Torturas complicam a nomeação da chefe da CIA.

Algo de insólito está para acontecer nos EUA.

Indicada pelo presidente Trump para chefiar a CIA, Gina Hasspel, será provavelmente rejeitada pelo Senado.

Trata-se de um fato incomum.

Mas, razões não faltam.

Hasspel, chamada por alguns “Gina, a Sanguinária” (bloody Gina), é acusada (com sólidos indícios) de, em 2002, dirigir um centro secreto para se interrogar com toruras suspeitos de terrorismo (The Daily Beast, 18-4-2007).

Ela atuou num posto de confiança no programa Renditions da CIA do governo Bush, no qual suspeitos de terrorismo eram raptados em países estrangeiros e transportados a locais secretos em outros países para serem interrogados com uso de torturas.

Gina Hasspel dirigiu um desses chamados black sites, na turística e pitoresca Tailândia.

Como a Pro Publica revelou em 2017, Hasspel supervisionou pessoalmente pelo menos dois interrogatórios brutais de dois indivíduos.

Um deles, Abu Zubaida, foi submetido ao waterboardinga

(que reproduz a sensação de afogamento) 83 vezes num só mês. E ainda bateram sua cabeça na parede, impediram o cidadão de dormir e o encerraram num caixão. Tudo sob os olhos atentos e as orientações precisas da sra.Hasspel.

No fim, os interrogadores decidiram que Abu nada tinha a informar e o soltaram (QUARTZ MEDIA– 14-3).

Livre como uma pomba, porém, uma pomba bastante machucada e com graves traumas psicológicos.

Como se não fosse suficiente para sujar a imagem de Gina, John Rizzo, durante muitos anos advogado sênior da CIA, contou no seu livro, Company Man, mais alguns pecados desta agente.

A sra.Hasspel teria sido responsável pela detenção secreta e tortura não de dois, mas dezenas de suspeitos. No seu livro, Rizzo diz que, em 2005: ”José (Rodrigues) nomeou como chefe da sua equipe um agente de contraterrorismo que havia anteriormente dirigido o programa Renditions.” Em 2005, sabe-se que esse agente fora Gina. Como ”havia anteriormente dirigido o programa Renditions”, de acordo com o livro, conclui-se que, no exercício dessa função, ela não se limitou a supervisionar apenas o “tratamento” aplicado em Abu e al-Nashiri, rotineiro na CIA.

O livro de Rizzo trouxe mais fatos contundentes. Hasspel teria queimado 92 videos, que exibiam cenas de Abu e al-Nashiri sendo submetidos ao waterboarding e a outros métodos que obrigam pessoas a confessarem até o que não tinham feito.

Nesta queima, praticada para prejudicar as investigações da Comissão do Senado sobre os métodos da CIA, Gina teria seguido ordens de seu chefe, José Rodrigues. O que não alivia sua culpa como participante na obstrução do trabalho do Senado.

Tudo isso pegou muito mal. Dois senadores republicanos- John McCain e Rand Paul ficaram indignados.

Vendo as coisas mal paradas, diversos chefões da CIA – Gina tem muitos fãs por lá – iniciaram uma campanha para convencer os senadores da lisura das atitudes da indicada por The Donald.

Ela participara dos programas de tortura  e queimara os 92 videos comprometedores para seguir ordens dos seus chefes. A chamada “obediência devida”.

Argumento que não vale desde os julgamentos de Nuremberg, onde os grandes chefes do nazismo foram condenados.

Nesse evento, ficou estabelecido que os subordinados não poderiam cumprir ordens claramente criminosas dos seus chefes. Se o fizessem, seriam responsabilizados como quem dera as ordens.

Essa decisão tem sido seguida pelos tribunais dos países civilizados.

Mais recentemente, foi invocada pelos juízes que condenaram os militares argentinos por seus crimes praticados durante a ditadura.

Tornou-se jurisprudência.

Por aí, Gina não escapa.

Seu grupo de confrades na CIA vem também desclassificando (tornando públicos) uma série de documentos que comprovam a eficiência, a lealdade e a dedicação da sra.Hasspel.

Curiosamente, tanto a tese da obediência devida quanto as excelsas virtudes atribuídas a Gina foram também proclamadas pelos advogados de defesa de Adolph Eichman no seu julgamento em Israel.

Com o resultado que todos conhecem.

Também curiosamente, a CIA só vem desclassificando documentos favoráveis à sua funcionária. Nega-se a responder a esclarecimentos solicitados por senadores a respeito de possíveis manchas escuras no passado dela. Sustenta que esses documentos precisam continuar classificados (secretos), porque sua classificação poderia trazer prejuízos aos EUA.

Gina, a Sanguinária deverá depor brevemente no Senado.

Sua performance vai influir certamente na decisão de alguns senadores.

John McCain, que apesar de republicano é inimigo de torturas, e o também republicano, Randy Paul, rígido defensor dos direitos humanos, devem votar contra.

Se todos os senadores democratas somarem com eles, a nomeação de Trump já era.

Porém, sabe-se que há uma ovelha negra no redil democrata, que tende a apoiar Gina Hasspel.

Se isso acontecer, as coisas se complicam.

Como muitas vezes acontece  no complicado governo do presidente Trump.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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