Reunião Trump-Kim: a montanha pariu um rato.

Anunciado com grande estardalhaço, o encontro Trump-Kim ficou bem aquém do esperado.

A promessa de desnuclearização total, além de imprecisa, não foi novidade alguma. Tanto Kim, quanto autoridades norte-coreanas menores já a haviam feito várias vezes. Até mesmo oficialmente, há poucos dias, na reunião entre Kim e o presidente Moon, da Coreia do Sul.

Talvez o que surpreendeu mais foram os afagos e derramados elogios tributados por The Donald àquele a quem jurara “fogo e fúria”.

O presidente foi muito criticado por tratar com inesperado carinho um ditador crudelíssimo e até – imagine- comunista.

Não vejo motivos para tanta indignação. Afinal, Trump já foi igualmente amigável com gente do tipo de Netanyahu e do rei saudita Salman e respectivo filho dileto.

Concedo que os números das mortandades na folha corrida de Kim são muito mais expressivos.

Dizem que matou 200 mil pessoas (não sei de onde saiu esse número que os jornalistas repetem com convicção), mantém enjaulados milhares de norte-coreanos por motivos irrelevantes.

Netanyhau pertence ao mesmo time do ditador, como líder de um governo que protagoniza barbaridades como o recente massacre de palestinos nas fronteiras de Gaza. E a realeza saudita, que Trump chegou a dizer que compartilha os valores americanos, é responsável pela maior crise humanitária do mundo, com a guerra impiedosa que move ao povo do Iêmen.

Também não considero que o cancelamento dos “provocativos” jogos de guerra fosse uma generosidade excessiva da parte de Trump. É mais justo considerar como retribuição ao desmonte de uma instalação para testes de armas nucleares efetuado previamente por Kim.

Além de chover no molhado, o encontro histórico foi carente de decisões vitais, que dirimissem sérias dúvidas, as quais precisam ser esclarecidas.

Faltou definir a extensão da “desnuclearização total” da península. Partes das unidades nucleares norte-coreanas são necessária para suprir o país de eletricidade e para diversas aplicações na medicina. Os EUA concordariam com isso?

E mais: como se processará o desmonte?

John Bolton, o falcão assessor-mor de Trump, insiste que deveria ser de uma vez.

Se ele conseguisse abrandar sua ferocidade não cometeria  erros impróprios para a sua função, já que os experts garantem que o complexo e imenso programa de Kim levaria anos para ser reduzido a pó.

O secretário de Estado, Mike Pompeo, outro falcão raivoso, também garantiu que as sanções só serão canceladas quando não houver vestígios do sonho nuclear de Kim Jong-Um.

O texto da declaração final do histórico encontro nada fala se o desejos impossíveis de Bolton e Pompeo foram aceitos ou se, como querem os norte-coreanos, as sanções serão levantadas pari passu com etapas do desmonte nuclear.

Caso Trump some com seus subordinados, a Coreia do Norte passaria todos os anos que durar o desmonte debaixo das sanções que estão destruindo o país.

Num cenário de tamanha desolação, os investimentos estrangeiros ficariam de fora.

Sem eles, como poderia se viabilizar o admirável mundo novo prometido à Coreia do Norte pelo comercial criado pela equipe de publicidade da Casa Branca?

O mundo esperava que a declaração dos dois líderes, pelo menos, informasse se as sanções iriam caindo à medida que a desnuclearização avançasse ou só quando acabasse.

É verdade que, falando à imprensa, The Donald disse que a primeira ideia seria a adotada. Mas, também afirmou que as sanções permaneciam, embora Kim já tivesse dado os primeiros passos, destruindo uma instalação de testes nucleares, diante de jornalistas convidados.

Trump demonstrou querer mais, quando confidenciou ter, no fim da reunião, pedido (e conseguido) que o ditador norte-coreano prometesse destruir certa instalação de testes de mísseis balísticos, a qual, segundo os experts, tem importância mínima.

Foi talvez para sossegar um pouco os líderes japoneses. Esses cavalheiros tinham suplicado a Trump que a eliminação de todo o programa de mísseis interbalísticos norte-coreano também fosse decidida no meeting de Singapura, pois essas armas poderiam alcançar o Japão. Vai saber se o lobo vestiu mesmo a pele do cordeiro.

Para a decepção do governo de Tóquio, ele não foi atendido. Pelo menos, o tema não constou da declaração final.

As garantias da segurança que os EUA dariam à Coreia do Norte também deixaram de ser especificadas. Nem mesmo por alto.

Em compensação não ficou 100% garantido que a desnuclearização seria mesmo total e irreversível. Há evidências históricas de que a Coreia do Norte costuma não cumprir tais compromissos.

Em suma, o encontro tão festejado não passaria de muito barulho por nada.

Há um certo exagero nisso.

Se os pontos básicos – desnuclearização e garantias de segurança – já haviam sido aprovados anteriormente, realmente faltava sua oficialização, o primeiro passo para se chegar ao objetivo final de paz entre as duas nações.

Era necessário. Toda caminhada começa com um primeiro passo (ditado japonês).

Depois de Singapua, as dúvidas teriam acabado: EUA e Coreia do Norte haviam acertado as pontas, faltando apenas os detalhes.

É neles que está o diabo, comentaram os russos.

Sabemos que que muitas reuniões já haviam se realizado entre autoridades dos dois países para discutir a crise. Sabe-se até mesmo que Kim conferenciou demoradamenre com o secretário de Estado, Mike Pompeo.

Suspeito que ainda estejam por resolver os detalhes fundamentais: retirada das sanções- garantias de segurança prestadas pelos EUA- processo e limites de desnuclearização e possível retirada das forças americanas da Coreia do Sul.

Do contrário, essas questões triam constado do comunicado final dos dois líderes

Como Trump e Kim parecem mesmo dispostos a irem até o fim, acredito que tudo naõ acabará em pizza – mas em champagne.

The Donald aliás já mandou abrir garrafas da sua safra especial de Dom Perignon. Vitaminados pelo alívio que as concessões de Kim deram ao povo americano, seus índices nas pesquisas estão subindo. Em algumas já foram de 40% até 45%.

Dizem que, entusiasmado por seus áulicos, ele pensa em levar o Nobel da Paz, junto com o ditador norte-coreano…

O encontro de Singapura pode ser comparado ao lançamento da pedra fundamental de uma obra importante.

Há um show de faixas, bandeirolas e folhetos, com jornalistas, partidários, discursos, muito oba-oba.

Num governo consciencioso, a obra acaba mesmo sendo construída como o planejado.

O problema é que consciência é algo que a dupla tem demonstrado não ter.

No entanto, acredito que haja um método na loucura desses déspotas não esclarecidos.

Do contrário, dificilmente estariam onde estão.

Agora, quanto à ideia de se dar o Nobel da Paz a Donald Trump e Kim Jong Nu não acho uma piada de mau gosto.

Está mais para escândalo.

 

 

 

 

 

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