Os EUA num dilema hamletiano.

Eles tem bons motivos tanto para apoiar quanto para não apoiar o golpe militar do Mali.

Difícil decidir.

O Mali é o quarto país da África em extensão territorial, contando com cerca de 15 milhões de habitantes. Que, aliás, vivem muito mal pois o Mali é um dos países mais pobres do mundo, com uma renda média anual de 1.500 dólares por pessoa.

Era grande produtor de algodão, mas a crise deste produto, em 2003, baixou radicalmente seus preços e devastou a economia nacional.

A descoberta do ouro em 1999 – é hoje o 3º produtor africano- ajudou a suavizar as perdas sofridas.

Antiga colônia francesa, o Mali foi inicialmente governado por um regime dito socialista. Seguiram-se diversos golpes militares, como é de regra em toda a África.

Até que, em 1988, o governo solicitou o apoio do Banco Mundial à sua combalida economia. Firmou, então, com o banco um acordo que previa reformas e a abertura da economia aos investimentos estrangeiros.

Cumprindo esse acordo, entre 1988 e 1996, o militar de plantão privatizou totalmente 20 empresas, parcialmente mais 12 e liquidou outras 12.

Nem por isso, as coisas melhoraram.

Em decorrência da pobreza, má nutrição e más condições sanitárias, o Mali apresenta um dos piores índices do mundo em saúde e mortalidade infantil.

Em 1992, depois de mais um golpe militar, realizaram-se as primeiras eleições democráticas do país, sendo eleito o general Oumar Konaré.

O atual presidente, Amadou Touré, assumiu o governo em 2002.

Foi reeleito e agora, no fim do seu mandato, anunciou eleições do seu sucessor para abril deste ano.

Durante seu governo recebeu ajuda econômica e militar dos EUA, sendo considerado um firme aliado na luta contra a Al Qaeda, que já começava a atuar no país.

Bem antes de terminar seu período, Touré teve de enfrentar a rebelião dos tuaregs, no norte do país.

Grande número desses combatentes do deserto voltaram poderosamente armados da Guerra da Líbia, onde lutaram por Gadafi.

Desde os primeiros anos da república, os tuaregs tentaram várias vezes tomar o norte, região onde são maioria. Foram sempre vencidos. Agora, porém, graças aos modernos armamentos que eles trouxeram da guerra da Líbia a situação é diferente.

Os tuaregs derrotaram várias vezes as tropas leais ao governo e conquistaram quase toda a região norte do país, incluindo o deserto do Saara.

A ineficiência revelada por Touré no comando das operações contra os tuaregs, foi o motivo da revolta.

Notícias de vergonhosas derrotas; de batalhões enviados para a luta sem as armas adequadas; de soldados morrendo de fome no Saara por erros estratégicos, jogaram contra o governo a opinião pública, especialmente os jovens oficiais.

A queda de uma base fundamental para o controle da maior parte do norte foi a gota d´água.

Liderado pelo capitão Amadou Sanongo, um golpe militar rapidamente tomou a capital e recebeu a adesão de outras tropas no interior.

O presidente fugiu para local desconhecido, de onde tentaria reunir forças de combatentes solidários a ele.

Uma coalizão dos partidos políticos posicionou-se contra o golpe, num manifesto que dizia: “Os signatários…condenam a tomada do poder pela força, que é o maior retrocesso para nossa democracia.”

A União dos Países Africanos e a Europa Unida também condenaram, os EUA pediram o retorno à legalidade.

No entanto, o golpe parece vencedor.

O que deixa os EUA diante de uma opção que lembra o famoso solilóquio de Hamlet.

Apoiar o presidente deposto, cortando sua ajuda ao país, enquanto os golpistas não renunciarem e Touré voltar a seu posto, seria uma opção coerente.

Afinal, Touré tem sido um bom aliado, apoiando todos os programas americanos de contra-terrorismo implantados no país.

Além disso, a democracia do Mali, com seus 20 anos de idade, é um bom exemplo para a África, onde a maioria dos países vive sob ditaduras ou regimes autoritários.

Por fim, abandonando o governo legal, Obama daria munição para os republicanos atacarem-no como traidor da democracia.

Por outro lado, o Capitão Sanongo tem tudo para ser um amigo muito útil.

Ele participou de diversos programas militares de Treinamento e Educação nos EUA, inclusive o programa básico para oficiais.

Com o exército o apoiando com entusiasmo, Sanongo parece ter mais condições para enfrentar e vencer os tuaregs do que o presidente deposto.

Não se sabe de alguma conexão entre os tuaregs e a Al Qaeda.

Mas, ambos operam no Saara, cujo governo anterior, nomeado por Touré, nunca foi capaz de controlar.

Caso os tuaregs vençam e se consolidem no Norte, estabelecendo um estado independente, como é seu objetivo, a região poderia se tornar um santuário para a  Al Qaeda.

Retomando o norte, e com ele o Saara, os militares golpistas, se quiserem, complicarão a vida da Al Qaeda.

Por esse aspecto, se a gente considerar a provável superioridade militar de Sanongo sobre Touré, é com ele que os americanos deveriam ir.

Ainda mais porque, se os EUA se recusarem a aceitar Sanongo, ele, em retaliação,  poderia acabar com os programas de contra terrorismo já implantados no país.

Mas pegaria muito mal na opinião pública mundial, especialmente na África e nos EUA.

Obama não poderia mais se apresentar como campeão da democracia.

E nos EUA, seria um prato cheio para os republicanos o pintarem como hipócrita e fraco na defesa dos fiéis aliados da América.

Com isso, só resta perguntar: e agora Obama?

Tem de escolher entre ser digno ou ser prático.

Façam suas apostas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *