Os ultras dos dois lados complicam no Acordo Nuclear com o Irã.

Quando, em 2018, Trump tirou os EUA do acordo nuclear com o Irã (o P5+1) e lançou sanções contra a república xiita, ameaçando também os países que comerciassem com ela, recebeu ardentes críticas da opinião pública mundial. Só Israel,  a monarquia ditatorial da Arábia Saudita e suas cópias no Golfo Pérsico ficaram do lado dele.

Era a chamada “máxima pressão” que objetivava levar o Irã ao caos para forçar Teerã a aceitar alterações inaceitáveis no acordo nuclear, ditadas por Trump.

Tendo se recusado a sair do P5+1, a Alemanha, França e Reino Unido condenaram a desumanidade das sanções trumpnianas que, ao devastar a economia iraniana, estava ferindo seu povo com fome, desemprego e graves danos à saúde pública, oriundos da virtual sanção à importação de medicamentos essenciais.

Trump não se tocou com esses detalhes irrelevantes… prosseguiu sua “máxima pressão”, forçando inclusive os bancos de países aliados a bloquearem recursos iranianos em seu poder devido a operações sancionadas.

Na área política, The Donald manteve até o fim do mandato uma ofensiva de xingamentos e ameaças contra o governo de Teerã, devidamente retribuídas.

Saiu da casinha, ao assassinar o general Suleimany, comandante da Guarda Revolucionária e das ações externas do Irã, um herói para os iranianos, além do provável nihil obstat ao assassinato do mais importante cientista nuclear do país pelo departamento de ações mortais do Mossad, a agência de espionagem de Israel.

Diversas vezes o conflito chegou perto da guerra, quase explodiu com a morte do general iraniano.

Em todo o conturbado “diálogo” entre os governos de Trump e Rouhani, The Donald sempre insistiu em negociar com os chefes iranianos a alteração do acordo nuclear, para incluir o fim do programa de mísseis balísticos e da presença perturbadora do Irã na região.

Mas o governo de Teerã não se entregou, continuou exigindo a volta dos EUA ao acordo nuclear. Reagindo às sanções do adversário, iniciou uma gradual elevação do enriquecimento do urânio, acima do permitido pelo Acordo Nuclear.

A proximidade das eleições americanas veio em boa hora pois, no andar da carruagem, a guerra vinha chegando a galope. Contrariando Netanyahu, que sonhava com ela, Trump vacilou, pois temia que a profunda aversão do povo dos EUA  a novas conflagrações poderia eleger Biden.

Com a eleição do candidato democrata, surgiram esperanças de paz com o Irã. Para muitos, mais do que esperança, pois Biden reiterara que voltaria sem demora ao acordo nuclear e cancelaria as terríveis sanções sobre o Irã, enquanto o regime xiita retroagiria o enriquecimento do urânio aos níveis exigidos pelo acordo com os P5+1.

Hoje (2 de março), já se foram 43 dias desde a posse do presidente americano, quando reiterou sua promessa de fumar o cachimbo da paz nuclear com o presidente iraniano.

E nada feito.

Os iranianos estão desesperados com a demora. Os americanos parecem tranquilos. Natural, não é seu povo que está sendo bombardeado pelos efeitos destruidores das sanções.

Anthony Blinken, o novo secretário de Estado, tenta racionalizar o desinteresse do governo Biden em resolver logo a questão: “O Irã não está cumprindo uma série de compromissos em diversas frentes. E levaria  tempo, caso ele tomasse a decisão de  voltar ao comprometido e para nós avaliarmos se ele estava mesmo atendendo a suas obrigações. Nós ainda não chegamos lá. Para dizer o mínimo (JNS, 01/02/2021).”

O processo vai devagar porque cada um dos dois países em conflito insiste que é o outro que deve dar o primeiro passo – os EUA re-entrando no acordo do P5+1 e  cancelando suas sanções, e o Irã  voltando a obedecer ao limite de enriquecimento do urânio constante do acordo.

O Irã parece ter razão. Afinal, foi os EUA que começaram tudo, retirando-se de um acordo que Borrell, o chefe de Relações Exteriores da União Europeia, saudou: “Para nós, europeus, o acordo nuclear do Irã é um triunfo da diplomacia e nós estamos muito orgulhosos dele.”

