Mudar ou perder

Meu artigo OBAMA MUDOU?  recebeu  vários comentários de leitores. Alguns apoiavam, vêem muitas chances de Obama voltar a ser progressista. Para outros, nada indica que isso seria possível.

Acho que devo explicar melhor minha posição.
É mesmo difícil acreditar que Obama está mudando diante da sua rejeição ao reconhecimento dos palestinos pela ONU. A solução que ele apresenta é profundamente hipócrita. De fato, defender a tese das negociações equivale a ser contra a criação de um estado palestino independente. Negociações vem acontecendo há 20 anos e só resultaram na ampliação do espaço ocupado por Israel na Cisjordânia. Sem contar que são os próprios israelenses que impedem sua retomada, ao se negarem a parar de aumentar os assentamentos, ação que vem diminuindo continuamente o território árabe.
Lembro que no meu artigo afirmava que a “última mudança” de Obama só poderia ser a da política americana na Palestina. Seria tarefa de gigantes vencer o poder dos lobbies pró Israel. Só o principal deles, a AIPAC, tem um orçamento de 65 milhões de dólares, com os quais financia as campanhas de parlamentares dos 2 partidos. Conta ainda com 100 mil membros- empresários, profissionais liberais, donos de jornais, jornalistas, líderes religiosos, formadores de opinião, enfim – que influenciam fortemente emissoras de TV, rádios, jornais, políticos e autoridades de diversos escalões. Essa formidável máquina vem produzindo um efeito absolutamente dominante na opinião pública e, especialmente, nas duas casas do Legislativo, majoritariamente  pró Israel.
Portanto, está fora de questão a idéia dos EUA de Obama, num giro de 180 graus, adotar em curto prazo uma posição imparcial e justa na busca de uma solução para o problema da Palestina.
Mas continuo pensando que outras mudanças podem ir acontecendo já neste ano.
Levo em contra dois motivos.
Primeiro: a tese do Obama “presidente de todos os americanos”, conciliador com uma oposição compreensiva e solidária nos casos de interesse nacional, foi pro espaço. Os republicanos estão mais virulentos do que nunca. Demonstraram isso quando ficou claro que deixariam os EUA irem à breca, mas não aprovariam as propostas sociais e “pró luta de classes” do Presidente.
Perseverar nesse caminho seria insensato. A atitude passiva diante da violência do antagonista, o “amor de apache” , não costuma dar bons resultados em política.
Segundo: os republicanos chegaram a níveis máximos de extremismo.
Rick Perry, seu principal pré-candidato a presidência, além de pintar Obama como “o mal pior”, defende idéias muito mais radicais do que seria de se esperar de um candidato republicano com chances de se eleger presidente do país líder do mundo.
Em recente conferência de imprensa, acusou a política de Obama na Palestina de condescendente, ingênua e perigosa para Israel. Perry é a favor da continuação do aumento dos assentamentos.  ”É tempo de mudar nossa política de conciliação com os palestinos”, afirmou.
Perry é contrário ao corte das isenções de impostos e taxas dos mais ricos e acha que os pobres devem pagar imposto de renda. Declarou-se muito feliz por Guantanamo continuar aberta. Para ele a Segurança Social não passa de um esquema Ponzi  (das famigeradas “Pirâmides”), que não garantiria a aposentadoria dos jovens de hoje. Foi contra o Sistema de Saúde Pública, o certo seria cada estado tratar do assunto a seu modo. Quanto ao problema do aquecimento térmico da Terra, não passaria de uma fantasia.
Os outros pré-candidatos vão na mesma toada. E os eleitores do Partido Republicano parecem aplaudir de pé. De acordo com as pesquisas, não só concordam,  como estão embalados, firmes ao lado daquele que o Partido Republicano escolher para a disputa.
Segundo pesquisas realizadas no auge da luta entre Governo e Oposição pela aprovação do aumento do endividamento público, os dois partidos apareciam mal junto à opinião pública. Os republicanos, com a imagem suja pela chantagem que armaram, fazendo o país de refém, obtiveram magros 34% de aprovação contra 59% de rejeição. Os democratas foram melhor:: 43% pró x 50% contra.
Agora, veja o que aconteceu quando a pergunta foi “em quem votaria para presidente ?”.  Os republicanos, considerados piores do que os democratas por 43% x 34%, sairiam ganhando. Um candidato republicano, seja quem fosse, obteria 49% dos votos contra apena 41% de Obama.
Portanto: mesmo preferindo os democratas aos republicanos, o público daria a vitória a um candidato republicano contra Obama.
Isso pode significar que, enquanto os republicanos tem intenção de votar em seu candidato, boa parte dos democratas pretende ficar em casa no dia da eleição.
Se a disposição de votar fosse igual, a lógica seria mais gente declarando-se a favor de Obama, cujo partido vence os republicanos por 43% x 34%. Isso não acontece, o entusiasmo por ‘aquele Obama” desvaneceu-se. A principal motivação a favor do voto “neste Obama” é preferir o mal menor. Se chover, não será suficiente para levar às urnas muitos democratas desestimulados.
E as coisas tendem a piorar para o Presidente.
No ano que vem, o melhor que pode acontecer nos EUA é não acontecer nada. O desemprego ter um crescimento mínimo, assim como a produção industrial, as vendas ao consumidor, as exportações. E o déficit diminuir imperceptivelmente.
Não é uma perspectiva animadora para um presidente candidato.
 A tendência da campanha eleitoral, que teoricamente ainda não começou, é se radicalizar. A Oposição não dará tréguas a Obama. E, influenciado pelos problemas causados pela crise, o eleitorado republicano vai marchar unido. Os independentes vacilam.
O que poderá fazer Obama?
Continuar buscando o consenso? Continuar fazendo zumbaias ao establishment? Repetir a tática de mesclar palavras corajosas com ações conformistas?
A verdade é que não deu certo essa estratégia de tentar conseguir o máximo de apoios e o mínimo de críticas, ao preço de pesadas concessões.
Era ilusão esperar que a direita cristã, o complexo industrial-militar, as multinacionais petrolíferas e de armamentos, os movimentos judaicos sectários, os “rednecks” do Sul e as donas de casa das aldeias do Middle West, fascinadas pelas idéias (ou falta de idéias) do Tea Party, pudessem empunhar as mesmas bandeiras dos intelectuais e jornalistas progressistas, dos estudantes, dos movimentos negros e das ONGS defensoras da paz e dos direitos humanos.
Agora, a América, como sempre, continua dividida.
Na minha opinião, Obama não tem opção. Toda a direita parece muito bem identificada com as candidaturas republicanas à Presidência . Só resta um caminho, voltar às origens. Convocar os 13 milhões que lutaram e financiaram sua primeira campanha presidencial.
 A maioria deles perdeu a esperança, sequer votou. E o resultado foi a derrota eleitoral democrata nas eleições parlamentares do ano passado. As pesquisas mostram um panorama cada vez mais sombrio para esse Obama decepcionante, que ficou muito aquém das mudanças prometidas.Tem de surgir outro Obama. O Obama da campanha eleitoral. Talvez só ele tenha condições de vencer um Partido Republicano que promete ir além de George Bush.
Acho que taxar fortunas, recusar-se a reduzir os gastos com Saúde Pública e Educação, preferir os cortes nos orçamentos militares, é um bom começo. Convém não esquecer que tais decisões contrariam frontalmente a maioria republicana na Câmara dos Representantes. Resta saber se Obama vai levar esta luta até o fim. E continuar caminhando em direção a suas origens.
É simples assim.

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