Quem torturou e matou o estudante italiano no Egito?

A descoberta em três de fevereiro do corpo do estudante italiano Giulio Regeni numa estrada deserta do Egito está criando um sério atrito deste país com a Itália.

O governo Roma solicitou rigorosas investigações às autoridades egípcias.

Os resultados vieram dois meses depois.

O ministro do Interior do governo Sissi informou que Regeni fora assassinado por um bando de criminosos especializados em seqüestrar turistas estrangeiros para pedir resgate.

Na Itália, vozes de todo o país protestaram indignadas,  a explicação egípcia foi considerada ridícula.

De fato, qual seqüestrador esmera-se em torturar suas vítimas, como fizeram com Regeni?

Sabia-se que esse procedimento era típico da polícia egípcia, desde os tempos de Mubarak até atualmente.

Durante o programa das renditions de George W. Bush, agentes americanos costumavam trazer suspeitos para serem interrogados no Cairo confiando-os  à ”competência” dos esbirros locais no uso dos mais violentos meios de persuasão.

E o relatório do  Nadeem Center, grupo de psiquiatras do Cairo que há 20 anos  fornecem terapia a vítimas de torturas, foi definitivo.

Respaldados pelo atendimento em 600 casos de torturas pelos órgãos de segurança, o Nadeem encontrou no corpo de Regeni  marcas idênticas às violências praticadas por essa gente.

Claro, as autoridades italianas rejeitaram a tosca mistificação do ministro egípcio.

No Parlamento, o testemunho da mãe de Regeni comoveu profundamente os senadores e boa parte do povo atingido pela cobertura da mídia. Ela contou como seu filho foi tão torturado, que ficou praticamente irreconhecível, só conseguira identificá-lo por uma marca no nariz.

Sob intensa pressão da opinião pública, o primeiro-ministro Matteto Renzi exigiu que o governo do general Sissi cooperasse pra valer com a investigação italiana.

O ministro do Interior Paolo Gentiloni foi duro: não aceitaria verdades distorcidas ou convenientes. “Pelo interesse nacional não permitiremos que a dignidade da Itália seja pisada”, declarou.

Disse também que o dossiê fornecido pelas autoridades egípcias era falho por não incluir informações-chave como os registros das ligações telefônicas de Regeni e as gravações das câmeras do metrô do Cairo. E perguntou:  quem no Egito colocou Regeni sob vigilância? Concluindo, insistiu que as autoridades italianas pudessem ter um papel mais ativo nas investigações.

Enquanto isso, a questão chegou ao Parlamento Europeu, onde a reprovação foi severa.

Com uma maioria de 588 a 10,com 59 abstenções, aprovou-se uma resolução que condenava as torturas e o assassinato de Giulio Regeni pela forças de segurança do Egito, pedia total cooperação  egípcias na investigação e criticava os membros da União Européia,  cegos diante das violências sistemáticas do governo do Cairo contra os direitos humanos.

Longe de ser um “incidente isolado”, os deputados visualizavam um Estado onde desaparecimentos, torturas, desrespeito aos direitos individuais e à liberdade de imprensa transformaram-se em regra.

A resolução pedia ainda a suspensão de qualquer forma de  cooperação em segurança com as autoridades egípcias e condenava as vendas de armas ao Egito pela França,Alemanha e Reino Unido. E recomendava que os membros da União Européia cessassem de ver no pais dos faraós uma garantia de estabilidade e um parceiro no combate ao extremismo violento e ao terrorismo na região.”

Parece que o governo Sissi foi posto contra a parede.

O governo italiano não teria como resistir às pressões populares.

Até o rompimento de relações diplomáticas não estaria fora de questão.

No entanto, o professor Marchetti, da Universidade LUISS, especialista em relações internacionais, foi pragmático.

Veio com as clássicas “razões de estado”.

Não se deve esperar nada de radical do governo Renzi em relação ao Egito, garantiu.

Afinal, os dois países compartilham de interesses econômicos muito vantajosos, particularmente envolvendo a poderosa petrolífera italiana ENI.

Além disso, o Egito foi um importante aliado da Itália na prospecção de negócios com a Líbia.

De outro lado, o governo Matteo Renzi, por razões de política interna, precisa que o Egito  apresente um culpado viável  e o leve a julgamento.

“Se isso (o crime) é algo executado por instituições (egípcias), o governo italiano certamente não espera incriminar altas autoridades próximas a Sissi, porque isso enfraqueceria o governo Sissi, considerado um aliado importante”, pontificou Marchetti.

Portanto, concluiu, a melhor solução será indiciar um oficial de nível médio que a Itália possa  aceitar como culpado. A morte do estudante seria apresentada como uma ação independente de um oficial que agiu erradamente.

Não acho que daria certo.

Em casos análogos, que despertam furor na mídia européia, o governo Sissi não costuma acusar e punir oficiais de nível médio.

Isso só acontece em casos muito raros, quando então as penas são curtas ou comutadas, como atesta Michelle Dunne, diretora do programa do Oriente Médio do Carnegie  Endowment for International Peace, de Washington.

Essa leniência absoluta tem suas razões.

Os membros das forças de segurança se sentiriam desestimulados caso um dos seus fosse punido por, digamos, arrancar as unhas de “um inimigo do Estado”.

E possível ainda que alguns, diante da punição de colegas, temessem sofrer o mesmo e passassem a pegar mais leve nos inquéritos dos presos.

Coisa que as altas autoridades não querem que aconteça de jeito nenhum. Haja visto suas tendências belicosas, comprovadas pelos mais de mil opositores mortos, a maioria em manifestações de protesto.

Mas, seria o estudante Giulio Regeni um inimigo do Estado, ou mesmo um perigoso opositor, para ser tratado do jeito que foi?

Tenho uma hipótese.

O estudante estava no Egito trabalhando num estudo para a universidade de Cambridge sobre o movimento operário no Egito.

Provavelmente ouviu depoimentos como este de Mustafa Ku´aib, líder da União Independente de Operários:”A situação dos trabalhadores (sob Sissi) é muito ruim.As pessoas são presas, detidas e torturadas para proteger uma união de trabalhadores (oficial) que vendeu os trabalhadores.”

A União Independente surgiu para se contrapor a essa dita União dos Trabalhadores, dirigida por pelegos.

E nunca foi reconhecida, sendo acusada de violar as leis pela união apoiada pelo governo. Recentemente, isso está numa lei que deve declarar ilegal a união independente.

Acredita-se que estes fatos estariam no relatório da pesquisa do estudante italiano.

Sendo posteriormente publicada pela Universidade de Cambridge, seria mais um golpe no regime egípcio, que procura apresentar-se como democrata.

Precisaria mais para as autoridades de segurança egípcias considerassem Regeni um inimigo do Estado, a ser tirado de circulação?

Duvido que o governo Sissi fabrique um culpado nos termos pragmáticos e cínicos do professor Marchetti.

Mais provável é que, ou ele persiste na lenda dos bandidos ou apresenta um soldado de baixa graduação , pronto a se sacrificar pelos interesses do Estado, aceitando as culpas e uma pena leve, rapidamente comutada

Claro, isso não vai acontecer logo.

Os políticos sabem que o tempo joga a favor do esquecimento.

E o perigo é o povo italiano acabar mudando suas preocupações para as chances do Juventus no campeonato da Europa  ou da Ferrari no circuito da Fórmula 1.

 

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