Quanto às sanções aplicadas por Trump, é opinião geral de que se trata de medidas cruéis e imorais, condenadas pelo Direito Internacional, por sacrificar o povo iraniano no interesse dos discutíveis objetivos políticos do ex-presidente republicano.

Acho que se trata também de uma verdadeira chantagem – ou Teerã cede ou os iranianos continuam sofrendo.

Não dá para discutir: é uma brutal malazarte americana.

Trump foi o responsável, sim, mas, infelizmente, ele representava os EUA.

 E Os EUA, agora sob nova e democrática administração, que proclama o respeito às leis e aos valores americanos, deveriam apagar logo esta mancha suja na sua reputação.

Não é o que está acontecendo.

Biden garante que vai repor os EUA no acordo e acabar com as sanções, logo depois do Irã fazer sua parte. Não é justo.

Afinal, os iranianos só passaram a desrespeitar exigência do Acordo Nuclear em reação à saída americana e às sanções lançadas contra o país, por sinal, tão (ou mais) destrutivas quanto ataques militares. Elas não atingem iranianos com mísseis mas com fome, doenças graves e desemprego.

Não dá para negar, a resposta do Irã foi um gesto de auto-defesa. O problema é que, embora Biden diga que vai cumprir o prometido, seus representantes na política externa esboçam nova chantagem: não basta que o Irã volte a enriquecer urânio nos níveis obrigatórios, tem também de assinar um novo acordo, mais rigoroso e duradouro, com severas restrições no seu programa de mísseis e o fim do financiamento e apoio militar ao que os EUA batizam de “terrorismo internacional.”

Disse Blinken, o secretário de Estado: “Trabalhando com aliados e parceiros, nós procuraremos prolongar e tornar mais rigoroso o P5+1 e abordar outras áreas de preocupação, incluindo o comportamento desestabilizador do Irã na região e o desenvolvimento e proliferação dos mísseis balísticos (CNBC 23/02/2021);”

Jake Sullivan, conselheiro do presidente em Segurança Nacional foi vago mas deixou claro que os EUA querem mudanças no Acordo Nuclear: “Gostaríamos de deixar claro que estabeleceremos alguns dos parâmetros e restrições no programa que caíram durante o curso dos últimos anos.”.

Desse jeito, a carruagem empaca.

O conselheiro especial de Segurança Nacional, Jack Sullivan, e, especialmente, o secretário de Estado Anthony Blinken, parecem ter tendências imperialistas, o que os leva a só enxergar os interesses americanos, desconsiderando as aspirações de países inamistosos, ainda que justas. Por outro lado, os dois asseguram seu respeito absoluto aos direitos humanos e às leis internacionais.

No caso do acordo do P5+1, todas as duas posições estão em modo de colisão.

Por enquanto, os interesses imperais americanos estão possivelmente pesando mais. Embora defendendo a reintegração dos EUA no acordo e o fim das sanções, os dois auxiliares do presidente flertam  com a ideia de usar as sanções como forma de alavancar a pressão sobre o Irã para que atrofie seu programa de mísseis balísticos e corte o apoio às milícias que lutam a seu lado em países da região.

Trata-se  de uma barganha imoral, que aceita, poderia ser suicídio do regime iraniano, já que as eliminações pretendidas minariam a defesa do país.

Os mísseis balísticos são essenciais ao Irã, diante da proximidade agressiva de Israel, da Arábia Saudita e dos agora  super bem armados Emirados Árabes. A posse pelo Irã de grande número de mísseis altamente avançados representa um fator de dissuasão, capaz de induzir estes países a desistirem de atacar o Irã, temendo uma resposta destruidora dos poderosos mísseis.

Quanto à alegação de ser o Irã  “o maior promotor de terrorismo no mundo”, lembro a famosa frase de Joseph Goebells, ministro de Propaganda do nazismo :“Se você contar uma grande mentira e a repetir sem cessar, as pessoas acabarão por acreditar nela.”

