Mãos sujas de sangue em busca do protagonismo.

Mãos sujas em busca do protagonismo

     A União dos Emirados Árabes (UEA) é uma federação de sete pequenos Estados, cada um governada por um monarca (emir), que detém poder absolutos nas questões internas.

     A cada cinco anos, os sete emires se reúnem num Conselho para escolher um chefe, a quem cabe comandar as relações internacionais da federação, função hoje exercida de fato pelo príncipe coroado de Abu Dhabi, Mohamed bin Zayed (MBZ, para amigos e inimigos), em nome do titular, Khalifa bin Zayed, incapacitado por um  derrame.

      País moderno e desenvolvido, os Emirados Árabes Unidos vem buscando alçar-se à condição de protagonista no cenário  internacional, impulsionado pela ambição do seu líder, o MBZ.

      No entanto, na sua busca, o príncipe tem passado por cima dos direitos humanos dos cidadãos e de leis internacionais.

      Pensando em criar uma imagem do seu país de fazer cair o queijo dos estrangeiros e de melhorar a imagem atual, algo sinistra, o governo de MBZ resolveu apresentar uma exposição internacional, revelando ao mundo as maravilhas e os avanços da UEA.

     E, em 1 de outubro do corrente, foi inaugurada a EXPO 2020 DUBAI, onde os Emirados já aplicaram 5 bilhões de dólares. Mas não se preocupe, estes gastos não vão tirar o leite de camelo da boca das crianças de lá, pois o EAU está entre os países mais ricos do mundo, com um PIB rondando os 40 bilhões de dólares.

    A EXPO 2020 DUBAI vai durar seis meses, devendo ser visitada por cerca de 25 milhões de pessoas. “Conectando as mentes, criando o futuro”, como diz o pretensioso texto de propaganda do evento.

    Por sua vez, o líder MBZ explica : a Expo realça “a identidade deste país como um ponto de encontro para as culturas e a tolerância.”

      Talvez ele tenha se excedido no árak antes de proclamar estas, digamos, inverdades.

     Michael Page, diretor da Human Rights Watch (HRW) para o Oriente Médio, contestou as loas de Sua Alteza: 

      “A UEA promove um assalto constante na liberdade de expressão e associação, prendendo e processando centenas de advogados independentes, juízes, professores , estudantes e ativistas, e fechando associações importantes da sociedade civil e escritórios de organizações estrangeiras, destruindo qualquer espaço para a dissidência.”

          Parece que o príncipe acha que ninguém dá bola à HRW e congêneres. Ele acaba de indicar para presidente da Interpol, em 2022, um ardente praticante de torturas, conforme carta aberta de uma coalisão de 19 entidades de direitos humanos, inclusive a  Human Rights Watch.

          Trata-se do general Ahmed al Raisi, inspetor geral do ministério do Interior e réu de três procedimentos criminais, instauradas neste ano.

           Num deles os queixosos são o estudante  Matthew Hedges e  Ali Issa Ahmad, um cidadão comum.

              Mathew, que tem PhD, foi preso em 2018, numa viagem de pesquisas.

                Depois de sofrer tortura e confinamento em solitária, foi condenado a prisão perpétua, sob acusação de espionagem para o governo inglês. Pressões internacionais conseguiram sua libertação neste ano.

                Usar uma camiseta com a bandeira do Qatar, em jogo da Copa da Ásia de futebol, em 2019, foi o “crime” de Ahmad. Na ocasião havia problemas políticos entre o Qatar e os Emirados, mas nada perto de uma guerra. Devidamente preso, Issa Ahmad foi torturado e até esfaqueado na prisão, segundo seus advogados. Sob bem-vinda pressão internacional, o governo de MBZ acabou por liberar o torcedor da equipe qatariana.

                 Uma terceira queixa  à jurisdição universal está sendo promovida contra al Raisi pelo advogado do ativista Ahmed Mansoor, acusado de “ críticas ao governo, aliás serenas, e discretos apelos  pela reforma dos direitos humanos”.

                 Nestes três casos, como em vários outros semelhantes, foi marcante a presença da mão pesada do general al Raisi (New Arab (04/10/2021).

                 Nomeá-lo  chefe da Interpol seria como nomear uma raposa para tomar conta do galinheiro.

                   Em 2015, o anseio pela expansão da sua influência no exterior levou a UEA a aderir à coalisão militar liderada pela Arábia Saudita para repor na presidência do Iêmen Mansur Hadis Modi, deposto pelo movimento dos houthis.

                  Nessa guerra de extermínio, classificada pela ONU como a maior catástrofe mundial, os Emirados foram, depois dos sauditas, quem lançou mais forças armadas na coalisão

                Sua participação não se pautou exatamente pela observância das leis humanitárias.             

