão”, um conjunto de sanções que bloquearam as exportações iranianas e as importações de que o país necessitava.

A ideia era que o Irã, atingido profundamente, viria de joelhos submeter-se ao diktat de Donald Trump.

Aparentemente, deu certo, pois a economia do Irã foi devastada, rebaixando profundamente a qualidade de vida do seu povo.

A verdade foi bem outra: a máxima pressão acabou sendo um furo na água, o Irã resistiu, negou-se a aceitar as exigências de The Donald.

A situação ficou pior para a política da Casa Branca com a eleição de Joe Biden e sua promessa de que, no seu governo, os EUA voltariam ao Acordo Nuclear com o Irã, levantando as sanções da era Trump.

Assim como Trump fez de tudo para deletar as conquistas do seu antecessor, Obama, agora está tentando impedir que seu sucessor, Joe Biden, desfaça as malazartes que ele promoveu.

Em relação ao Irã, a ideia é criar uma situação de confronto com os EUA, tão grave que torne impossível o retorno americano ao acordo nuclear com Teerã.

No meio deste mês, o New York Times, citando fontes anônimas, informou a realização de uma reunião na qual Donald Trump e acólitos discutiram um ataque preventivo contra o programa nuclear (pacífico) iraniano.

 A fúria de Trump foi acalmada por assessores militares. Ponderou-se que o ataque provocaria uma retaliação do mesmo nível, o que poderia levar a uma guerra, coisa que ninguém queria (The New York Times, 16/11/2020).

Paralelamente, em Israel, oficial sênior reportou ao AXION que seu governo ordenou ao exército que se preparasse para a ação, pois era possível que os EUA lançassem um ataque contra o Irã, antes da posse de Biden (AXION, 25/10/20220).

Nenhum membro do governo confirmou o furo do Times. Segundo um alto funcionário presente à reunião, os participantes discutiram possibilidades de agredir o Irã mas sem impacto suficiente para causar uma guerra. Bastaria deixar os aiatolás arrancando as barbas de raiva, levando-os a iniciar um processo de contra-ataques em cadeia tão narcisistque potencializasse o já mau relacionamento entre EUA e Irã.

E impedisse Biden de entrar em acordo com um país tão inimigo dos americanos.

Os riscos dessa tática sair do controle são muito claros.

Ficaram mais sérios depois de Trump ter rugido: caso o Irã matasse um único americano, a reação militar americana seria rápida e muito contundente.

Especialmente porque o governo do republicano responsabiliza Teerã por eventuais baixas americanas causadas por ataques de milícias xiitas pró-Irã, especialmente no Iraque. Elas foram essenciais na guerra ao ISIS, aliadas ao exército oficial iraquiano e a forças americana, especialmente aéreas.

Derrotado o ISIS, as milícias e as tropas dos EUA instalaram-se em suas respectivas bases na região de Bagdá.

Sendo iraquianas, as principais milícias foram incorporadas ao exército local. Com a expulsão do ISIS dos territórios que ocupava, o parlamento local e as facções milicianas solicitaram que as forças americanas se retirassem. Não foram atendidos.

Os políticos limitaram-se a protestar. As milícias resolveram agir. Apoiadas pelo Irã, elas passaram a lançar mísseis contra as bases dos EUA, cujas forças reagiram do mesmo modo. E esse autêntico tiroteio vem se repetindo-se, tendo misseis dos grupos milicianos atingido até a zona verde onde fica a embaixada americana.

Recentemente, em 23 de novembro, uma milícia lançou uma barragem de mísseis que quase explodiu na embaixada americana.

Isso fez os iranianos caírem em si.

Enquanto Trump busca pretextos para atacar o Irã, criando um conflito que atrapalharia os planos de Biden de voltar ao acordo nuclear, o Irã faz tudo para que o novo presidente possa cumprir o prometido, sem maiores problemas.

No dia seguinte ao lançamento do último ataque, o governo de Teerã enviou ao Iraque um dos mais importantes dos seus generais, Ismael Qqaani.

Sua missão: instruir os líderes das milícias aliadas a interromperem suas iniciativas belicosas contra objetivos americanos. Guardassem seus mísseis para futuras batalhas.

Segundo um líder sênior presente à reunião informou ao Middle East Eye: “Qaani deixou claro que Trump deseja lançar a região numa guerra aberta para se vingar do seu oponente por ter perdido a eleição e não é do nosso interesse lhe dar qualquer justificativa para começar uma tal guerra (Middle East Eye, 24/11/2020).”