  O fake News, rotulando o Irã como o maior promotor do terrorismo do mundo foi divulgada inúmeras vezes pelos três últimos presidentes americanos, repetida e multiplicada por seus numerosos seguidores na Tv, Rádio, jornais, revistas, comícios, reuniões cívicas, etc.

A realidade não é bem assim.

O Irã está na Síria a convite do presidente Assad, legalmente eleito e reconhecido pela ONU, para o apoiar militarmente na luta contra rebeldes, treinados e financiados pelos EUA, Qatar, Arábia Saudita e Turquia.

 No Iêmen, o Irã fornece uma quantidade limitada de armamentos ao movimento revolucionário dos houthis, que expulsou o presidente Hadi.  A guerra movida pela Arábia Saudita, em defesa de Hadi, transformou o Iêmen no maior desastre humanitário da atualidade, conforme a ONU:

 “Relatórios vem demonstrando que a estratégia adotada pela coalisão liderada pelos sauditas visa destruir a produção de alimentos das áreas controladas pelos houthis. Esta estratégia de guerra econômica, deteriorando a agricultura e restringindo as importações de alimentos, objetiva atormentar e matar de fome a população (Zenith, 10/07/2019).”

No Líbano, o Irã treina e financia o Hisbolá, movimento xiíta dividido em duas alas. A ala civil realiza amplo trabalho de assistência social e atua politicamente, contando atualmente com ministros no atual governo nacional. A ala militar, associada ao Irã, combate na guerra na Síria, em favor do governo legal.

Na guerra do Iraque, no período 2003-2011,  milícias do Hisbolá tiveram participação efetiva na luta do povo iraquiano contra o exército americano. Foi justo, afinal os EUA ocupavam o Iraque depois de invadi-lo sem motivo.

Atualmente, o Hisbolá e outras milícias controladas pelo Irã tem lançado foguetes contra as bases dos EUA (que retaliam vigorosamente). Objetivam expulsar os militares americanos, pois, segundo os milicianos, a única razão da presença yankee seria ameaçar o vizinho Irã e pressionar o próprio governo iraquiano.

As força americanas se instalaram nas bases atuais quando vieram atacar o ISIS, em conjunto com o exército iraquiano e o Hisbolá, entre outros grupos. Vencidos os fanáticos, os militares dos EUA continuam no Iraque, alegadamente para impedir a expansão do Irã no país.

Teerã alega que o objetivo de suas intervenções nas vizinhanças Médio é garantir a segurança do país, evitando que acabe atacado por regimes hostis. Sua estratégia concentra-se em defender países aliados (Síria e Líbano), manter influência no Iraque para bloquear avanços dos EUA e impedir que a Arábia Saudita expulse os houthis do país, recolocando no poder de todo território do Iêmen seu vassalo, o presidente Hadi.

No caso dos conflitos Israel/Hisbolá, o Irã procura fortalecer o poder ofensivo do seu aliado, o qual foi vital na retirada das forças israelenses que ocupavam o Líbano na guerra de 2003. Somente no período 2020/fevereiro de 2021, Israel realizou centenas de bombardeios no Líbano e até na Síria,  visando destruir instalações militares do Hisbolá nesses países.

O governo sionista alega que os bombardeios são necessários para impedir que seus adversários acumulem forças para atacarem o território israelense. Até agora isso não aconteceu uma única vez.

Joseph Borrel, chefe das relações exteriores da União Europeia, rejeitou as tentativas de incluir no Acordo Nuclear as novas medidas exigidas do Irã. Para ele,” isso bloquearia o processo” de salvamento do acordo (Middle East Eye, 23/02/2021).

Na busca da conciliação, a União Europeia propôs reunião informal entre as partes.

Os EUA toparam, mas o Irã, não.

Explicando a recusa, o porta-voz da presidência alegou que nada havia a se discutir. Cumpria aos EUA voltar ao Acordo Nuclear e suspender as sanções promulgadas por Trump contra o Irã e seu povo. Depois disso, Teerã faria sua parte, passando a respeitar os níveis de enriquecimento de urânio estabelecidos.

Esta decisão é surpreendente pois o ministro do Exterior iraniano, Javad Zarif havia recentemente sugerido que Borrell poderia coordenar ações das duas partes para reviver o acordo. Ideia praticamente igual à da reunião rejeitada por Teerã.

