Obama moderou a fúria do Congresso

Estourar a economia iraniana, boicotando suas exportações de petróleo era o objetivo de mais uma lei feroz do Congresso americano. Simplesmente, proibia de comerciar com os EUA qualquer país que comprasse petróleo do Irã. Como o mercado americano é, de longe, o maior do mundo, dá para sacar que o Irã correria altos riscos de acabar se afogando no seu petróleo que, aliás, representa 80% da economia do país.

Não contente com essa medida, um claro ato de guerra no dizer do senador Ron Paul, a lei do Congresso ainda proibia qualquer americano, inclusive o presidente, de manter contatos com autoridades iranianas sem antes pedir o consentimento dos parlamentares, ao menos 15 dias antes da reunião planejada.

Em outras palavras, a diplomacia saía das mãos do Executivo, em flagrante contraste com o que a constituição americana dispõe. E assim se impediria qualquer solução diplomática do caso do Irã, pois os belicosos senadores e representantes dificilmente dariam licença ao presidente.

O Obama lançado na campanha eleitoral de 2008 não hesitaria em vetar, inclusive porque ele defendia o uso da diplomacia e da boa vontade para resolver o contencioso com o Irã.

No entanto, como se sabe, o Obama modelo-2011 é uma versão bastante modificada desde o lançamento.

Ele assinou essa lei destruidora. Felizmente, com alguns reparos. O presidente poderá eximir das penas da lei um país que tenha reduzido significativamente seus negócios com o Irã, caso isso seja do interesse dos EUA ou necessário para a estabilidade do mercado de energia. Ele teria, porém, de notificar o Congresso, sendo que as exceções seriam temporárias, porém, poderiam ter seu prazo de vigência ampliado.

Segundo uma autoridade americana de alto nível: “Nosso objetivo é implementar essa lei em períodos de tempo e de modo parcial de maneira a evitar repercussões no mercado de petróleo e garantir que ela prejudique o Irã, mas não o resto do mundo.”

Fácil de falar, difícil de fazer.

Alguns países dependem do petróleo iraniano. A China importa do Irã 6% das suas necessidades de petróleo; a Índia, 9%; o Japão, 10%; a Grécia, 30%, entre outros exemplos. Seriam obrigados a substituir o Irã por outro fornecedor, que, por sua vez, teria de aumentar sua produção. Esse processo não é simples e está deixando alguns dos clientes do Irã bastante insatisfeitos.

Como o Japão, fraternal aliado dos EUA. Seu Ministro das Relações Exteriores, Koishiro Gemba,  declarou: ”De acordo com a minha visão, há um perigo de se causar danos a toda economia global se a interrupção do petróleo bruto do Irã for efetuada.”

Greg Sharenow – especialista em mercado de petróleo da PIMCO – concorda com o ministro japonês. Para ele, se as novas sanções americanas forem obedecidas e cortarem as exportações do Irã por 1 mês, a Arábia Saudita passará a aumentar sua oferta de petróleo no mercado. Poderá atender aos países importadores, mas o volume do aumento será incerto e a perda de capacidade ociosa afetará o preço. Nesse caso, é de se esperar que o preço do barril vá para 145 dólares, inicialmente, depois caia e se estabilize entre 130 a 135 dólares.

Se o Irã deixar de exportar por 6 meses, Sharenow acha que o preço do petróleo provavelmente subirá e se fixará num patamar de cerca de 150 dólares.

O cenário mais sombrio, no qual o Irã bloqueia o estreito de Hormuz, ainda que sem continuidade, Sharenow considera o fim do mundo, com o preço do barril do petróleo chegando a níveis tão devastadores, que levará a uma crise, atingindo a todos os países.

É exatamente para evitar esses cenários nada agradáveis, que os EUA e 11 países mais agressivos em relação ao Irã estão discutindo planos que incluem o possível aumento da produção de petróleo não só da Arábia Saudita, como também do Kuwait, Emirados, Líbia, Iraque, Gana e Angola. Alguns deles, como o Iraque e Angola, dificilmente aceitarão devido a suas boas relações com o Irã.  Outro problema será levantar os investimentos necessários ao grande aumento de produção capaz de substituir as exportações do Irã (segundo do mundo) que alguns desses países irão precisar.

Claro, isso só vai funcionar se o Irã assistir de braços cruzados suas receitas de petróleo irem minguando enquanto seus clientes vão mudando para outros fornecedores. Antes do processo de substituição das exportações de petróleo do Irã avançar muito, o país pode bruscamente reduzir sua oferta do produto no mercado, o que fará seu preço subir a níveis imponderáveis.

Também não acredito que a China vai passivamente aceitar a interrupção dos seus negócios petrolíferos com os iranianos.  Terão os americanos coragem de fechar seu mercado consumidor para as compras chinesas? Acredito que Obama irá preferir abrir uma exceção para o governo de Beijing.

De qualquer modo, somos obrigados a confiar em que Obama agirá com bom senso, abrindo todas as exceções necessárias ao alcance da lei para não por mais fogo na crise mundial que ainda mostra suas garras.

Como ele fez, ao contestar a parte paranóica da lei que obriga o presidente a pedir licença ao Congresso cada vez que deseja manter contatos diplomáticos, ele próprio ou através de auxiliares, com potências estrangeiras.

“O fato de eu apoiar esta lei como um todo”, declarou o presidente, “não significa que eu concordo com tudo que está nela…Se alguma aplicação dessas disposições (da lei) conflitarem com minha autoridade constitucional, eu tratarei essa disposição como não proibitiva.”

Desse modo, ele reafirma seus poderes constitucionais de efetuar os contatos e negociações diplomáticas que         lhe aprouver.

Saber que está nas mãos do Presidente evitar que os efeitos desta lei anti Irã cause estragos na economia mundial, dá uma certa tranqüilidade. Afinal, ele tem bom senso. Mas é necessário considerar alguns desdobramentos possíveis.

O processo de substituição das importações de petróleo do Irã pelas de outras potências, pode ser ainda mais complicado e difícil do que o esperado. Nesse caso, não está fora de cogitações que a lei falhe em seu intuito de danificar profundamente a economia iraniana.

Com novo fracasso nas sanções, poucas alternativas restarão sobre a mesa.

Se isso acontecer, Israel estará disposto a esperar que se descubram outras idéias capazes de constranger seu adversário? Ou Netanyahu acabará cumprindo suas ameaças de bombardear as instalações nucleares do Irã? Ou ,quem sabe, o Ocidente chegará a um acordo com o Irã?

As coisas estão acontecendo muito rapidamente e as respostas a estas perguntas devem surgir logo, talvez numa  questão de poucos meses.

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