O insaciável complexo industrial-militar

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Há cerca de um mês, Antonio Guterres, secretário-geral da ONU, apelou por um cessar-fogo mundial, para que todas as nações se concentrassem na luta contra o coronavirus.

Dezenas de países – inclusive França, Reino Unido, Alemanha e o papa Francisco – apressaram-se a aceitar uma proposta tão necessária e urgente, que não poderia receber qualquer contestação.

Mas como a insanidade ainda está viva, Rússia e EUA foram contra.

Putin e Trump não admitem renunciar a seus direitos de atacarem quem e quando quiserem ainda mais durante vários (ou muitos) meses.

Para Putin, interromper sua ação militar, decisiva na guerra da Síria,  justo quando se aproxima a hora de brindar (com vodka, é claro) a queda de Idlib, o último bastião de uma revolta que os EUA apoiou…Abandonar o o general Haftar, quando ele trava um duelo final contra o governo legal da Líbia…

Vocês devem estar de brincadeira.

Quanto a Trump, um cessar fogo demorado o deixaria de mãos amarradas – impedido de usar o principal argumento de sua política externa: o fogo e fúria das forças armadas.

Ameaçando usá-las, e até as usando, ele pretende forçar as milícias iraquianas pró-Irã a se comportar ou virar pó. Obrigar o liquidado ISIS a continuar liquidado. Continuar perturbando Assad, explorando o campo de petróleo que roubou da Síria. Dar respaldo a Israel nos rotineiros bombardeios na Síria, Líbano e Iraque, que alvejam o Hisbolá, enfraquecendo o Irã, o inimigo-mor de Tio Sam.

A desculpa das duas potências para se negarem a contribuir á defesa da humanidade, contra um vírus que ameaça a vida humana, é tortuosa: “Ambos governos temem que o cessar fogo universal possa potencialmente restringir seus próprios esforços para o que consideram operações de contraterrorismo legítimas no exterior (The Guardian, 19-04-2020). “

Há um outro motivo que influi na posição assumida por The Donald: os interesses do complexo industrial-militar.

Quem primeiro advertiu o povo americano sobre essa gente foi o general Dwight Eisenhower no seu discurso de despedida da presidência dos EUA.

“Nas esferas do governo, devemos nos proteger contra a influência injustificada exercida pelo complexo militar-industrial.’’

 As palavras de Eisenhower continuam atuais.

Desde o fim da Segunda Grande Guerra, o complexo industrial-militar e os políticos a eles ligados vem usando o medo para justifica a manutenção de grandes exércitos americanos e sua constante modernização.

Temendo a ação de fantasmas assustadores como a União Soviética, a China, o comunismo internacional e mais recentemente o terrorismo, o ISIS, mesmo Coreia do Norte e Irã (como ameaças nucleares), o país vive em estado de guerra permanente.

Começou com a Guerra Fria, depois as guerras da Coréia e do Vietnam, o atentado de 11 de setembro e a guerra ao terrorismo, as guerras do Iraque, do Afeganistão, o conflito com o Irã, sempre a  ponto de desencadear uma nova guerra,  e a conflagração, vista como virtual, contra a China, pela hegemonia mundial.

Com o objetivo de armar os EUA para lutarem nessas guerras consecutivas ou para se manterem sempre em prontidão (conforme o provérbio romano “Si vis pacem para bellum” – se queres a paz, prepara a guerra) são necessárias pesadas e constantes despesas, viabilizadas pelo orçamento nacional

Juntando a fome de lucros crescentes das empesas aos sonhos do Pentágono de hegemonia na política externa dos EUA, o complexo industrial-militar vem acumulando êxitos.

Montou há muitos anos o mais poderoso lobby dos EUA, que atua no Congresso, pressionando e oferecendo empregos para indicações dos congressistas em cada um dos seus distritos eleitorais.

E os números provam que o lobby das armas funciona.

 Nos tempos de crise, o governo ,embora corte despesas em muitos setores, não costuma poupar no setor de Defesa.

Analisando os últimos anos, verifica-se que no orçamento de 2020 previa-se  , 738 bilhões de dólares em despesas militares, 22 bilhões a mais do que em 2019.

Já no orçamento de 2021 serão aplicados 7,480 bilhões de dólares em despesas militares, um novo aumento, portanto, enquanto programas de ajuda a habitação e alimentação, programas de saúde Medicare, atendimento sanitário e benefícios por invalidez sofrerão uma redução de 5% em relação ao ano anterior. (EL PAIS,11-02-2020).

 Mesmo protegido nesse orçamento, o Pentágono é insaciável- quer mais alguns bilhões de dólares, incluído as indústrias de armas no próximo pacote do congresso de ajuda a empresas com problemas causados pela crise do coronavirus (Reuters, 19-04-2020). 

Pelo menos as principais empresas de armas setor estão longe de sofrer desagradáveis efeitos colaterais da pandemia.                                                                                               A inclusão das indústrias armamentistas em programas de apoio a empresas atingidas pela pandemia tem sido aprovada pelo congresso.

O lobby das armas conta com amplos recursos para influenciar o Congresso a apoiar seus pleitos.

 Centenas de ex- altos funcionários públicos (em 2018 eram 645) trabalham nas indústria de defesa como lobistas, executivos, consultores ou membros da diretoria.

 Eles dispõem de relações com gente do Congresso  que lhes dá condições privilegiadas no debate sobre prioridades do orçamento.  Os últimos três secretários de Defesa foram: um antigo membros da diretoria da General Dynamics, um antigo executivo das Boeing eum klobista chefe da Raytheon (The Nation, 17-04-2020).

E os produtores de armas ainda tem The Donald como seu garoto propaganda, anunciando, com grandes exageros, uma pancada de empregos  criados pelas vendas de armamentos para a Arábia Saudita.

Graças em grande parte á atuação do seu timaço de influenciadores, os produtores de armas jã festejaram algumas vitórias durante os tempos da pandemia.

 A Boeing recebeu bilhões dos pacote de estímulo. E os lobistas pressionaram e conseguiram que os fabricantes de armas  fossem considerados negócios ‘’essenciais” na crise do vírus.

Enquanto os EUA não pararem de intervir militarmente em outros países, mesmo sem autorização dos governos, o complexo industrial-militar tende a se fortalecer e até, num futuro ,cada vez menos remoto, pode acontecer o que Eisenhower temia: ’’

“A possibilidade do surto desastroso de um poder mal orientado existe e permanece. Não devemos nunca permitir que o peso desta coalizão (o complexo industrial-militar) ameace as nossas liberdades ou os processos democráticos.”

Acho que essa “possibilidade” já é uma realidade.

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