Revolvendo as cinzas.

Nos últimos 30 anos do século passado, a Irlanda do Norte ardeu com conflitos entre uma organização secreta,  o IRA (Exército Revolucionário Irlandês), e as forças de segurança do Reino Unido.

Sob o domínio inglês, os católicos irlandeses eram discriminados , em favor dos anglicanos e outras seitas reformistas protestantes.

Jamais se conformaram.

Depois de várias revoltas, em 1923, a parte sul do país acabou ganhando a independência  com o nome de República da Irlanda.

O norte continuou sob o governo de Londres.

Mas a sociedade ficou nitidamente dividida.

A maioria protestante, os chamados unionistas, queriam permanecer parte da Inglaterra. Eles estavam do lado do establishment, eram os beneficiários do poder.

Os católicos (1/3 da população), em sua maioria,, viviam em guetos miseráveis, eram preteridos nos melhores empregos, nos programas sociais, alem de terem escassa participação  na administração.

Natural que desejassem que a Irlanda do Norte se integrasse na República da Irlanda.

Essa bandeira era defendida na órbita legal pelo partido Sinn Fein e, clandestinamente, pelo IRA.

A ação do IRA constituía em ataques contra o exército inglês e atentados especialmente  no território da Grã-Bretanha.

A repressão do governo era extremamente violenta.

Suas forças de segurança não vacilavam em atirar para matar, atingindo até inocentes, e em torturar suspeitos.

Ao seu lado, organizações de paramilitares unionistas espalhavam o terror nos bairros católicos.

Finalmente, em 1998, o primeiro-ministro Tony Blair conseguiu a paz- provavelmente a mais importante realização do seu governo (talvez a única).

Celebrou-se um acordo, considerado satisfatório pelos católicos, inclusive os líderes do IRA.

Dois acontecimentos praticamente simultâneos vêm agora reacender o interesse  público num doloroso episódio histórico que parecia esquecido.

O lançamento de um livro provando a participação do exército e da polícia em esquadrões da morte na Irlanda do Norte, nos anos 70, e a denúncia de um grupo de soldados pelo assassinato de inocentes, em 1972, no chamado “Domingo Sangrento” (Bloody Sunday).

Escrito por Anne Cadwallader, o livro “Aliados letais: conluio inglês na Irlanda” demonstra com evidências inquestionáveis a associação entre as forças de segurança com paramilitares unionistas.

Cadwallader se baseou em documentos obtidos da Equipe de Pesquisas Históricas, criada pela Polícia da Irlanda do Norte para investigar assassinatos cometidos durante os conflitos.

O livro mostra como membros do Royal Ulster Constabulary (polícia política) e Ulster Defence Regiment (exército) atuavam em uma gangue de unionistas, que matou 120 pessoas nos condados de Armagh e Tyronne, nos anos 70.

Muito grave é o fato de 120 crimes de morte terem sido ignorados durante 40 anos, sem que as autoridades policiais tivessem se preocupado em descobrir e punir os autores.

Um acontecimento semelhante foi denunciado na semana passada pelo jornal Sunday Times.

Desta vez, a justiça inglesa demorou, mas está agindo.

Em janeiro de 1972, uma tropa de paraquedistas britânicos atirou contra uma manifestação pacífica de católicos irlandeses na cidade de Derry, matando 14 pessoas.

Essa ação criminosa repercutiu em toda a parte, não se limitou às fronteiras da Irlanda e do Reino Unido. Inclusive foi apresentada de forma dramática em um filme de longa metragem, que correu mundo.

Apesar do escândalo, o governo conservador inglês não tomou qualquer atitude.

Somente em 1998, no governo trabalhista de Tony Blair, foi criada uma comissão para investigar o fato, liderada por Lord Saville.

Devido à falta de cooperação das autoridades militares e policiais, a comissão levou 12 anos para concluir seus trabalhos.

Há 3 anos, o chamado “relatório Saville” foi publicado, revelando os detalhes do “Domingo Sangrento”. A mortífera ação da tropa de paraquedistas aparece caracterizada como “injustificada e injustificável.”

O governo decidiu levar o caso adiante.

Os soldados envolvidos, hoje aposentados, deverão ser interrogados sob acusação de assassinato na passeata , em Derry.

O primeiro-ministro atual, David Cameron (conservador), depois da publicação do relatório Saville, enviou desculpas formais às famílias das vítimas, em nome da nação.

Políticos unionistas da Irlanda do Norte buscaram aliviar as culpas dos militares, acusando revolucionários irlandeses de terem provocado o ataque.

Não pegou.

O insuspeito relatório de Lord Saville iliba o IRA de qualquer responsabilidade.

 

 

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