Todo poder para os bilionários!

O gabinete de Donald Trump é certamente o mais rico da história dos EUA. A soma das fortunas dos membros do primeiro escalão chega a 6 bilhões de dólares.

Trump explicou por que.

Para chegar a ser bilionário, raciocina, você precisa ter inteligência, competência e eficiência absolutamente fora do comum.

Gente assim, com essas qualidades provadas por seu sucesso empresarial, ele considera ideal para ajudá-lo a governar os EUA.

Até parece lógico.

Sucede que, dirigir empresas não é a mesma coisa do que dirigir um pais.

Seus objetivos, por exemplo.

Os dos empresários são a máxima lucratividade, associada a estratégias para garantir a sobrevivência a longo prazo.

Já quem governa um país, além de promover o  crescimento e estabilidade econômicos, precisa oferecer uma série de serviços à população.

Claro, o empresário-governante poderá ser sensível às necessidades e desejos do seu povo.

Nem todos são.

Há os que, uma vez no poder, põem em primeiro lugar (às vezes também em segundo, terceiro, quarto…) os interesses das empresas em geral e das a que estão ligados, em particular.

Muitos tem ideias progressistas, mesmo favoráveis aos excluídos.

Outros, pelo contrário, não estão nem aí por essas pessoas, defendem posturas retrógadas, detestam coisas como liberdades, direitos humanos, regulamentos estatais, sindicatos e coisas assim.

Mas, e o governo bilionário de Trump ?

Na verdade, bilionários são apenas seis. Mas ocupam alguns dos principais postos do governo.

Começando pelo mais importante, a presidência, com seu titular, Donald Trump, que, segundo a revista Forbes, possui um patrimônio líquido de 3,7 bilhões de dólares.

Não vou perder tempo analisando suas posições públicas. Elas são bem conhecidas, mas não se sabe se ele cumprirá o que anunciou na campanha,  pois já mudou de posição em várias delas.

O que diz mais sobre a orientação geral do seu governo são as pessoas que escolheu para colaborar com ele.

Não parece nada boa, considerando seu Secretário do Trabalho, Andrew Puzder, dono de uma grande rede de fast-foods.

Além de envenenar a nação com seus produtos cheios de gordura, ele se distingue por uma característica ímpar: é um Secretário do Trabalho inimigo dos trabalhadores.

Neste ano, Puzder fez campanha contra o aumento do salário-mínimo, de 7,25 dólares para 10,10. Não era grande coisa, uma vez que o último aumento aconteceu em 2009 – há 7 anos atrás.

Coerente com a filosofia do capitalismo manchesteriano, Puzder defende a revogação da medida de Obama que estendeu a cinco milhões de trabalhadores o direito de hora-extras pagas.

Embora seja um tanto bizarra a escolha de Puzder, para uma secretaria que deve defender os trabalhadores, a de Betty Devos merece a mesma qualificação. Será uma Secretária de Educação que condena a escola pública. Devos acha muito mais eficientes as chamadas “charter-schools”- escolas dirigidas por entidades particulares, das quais quase   dois terços tem objetivo de lucro.

Apesar de receberem fundos estatais, trabalham de forma independente do sistema de escolas públicas. Podem inculcar nas mentes dos alunos as ideias que bem entenderem, de acordo com o pensamento dos proprietários.

E ainda não precisam divulgar suas informações financeiras, como as escolas públicas e as particulares sem objetivo de lucro são obrigadas a fazer.

Cerca de 90% das charter-schools são religiosas, de orientação judaica, católica ou dos mais diversos credos protestantes.

Apesar de Devos clamar pela superioridade ds chartes-schools sobre as públicas, uma longa investigação do Detroit Free Press mostrou empate.

Ambas as alternativas ganharam a mesma baixa pontuação.

Indiferente a esses resultados, Devos tem planos de quebrar o “monopólio estatal do sistema de escola pública”, em favor das escolas privadas e das “charter-schools.”

A terceira bilionária, Linda McMahon vai cuidar das pequenas empresas.

Ela ganhou boa parte de sua fortuna, criando a WWF, que produz programas de luta-livre, hoje espalhados pelos EUA e outros países.

Além dessa contribuição à cultura yankee, McMahon mostrou competência ao registrar seus lutadores como “ contratantes não-empregados”, o que poupa sua empresa dos pagamentos do Seguro Social, Medicare e Seguro Desemprego para lutadores.

Teme-se que ela ensine aos pequenos empresários modos de evitar o pagamento de impostos e taxas, sem cair nas garras do leão da Receita americana.

Mais outro hábil cérebro foi escolhido para esse gabinete de estrelas dos negócios: Wilbur Ross, que regerá a pasta do Comércio. Um cidadão que se tornou bilionário investindo em diversas empresas, sempre saindo com o bolso bem fornido. Totalmente favorável a cortes de impostos, especialmente daqueles, como ele, donos de grandes fortunas.

Por fim, o quinto bilionário do governo é o mais suscetível de críticas: Rex Tillerson, presidente da Exxon, sucessora da notória Standard Oi, a maior petrolífera do mundo.

Para os esquerdistas desavisados, Tiller, na poderosa Secretaria de Estado, iria beneficiar sua indústria, com leis ruins para o país, que  facilitariam as operações vorazes da herdeira da    Standard Oil para se assenhorar do filé das reserva petrolíferas mundiais.

Para os direitistas do “war party”, empenhados em  lançar os EUA contra a Rússia, a amizade de Tillerson com Putin favoreceria um acordo entre os dois países.

O que preveem esses inquietos cidadãos, poderia levar Trump a garantir aos vizinhos da Rússia de que Putin não tem ambições territoriais sobre eles. E , que, portanto, não se justificava as mobilizações de 300 mil soldados nas fronteiras com os russos.

