Os ovos da serpente.

Já não há dúvidas sobre o ISIL.

A execução dos xiitas aprisionados, mesmo civis, a crucificação de 9 soldados, inclusive seus aliados na oposição a Assad, e os múltiplos atentados suicidas falam por si.

Suas contínuas vitórias no Iraque e também na Síria, dão uma idéia das dimensões da sua força.

O ISIL não está lutando sozinho. Seus 8 mil milicianos seriam poucos para derrotar exércitos, tomar grandes cidades como Mosul e ainda controlar vastos territórios na Síria e no Iraque.

Diz o Washington Post (28 de junho): em Mosul, o ISIL é até minoritário. Mas, é a vanguarda, que lidera a invasão, dá o tom.

Ao seu lado existe grande número de antigos soldados baathistas fiéis a Sadam Hussein, milícias tribais e os movimentos jihadistas Ansar al-Sunna e Ansar al-Islam, entre outros.

Ali Hatem Suleiman, líder da maior tribo sunita, anunciou adesão ao ISIL, explicando que não aprova seus métodos sanguinários, mas o apóia contra o pior inimigo, o governo Maliki (The Telegraph, 28 de junho).

Dezenas, se não centenas de jovens, diariamente alistam-se no movimento jihadista, fechando os olhos às suas barbaridades.

É que o ISIL conseguiu capitalizar os ódios dos sunitas contra o governo xiita do primeiro-ministro Maliki.Tudo aponta para uma guerra sectária, com xiitas e sunitas em campos opostos.

Como se chegou a esse ponto?

Nos tempos de Saddam Hussein o balanço de poder entre as duas seitas era inverso ao atual.

Sunita como 35% da população, o ditador os privilegiava, discriminando os 65% de xiitas.

O Iraque era um país em desenvolvimento, com economia baseada no petróleo. Produzindo dois milhões e 500 mil barris por dia, o setor petrolífero garantia o país.

Seus lucros forneciam subsídios à agricultura e à crescente indústria nacional.

Nesse contexto, existia no Iraque uma numerosa classe média (fato raro na região) – cerca de 3 milhões de pessoas empregadas especialmente nas empresas do Estado.

Mas veio a invasão e a ocupação do país pelas forças dos EUA.

O governo do exército americano desmantelou as indústrias estatais. Com isso, quase todas as empresas privadas faliram,  pois dependiam de negócios com as empresas do Estado.

Os ataques aéreos aos insurgentes nas áreas rurais e o fim dos subsídios da era Saddam, arruinaram agricultores em massa.

O desmonte das empresas do Estado e o expurgo programado dos baathistas do exército e da administração lançaram no desemprego a maioria das pessoas de classe média.

Eram quase todas sunitas, baathistas porque se tratava de um requisito para obter uma boa colocação na ditadura.

Enquanto isso, as autoridades americanas conseguiram cooptar a maioria dos chefes xiitas, mostrando que o poder logo acabaria sendo entregue a eles. Convinha ter paciência e esperar pelas eleições 2004, nas quais sairiam vitoriosos por serem maioria no país.

Como aos sunitas foram os que mais sofreram, eles assumiram o papel principal na insurgência, parcialmente compartilhado por algumas aguerridas milícias xiitas, apoiadas pelo Irã.

Foi quando a al Qaeda, inexistente no regime de Saddam Hussein, surgiu como o mais forte grupo rebelde.

Ela promoveu atentados não só contra as forças de ocupação, mas também contra os xiitas, que considera hereges blasfemos.

Como acontece agora, grupos sunitas não tiveram escrúpulos em se associar aos terroristas, contra o inimigo comum americano.

Posteriormente, os sunitas romperam com a al Qaeda, chocados com seus métodos brutais.

Antes  porém, relacionando os xiitas ao governo central, travaram com eles uma guerra sectária que durou vários anos.

Certos analistas lembram que, antes da invasão americana, xiitas e sunitas viviam juntos, sem maiores problemas.

Portanto, fora Washington quem abriu a Caixa de Pandora de onde irromperam as fúrias da nova guerra sectária, ensejada pela expansão do ISIL.

Nos EUA, há quem culpe Obama por ter retirado as tropas cedo demais. Afirmam que o exército americano deveria ficar mais tempo (talvez eternamente), para manter os iraquianos na linha.