Atribui-se a atitude do  presidente Rouhani ao desejo de melhorar a imagem do seu governo moderado, tendo em vista a eleição presidencial marcada para junho, na qual as pesquisas apontam os ultras como favoritos destacados.

A aliança entre moderados e liberais perdeu espaço diante da incapacidade do governo Rouhani em evitar os efeitos desastrosos da “máxima pressão” de Trump.

Acho que também preocupa os dirigentes iranianos a série de declarações de autoridades dos EUA, especialmente do secretário de Estado, Anthony Blinken, insistindo em que Teerã cancele seu programa de mísseis balísticos e sua política de intervenção nos países vizinhos, coisas totalmente rejeitadas pelo Irã.

Por sua vez, a exigência de Biden de que o Irã tem de dar o primeiro passo estimula a desconfiança nas reais intenções dos EUA.

Até que o Irã tem suas razões para de ficar de pé atrás. Afinal, foi os EUA  quem , em 2015,mais se empenhou na criação do Acordo Nuclear. Foi o mesmo EUA, que, três anos depois, retirou-se do acordo, esconjurando-o como horrível. E  os EUA ainda lançaram dura sanções para obrigar o Irã a engolir termos desfavoráveis ao país. Em fins de 2020, esse volúvel EUA voltou atrás, reconheceu seu erro e prometeu urgência para cancelar suas cruéis sanções.

Finalmente, neste ano de 2021, nem bem os iranianos começaram a se sentir aliviados, os EUA passam a criar dificuldades, hesitam em cumprir suas promessas.

Dá para acreditar num país assim?

Possível resposta aparece em pesquisa do Centro de Estudos de Questões Internacionais e de Segurança da Universidade de Maryland (Responsible Statecraft, 24/02/2021): 60% dos iranianos ouvidos acham que Washington não cumprirá todos os compromissos de volta ao Acordo Nuclear e cancelamento das sanções.

Se Biden quer mesmo resolver os problemas causados por Trump ao Irã precisa ganhar a boa vontade do povo do país e do presidente Rouhani.

Poderia deixar de impedir que o FMI empreste os 5 bilhões de dólares solicitados pelo governo de Teerã para enfrentar a situação caótica causada pela pandemia na república islâmica.

Aliás, não sei por que ainda não fez isso. Seria imperativo humanitário cancelar mais esta cruel postura do governo Trump. E ajudaria a ganhar pontos com os iranianos.

Claro, pegaria melhor se Biden também desse sinal verde à liberação de fundos iranianos no valor de 5 bilhões de dólares, congelados em bancos de diversos países em obediência às sanções anti-Irã.

Renegando as malazartes de Trump, Biden sinalizaria que os EUA mudaram, que ele pretende reparar os erros cometidos contra o Irã, cumprindo suas promessas de cancelar as sanções e voltar ao acordo nuclear.

Talvez com isso não se recupere a confiança iraniana nos EUA, pois as relações entre os dois países estão estremecidas há mais de 40 anos. Mas, é possível esperar por um considerável aumento na credibilidade das intenções do novo governo de Washington na busca de soluções do problema nuclear iraniano. O que daria a Rouhani condições para aceitar a reunião com os EUA rejeitada na semana passada.

Mas o jogo ainda não acabou.

Para os ultras da república islâmica, qualquer aceitação do Irã a propostas americanas significa uma concessão humilhante. Entronizados no Congresso, onde detém a maioria, e em diversos conselhos que contam com amplas frações do poder  no país, eles estão sempre a postos para complicar tudo.

Biden também tem de se haver com ultras, seus correligionários democratas conservadores, sempre alertas para denunciar supostas fraquezas da Casa Branca e em outros países que ousam desafiar a liderança mundial americana.

Biden precisa dos votos deles para aprovar no Congresso seu mega- projeto de ajuda a seu povo atingido duramente pela pandemia.

Lembro que, como o homem mais po0eoroso da América e do mundo, Joseph Biden tem recursos de sobra para colocar os ultra conservadores na linha.

Obama fez isso com eles, em 2015, quando lhes enfiou goela abaixo esse mesmo Acordo Nuclear com o Irã.

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