Aleluia, os milicianos praguejaram muito, mas toparam.

Só que nem todas as milícias pertencem a facções pró-Irã.

Várias são iraquianas xiitas e insistem em expulsar as forças americanas do Iraque. É duvidoso que refreiem sua agressividade para atender a apelos iranianos, sejam quais forem as consequências.

Elas juraram vingança pela morte de Abu Mahdi al-Mohandes, líder da Força de Mobilização Popular, grupo patrocinado pelo Estado do Iraque, assassinado pelo mesmo drone americano que matou o general Suleimani, que o Irã considera um herói. Nessa ocasião, forçado a reagir pelo clamor popular, o governo de Teerã lançou mísseis contra bases dos EUA, porém foi prudente: previamente avisou os comandantes das bases para que pudessem abrigar em local seguro todos os seus soldados.

E a retaliação iraniana só causou danos materiais.

As milícias iraquianas têm conhecimento desse resultado precário e afirmaram que não se consideravam vingadas, prometendo uma resposta devastadora em um dia inesperado. 

Teme-se que esse dia seja 3 de janeiro, aniversário do assassinato do general iraniano e do líder miliciano iraquiano.

O Irã não tem como impedir que alguma facção iraquiana acerte as contas, infringindo perdas humanas aos EUA.

Aí sai de baixo, a paz no Oriente Médio sobreviverá por um fio.

Mesmo que as enfurecidas milícias não comemorem a data do duplo assassinato com chuvas de mísseis sobre americanos, o Oriente Médio não poderá respirar aliviado.

Haverá ainda muitas outras chances da guerra estourar por acidente na Síria, onde os EUA exploram um campo petrolífero tomado do governo Assad e aviões israelenses bombardeiam objetivos até em Damasco; na Arábia Saudita, caso mísseis dos houthis atinjam alvos estratégicos; no Golfo Pérsico, onde hostis belonaves americanas singram próximo a hostis belonaves iranianas; mesmo no Líbano, onde ;o grupo Hisbolá pode assumir o poder ou nas guerras da Síria e do Iêmen, nas quais os EUA e o Irã participam armando ou combatendo, em favor dos seus respectivos aliados.

Aa estas alturas, Trump já se conformou que perdeu as eleições.

Seu gigantesco narcisismo foi abalado, mas ainda lhe resta uma cartada, até 20 de janeiro: manter o Irã na desgraça, impedindo que Joe Biden anule a obra trumpniana.

O retorno ao Acordo Nuclear do Irã salvaria o governo de Teerã da crise econômica causada pela máxima pressão executada sob as ordens de Donald Trump. Tem de ser detido.

Para The Donald, o ideal seria lançar uma guerra brutal contra o Irã, devastando o país e impondo um novo regime do agrado dos amigos Netanyahu e o príncipe MBD, o verdadeiro poder no reino saudita. Difícil, nem mesmo os falcões empoleirados na Casa Branca fecham com essa solução apocalíptica.

 Já Netanyahu e MBS, aquele príncipe que mandou assassinar um opositor na Turquia, esses dois bem que gostariam.

Em julho, uma série de explosões e incêndios em plantas militares, inclusive a maior fabricante de mísseis, e em instalações nucleares sacudiram o Irã. Conforme ex-oficial da defesa de Israel informou ao Insider, pelo menos os últimos incidentes foram de autoria da inteligência israelenses (Business Insider, 16/07/2020).

Parece que Netanyahu não estava estranho a estas ações.

O premiê de Israel não deve ter desistido de provocar uma guerra contra o Irã, enquanto houver tempo. Ou seja, antes de Trump entregar a presidência para Biden, em 20 de janeiro.

Como os iranianos já sacaram, eles fingem ignorar a culpa israelense nos atos de sabotagem. Os aiatolás podem ser fanáticos mas não são loucos, um conflito com Israel fatalmente atrairia os Estados Unidos de Trump e sua tremenda força militar. Provavelmente, Israel e sua amiga secreta, a Arábia Saudita, admitem que não vai ser fácil empurrar o Irã para uma grande conflagração.

Mas não renunciaram a seu plano B: conservar os EUA fora do acordo nuclear do Irã.

Durante recente homenagem a Ben Gurion, um dos fundadores de Israel, Netanyahu expressou sua firme intenção: “É necessário que não haja volta ao acordo nuclear anterior.”

Trump concorda com sua arma engatilhada.

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