Para tristeza de alguns, o Irã nuclear aceita supervisão total

Nesta 2ª. feira, o Irã criou um problema para os grandes do Ocidente: como manter as sanções depois de sua última proposta para provar que não pretende produzir armas atômicas.

O ministro Fereydoun Abbas, em nome do seu governo, ofereceu “total supervisão” do programa nuclear do país pela Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), da ONU. Inclusive respondendo a quaisquer questões que forem propostas.
Até agora, o Irã permitia uma supervisão limitada, alegando que certas instalações e processos tinham de permanecer secretos por temer a espionagem de certos fiscais da IAEA. Leia-se: de indivíduos ligados a Israel.
Com a abertura total das atividades do seu programa nuclear à inspeção, qualquer eventual operação ligada a objetivos militares seria detectada, garantindo-se assim o uso pacífico da energia nuclear.
Em troca, o Irã quer a suspensão das sanções contra o país que, ao contrário do que alardeia Ahmadinejad, estão causando sérios problemas na economia nacional.
É claro, com a supervisão, a proibição do Irã enriquecer  urânio torna-se desnecessária e o governo de Teerã informou que continuará realizando esse processo, o que, aliás, as leis internacionais lhe facultam.
A proposta iraniana pegou o Ocidente de calças curtas.
Não dava para responder com o tradicional “não”. O porta-voz de Catherine Ashton, chefe das Relações Externas da Comunidade Européia limitou-se a, burocraticamente, dizer que Teerã precisa restabelecer sua credibilidade antes de pleitear a redução total ou parcial das sanções.
Lembrou ainda que os iranianos ainda não tinham respondido à proposta de uma reunião feita por Ashton.
Claro, são apenas estratégias para adiar uma resposta definitiva do Grupo dos 4 + 1 (França, Inglaterra, EUA, Rússia e Alemanha), a quem a ONU confiou as negociações com o Irã sobre seu programa nuclear.
Aparentemente, a oferta iraniana resolveria o impasse, mas há outros interesses em jogo.
O governo de Nethanyau não pode permitir que tudo fique por isso mesmo.
Afinal, ele criou o mito do “perigo iraniano”, aproveitando a bravata do verborrágico Ahmadinejad, ao anunciar que Israel seria varrido do  mapa. Graças a essa tola ameaça, o premier israelense  conseguiu convencer seu povo de que só  seria possível enfrentar o mortal inimigo iraniano através de uma solução militar, sob a liderança dele, o valente Nethanyau.
Claro que o presidente iraniano caiu em si e já explicou que não será ele que “varrerá Israel do mapa”, mas sim o processo histórico que, inevitavelmente, acabaria suprimindo o caráter  judeu do estado israelense (afirmado pelo artigo 1º. de sua lei constitucional).
Como também é claro que Ahmadinejad não é louco para atacar Israel, que tem 200 bombas nucleares e forças militares poderosamente equipadas com os mais avançados armamentos produzidos pelos americanos.
Para os EUA, eliminar o perigo nuclear iraniano através de negociações, está longe de ser o ideal. Além de desagradar seu aliado, Israel, não é uma boa para o “partido da guerra”, instalado nas secretarias da Defesa e das Relações Exteriores, permitir a existência no Oriente Médio de uma potência (o Irã), forte o bastante para contestar a hegemonia americana, justamente na região que contém a maior parte das reservas petrolíferas do mundo.
A Inglaterra, sob o governo conservador, costuma seguir a política externa da Casa Branca e a França, embora vez por outra tome iniciativas próprias, também abaixa a cabeça diante dos americanos.
A Rússia, que voltou a expandir seus negócios com o Irã, já se sabe, vai apoiar Teerã, que no grupo dos 4 + 1 perderia por 4 x 1.
Mas não é absolutamente certo.
Na difícil conjuntura por que passa os EUA, iniciativas como o acordo com o Irã, que afastem aventuras militares, são bem vistas pois evitam gastos militares indesejados.
Além disso, novas pesquisas mostram uma crescente tendência do povo americano, especialmente os jovens, contrária à atual política externa intervencionista, que antagoniza o país com os muçulmanos, alimentando o recrutamento de jovens pelas milícias fundamentalistas.
Foram-se os tempos em que a América cultuava os presidentes guerreiros, que plantavam a bandeira estrelada “from the halls of Montezuma to the hills of Trinidad
Agora, o Obama “homem da paz” (ele até já ganhou o prêmio Noel), talvez seja mais forte nas urnas.

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