E mais: como Trump já criticou a guerra da Síria, não seria impossível ser convencido pelo amigo Putin a não exigir a queda de Assad como condição prévia para conversações de paz, o que tem sido um obstáculo intransponível pelas seguidas negociações entre as partes.

Lamento dizer, mas os homens do war party  estão certos.

O mundo mudou, a Exxon não utiliza mais os nada recomendáveis métodos da “bête noire” Standard Oil. Prefere associar-se a empresas das nações produtoras de petróleo, participar de concorrências públicas para exploração de campos petrolíferos e negociar condições vantajosas para países com líderes até de esquerda.

E a amizade Tiller-Putin pode estimular acordos pacíficos como aqueles tão temidos pela larga faixa guerreira do partido Republicano e afins.

Deixando os bilionários de lado, cumpre falar sobre os responsáveis verdadeiros pela segurança nacional no governo Putin.

Jeff Sessions, que será o Secretário da Justiça, pinta com medidas injustas contra os imigrantes, como senador pelo Alabama.

Em 2013, ele fez de tudo para afundar uma lei abrangente sobre a imigração. Discursou contra a fixação de condições para imigrantes ilegais se legalizarem. Em vez disso, fora com eles!

Também lutou contra quase todas as medidas apresentadas no Senado sobre a imigração. Ele diz que a imigração é sempre ruim pois os imigrantes roubam empregos de americanos.

Agora, seguem-se três generais.

Todos eles linha-dura, rebeldes contra a “fraqueza” de Obama e inimigos dos países que ousam desafiar a hegemonia americana no planeta.

O que vai para a Secretaria de Defesa, muito importante para um país que, direta ou indiretamente, está sempre envolvido em guerras, será o general John “Cachorro Louco” Matis.

Ele não tem esse apelido por acaso.

Matts tem a maior bronca do Irã.

Veja estas declarações do fogoso general :”O Irã não é um inimigo do ISIS; “Considero o ISIS  nada mais do que uma desculpa para o Irã continuar sua mistificação”; o gol da política americana é por os iranianos de joelhos; o Irã não é uma nação-Estado mas “uma causa revolucionária dedicada à violência.”

Em 2012 ele brigou com Obama (e foi demitido) por ser ativamente contrário à política de conversações com os iranianos.

Apesar de sua idiossincrasia contra o Irã, Matts em pontos positivos:

– considera a ocupação da Cisjordânia por Israel como inaceitável;

– teria convencido Trump de que torturas não funcionam e só causam críticas internacionais.

MICHAEL FLYN –será o assessor-mor de segurança nacional. Enquanto Matts detesta o Irã, o general Flyn é um autêntico islamofóbico. Para ele, “a ideologia islâmica é doente, o Islam é como um câncer e o medo dos muçulmanos é racional. ”

Flyn confessou: “Tenho estado em guerra com o Islam, ou com uma parte do Islam, durante a última década”

A Rússia também é alvo dos mísseis verbais de Flyn.

Classificou o país de Tolstoi como o inimigo número 1 dos EUA, contra os quais participa de uma conspiração mundial.

O general John Kelly, a quem caberá a segurança interna, distinguiu-se por ter brigado com Obama por contra o propósito presidencial de fechar a tristemente famosa prisão de Guantánamo.

Quanto aos três últimos secretários de Trump, poso dizer que todos eles defendem as mais atrasadas e reacionárias teses, que seriam reprovadas por excessivamente radicais até por políticos conservadores do século 19.

Scott Pruitt , nomeado para dirigir o EPA(agência que cuida da proteção ambiental), repete uma postura bizarra comum no gabinete Trump:  um adversário da proteção ambiental- principal missão de sua pasta.

Ele já processou a EPA muitas vezes, alegando intromissões injustas do governo no meio ambiente.

Para Prutt, não está provado que haja alguma responsabilidade humana no aquecimento global.

Já trabalhou contra um plano que limita as emissões de empresas que energia gerada por carvão.

Na Saúde teremos o deputado Tom Price, radical adversário do Obamacare- plano que cuida da saúde de milhões de velhos, deficientes e americanos de baixa renda.

Price apoiou decididamente uma resolução para despojar o Planejamento Familiar de fundos federais.

Outra escolha bizarra do sempre humorista Donald Trump é a do ex-governador do Texas, Rick Perry para Secretário da Energia.

Demonstrando a importância que Perry dá ao cargo, em 2011, então pré-candidato à presidência, sugeriu a extinção da Secretaria, que agora vai dirigir.

Na mesma época, ele fez outra proposta criativa: resolver o problema do déficit público através da cobrança de imposto de renda aos mais pobres.

Fechando de ouro esta apresentação do gabinete mais rico dos EUA em todos os tempos, vem Ben Carson, Secretário da Habitação.

Em 2013, este bem sucedido médico afirmou que o Sistema de Saúde Obamacare é a pior coisa que já aconteceu neste país depois da escravidão.”

Explicando sua fantástica declaração, disse  que  a mulher que aborta é como um senhor de escravos “que acreditava tem direito de fazer o que quisesse com seus escravos.”

Outros pensamentos definitivos deste audaz cidadão:

– o controle de armas dos civis é uma porta para as tiranias. O nazismo lançou mão desta medida para dominar o povo:

– o Departamento de Educação deveria “ monitorar nossas instituições e educação superior” para detectar tendências extremistas e, onde as encontrasse, negar financiamento federal.

Carson vai cuidar de expansão das habitações. Possivelmente exigirá atestado ideológico de quem pedir o financiamento respecivo.

Este, de um modo geral, é o gabinete de Trump.

Não vou ofendê-lo explicando quais as perspectivas  de um governo  com um primeiro time assim. É por demais óbvio.

Só me cabe pedir que Deus salve a América.

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