Essa idéia é absurda: foi Bush, e não Obama, quem fez o acordo para a retirada das tropas em 2011. Não por ser pacifista, mas porque nem os iraquianos agüentavam mais a ocupação, nem o povo americano aceitava ficar, arriscando novas baixas.

Quanto à outra idéia, a invasão americana acabou  mesmo atiçando os ódios entre as duas seitas, ao aliar-se a líderes xiitas enquanto provocava o desemprego da classe média sunita.

Mas não a acho a grande culpada pelo conflito que se inicia.

Ao se retirar do Iraque, o exército dos EUA deixaram uma situação ruinosa, especialmente nas regiões de maioria sunita, as mais prejudicadas pelo programa de “desbaathificação”.

O desemprego atingia cerca de 60% dos habitantes; faltava energia elétrica com freqüência; a água achava-se contaminada; a educação, a saúde e os transportes eram precários.

O governo de coalizão do primeiro-ministro Maliki representava uma esperança, prometendo igualdade para xiitas e sunitas.

Uma de suas principais metas ea elevar a produção de petróleo de um milhão e 500 mil barris diários para seis milhões de barris até 2020.

E, de fato, em 2011, atingiu a marca de dois milhões e 500 mil barris diários dos tempos de Saddam Hussein.

Em 2013, o Iraque já produzia 3 milhões de barris por dia.

Com os preços do petróleo subindo, as receitas do governo passaram de 50 bilhões de dólares, em 2010, para mais de 100 bilhões, em 2013.

Parecia haver dinheiro suficiente para se reerguer o  pais. Animadas por esses números, as comunidades sunitas pediram ao governo recursos para projetos locais de reconstrução.

Nunca foram atendidas. Maliki respondia que os lucros do petróleo destinavam-se a despesas básicas e urgentes.

É verdade que ele usou parte desses recursos para aplicar em instalações de serviços públicos, destruídos na guerra. Mas somente beneficiou regiões xiitas.

Enquanto isso, o governo não economizava em armamentos, gastando 10 bilhões de dólares nessa área, em 2011.

Comprou 18 jatos americanos por 4 bilhões de dólares. Sobre isso, a revista Time escreveu: “A boa notícia é que este negócio provavelmente manterá viva a fábrica de jatos F-16 da Lockeed talvez por mais alguns anos. A má notícia é que apenas 70% dos iraquianos têm acesso a água limpa e 25% a saneamento básico.”

Entre os desatendidos, a maioria eram sunitas.

No ano passado, partiram para manifestações de protesto pacíficas, reprimidas com violência por Maliki. Ele os chamava de “inimigos da liberdade” e “terroristas.”

Os representantes sunitas foram sendo gradualmente afastados de postos do governo. E o vice-presidente Tarik Hashimi, sunita, foi acusado de ser mentor do terrorismo, tendo de fugir do país.

Por sua vez, a al Qaeda não cessou de atuar, praticando atentados diários contra o governo central e bairros xiitas.

No massacre de Hadhita, 40 xiitas foram assassinados por terroristas. O governo reagiu furiosamente prendendo e executando um grupo de cidadãos sunitas, sem julgamento e sem revelar quaisquer provas contra eles.

Discriminados e perseguidos, os sunitas passaram a odiar seu algoz, o primeiro-ministro Maliki, e os xiitas que o apóiam.

O ISIL está sendo visto como um herói nas regiões sunitas que ele conquistou. Inclusive porque está procurando administrar com eficiência, fazendo obras que o governo iraquiano recusou.

Embora seja grande e crescente o número de sunitas aliados ao ISIL, a maioria da seita acredita numa saída pacífica, através de um governo onde todas as comunidades estejam representadas.

Sem Maliki, de preferência.

Esta costura está difícil. O primeiro-ministro nega-se a resignar. Ao chamar o povo xiita às armas, ele estimula um quadro de luta sectária. Põe mais lenha na fogueira que ele acendeu.

É verdade que os EUA não estão livres de parte da culpa.

Afinal, foram eles que colocaram Maliki no poder. Em 2006, com a renúncia do primeiro-ministro Ibrahim Jafari, Zalmay Khalizad,o embaixador americano em Bagdá, pressionou para que Maliki fosse indicado para o cargo.

Na ocasião, afirmou: ”Tenho total confiança nele.”

 

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