O Hamas Está Mudado. E Israel?

A Primavera Árabe chegou à faixa de Gaza, governada pelo Hamas.

Ela mostrou que um povo desarmado consegue derrubar velhas oligarquias, escoradas por exércitos poderosos, como fez na Tunísia e no Egito.
E, para a surpresa de muitos, nas primeiras eleições democráticas desses países, os partidos islâmicos venceram. “Esta é uma região islâmica”, disse Mahmoud Zahar, importante líder do Hamas em Gaza,”e uma vez que se dê ao povo uma chance honesta de votar e eleger seus verdadeiros representantes, eles votarão nos islâmicos.”
Impressionou ainda o desempenho da Irmandade Muçulmana, o partido mais votado nos dois países, com uma postura moderada e democrática. Para Taher AL-Nounu, porta voz do Hamas, ”Os países europeus em particular vêem a Irmandade Muçulmana como um tipo especial de movimento islâmico que não é radical.”
Influenciado por esses acontecimentos, o Hamas fez da Primavera Árabe e da Irmandade Muçulmana exemplos a serem seguidos.
Em uma série de reunião realizadas no Egito, decidiu unir-se ao Fatah, com quem estava rompido há anos, integrando-se na Organização Pela Unidade da Palestina.
Concordou também em buscar um acordo com Israel para se chegar à independência da Palestina, com base nos limites de 1967.
O Hamas continua não reconhecendo formalmente o estado de Israel. Mas, na medida em que aceita uma Palestina com base nos limites de 1967 que a separam de Israel, está implicitamente aceitando o estado israelense. Ele não abandonou sua tradicional reivindicação de recuperar toda a Palestina para os árabes que foram expulsos de suas casas pelo exército israelense. Mas, por ora, ela fica no limbo.
O Hamas foi mais adiante. Inspirando-se na linha moderada da Primavera Árabe, concordou também em usar meios não-violentos para exercer resistência aos ocupantes israelenses.
Dessa maneira foram removidos dois dos motivos que impediam os israelenses de aceitar o Hamas como interlocutor: o não- reconhecimento de Israel e as ações violentas.
A influência da Irmandade Muçulmana, que incluiu em seu governo políticos seculares e liberais, também foi sentida quando o Hamas afirmou sua disposição de adotar o pluralismo, procurando promover uma coalizão de todos os movimentos palestinos.
MKHIMAR Abusada, cientista político na Universidade Al-Azhar, em Gaza, acha que fatalmente haverá novos avanços do Hamas no seu relacionamento com a comunidade internacional. “ Se a Irmandade Muçulmana está afirmando agora que respeitará os acordos do Egito com outros países (inclusive Israel) e não vai querer impor a lei islâmica, isso irá inspirar o Hamas a imitar essa prática em Gaza.”
A união Hamas/Fatah e as novas posturas dos governantes de Gaza não parecem ter impressionado bem os israelenses.
No passado, apontavam a desunião entre os dois movimentos árabes como fator impeditivo de se poder negociar um acordo de paz.
Agora, superada esta dificuldade, eles surpreendem, afirmando que com a União a paz será mais impossível do que nunca devido à presença do Hamas, tido por eles como um movimento terrorista.
Apontam também que o não reconhecimento do estado de Israel pelo Hamas impede qualquer acordo.
Excluir o Hamas por ser um ex-movimento terrorista é um argumento hipócrita.
Israel também foi terrorista, durante os tempos do protetorado inglês.
“Nem a moralidade judaica, nem a tradição judaica podem negar o uso do terror como meio de batalha”, justificava o movimento judaico Lehi, que, em 1947, durante as lutas pela formação do Estado de Israel, praticava atentados terroristas contra os árabes e os ingleses.

O Lehi (também chamado gang Stern) tem na sua folha corrida ações assim:
– assassinato do Conde Folke Bernadotte, mediador da ONU entre árabes e judeus, e de Lord Moyne, embaixador especial inglês no Oriente Médio;
– destruição da aldeia árabe de Der Yassin (então excluída de ações bélicas por um pacto árabe-judaico), com o massacre de cerca de 120 pessoas, inclusive mulheres e crianças;
– envio de cartas-bombas a políticos ingleses.

Outro movimento terrorista judaico, o Irgun Zvai Leumi, foi responsável por 200 atentados contra árabes e ingleses, entre os quais o enforcamento de dois sargentos britânicos. E a explosão do hotel Rei Davi, onde estava instalada a administração inglesa, matando 200 pessoas, entre elas muitas mulheres e crianças.

Em 1948, com o estabelecimento do Estado judeu, os militantes do Lehn e do Irgun integraram-se no exército do país. É importante lembrar que seus chefes eram personalidades do establishment político, como Menachen Begin e Yiztwakh Rabin que chegaram a primeiros-ministros.
Quanto ao reconhecimento do estado de Israel é justo que aconteça ao se reconhecer também o estado da Palestina, logo que se resolver a questão da volta/indenização dos árabes expulsos do território da Palestina.
Além de negarem condições para se restabelecer o diálogo de, ou melhor, estabelecer o diálogo que nunca começou, Israel ainda cria condições para inviabilizá-lo.
Recentemente, Netanyahu anunciou a aprovação de mais 1.028 novos assentamentos na Margem oeste. Alegou que não avançavam sobre novos territórios palestinos, apenas construíam em áreas já ocupadas. Argumento capcioso, pois terrenos construídos serão muito mais difíceis de serem devolvidos aos árabes, no decorrer das negociações de paz, do que estando vazios.
Assim entendeu o Conselho de Segurança da ONU que por uma votação histórica– 14 x 1- condenou os assentamentos como “ameaças ao processo de paz”. As 4 nações européias, membros do conselho (Portugal, Inglaterra, França e Alemanha), qualificaram os assentamentos como uma “mensagem devastadora”, conclamando Israel a reverter os planos.
Mas o Conselho de Segurança nada pode fazer porque o único voto negativo veio dos EUA, que tem poder de veto.
Nova vergonha para Obama, que passara todo o ano de 2009 condenando os assentamentos e exigindo que Netanyahu os interrompesse. E, agora, apavorado com a perspectiva (remota) dos judeus americanos votarem e financiarem seu adversário republicano, submeteu totalmente sua política externa a Israel.
Lembrando que os EUA, a Europa e Israel combateram o pedido de reconhecimento da Palestina pela ONU, alegando que o caminho seria negociações de paz, esses 3 não tem como fugir a elas, agora que o Hamas mudou seu comportamento.
EUA e Europa ficam obrigados a pressionar os dirigentes de Israel.
A Europa até que poderá fazer alguma coisa, mas Netanyahu e colegas não vão topar. Obama, dificilmente, terá coragem de agir de acordo com suas promessas.
A esperança é que as opiniões dos judeus, tanto de Israel, quanto dos EUA, favoráveis às negociações de paz, acabem pesando.

Luiz Eça

www.olharomundo.com.br

24/12/2011

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