   Conforme pesquisas da Associated Press e da Human Rights Watch, o exército da União dos Emirados Árabes mantém no Iêmen uma rede de 18 prisões clandestinas, onde suspeitos de terrorismo são interrogados com torturas.    

 Estima-se que muitas centenas desses indivíduos simplesmente sumiram.

           Nessas prisões da UEA, as torturas são aplicadas quase que diariamente. Além de espancamentos, ataques sexuais e choques elétricos, os especialistas dos Emirados usam um método tão bárbaro quanto inovador: o grill. Os suspeitos são amarrados num espeto que gira sobre um círculo de fogo, como num churrasco.  Ex- prisioneiros revelaram que, em Makala, eles foram jogados em navios containers, lambuzados com fezes, espancados, atacados sexualmente e, por fim, amarrados no espeto.

         Para apoiar sua intervenção militar em Aden, maior cidade do sul do Iêmen, a UEA contratou o Spear Operations Group, baseado nos EUA, que emprega mercenários, em geral veteranos do exército americano.

        Abraham Golan, o dono do Spear, informou ao Buzz Feed que sua empresa foi contratada para assassinar inimigos dos Emirados. Um dos alvos, Ali Mayo, líder do partido Al-Islah, ramo da Irmandade Muçulmana, que os reinos do Golfo consideram uma organização terrorista (Buzz Feed,16/10/2018). Coisa que não é, nem nunca foi.

         Mais recentemente, a UAE abandonou a guerra do Iêmen, em busca de operações politicamente mais interessantes, deixando os sauditas praticamente sozinhos nessa luta cada vez mais impopular.

         Aderiu à revolta na Líbia, chefiada pelo marechal Haftar, ajudando este ex-agente da CIA a perpetuar uma crise que já dura 10 anos e tem impedido a normalização do país, depois da queda do regime do coronel Khadafi.

         A Líbia possui as maiores reservas petrolíferas da África. Talvez por isso muitos países vieram participar na guerra que opõe o governo de transição, organizado pela ONU, ao exército de Haftar, recheado de milícias, que a Human Rights Watch acusa da prática de execuções sumárias e ataques indiscriminados contra civis.

          Apoiando Haftar, a UEA teve a companhia de outros países autocráticos, a Rússia, Egito e Arábia Saudita, mais a França do oportunista Macron.

         O papel das forças armadas do príncipe MBZ foi de grande destaque.

 Seus aviões e drones armados desferiram uma série de bombardeios, que causaram pesadas baixas nas forças adversárias, sendo responsáveis por

várias malazartes, como as citadas pelo HRW.

          No momento, as operações militares estão paradas devido a uma trégua. Na esperança de que seja definitiva, foram marcadas eleições presidenciais para 24 de dezembro, e parlamentares, para 30 dias depois.

         Tendo momentaneamente recolhido suas garras, os Emirados estão preocupados com o desenvolvimento da crise do Irã, relacionada ao Acordo Nuclear com esse país.

          A próxima reunião de negociações entre americanos e iranianos ficou para novembro. Possivelmente será a última. Desta vez,  uma decisão parece inevitável.

          Os israelenses aguardam com a mão no gatilho.

          Caso não haja acordo, analisa-se que o Irã iria se voltar para a produção de armas nucleares. Antes dela ficar pronta, Israel, através dos líderes do regime e principais generais, cansou de informar que atacaria.

         Aliás, segundo o pensamento do grande Julio Cesar, sI vis pacem, para bellum (“se queres a paz, prepara a guerra), tudo já está planejado. Basta Bennett apertar o botão vermelho e adios Irã.

          Agora, se, pelo contrário, Irã e EUA prometerem voltar ao acordo nuclear e a respeitar seus termos, Israel já disse que não aceitaria pois, com este resultado, nada impediria o Irã de produzir sua bomba atômica.

          E não perderiam tempo em lançá-la contra o território israelense.

          Portanto, em auto-defesa, o governo de Jerusalém atacaria antes dos aiatolás ficarem com a faca e o queijo nas mãos.

           Ora, o Irã fica a dois passos dos Emirados. Como aliado de Israel certamente seria um dos primeiros alvos do contra-ataque iraniano.

            É natural que MBZ ande coçando as barbas nervosamente.

           Seu consolo é que conta com a amizade dos EUA, dos quais tem sido um aliado dos mais fiéis. Isso nas relações internacionais porque, como hóspede de Tio Sam, seu comportamento merece a nota mais baixa.

Em julho deste ano, Tom Barrack, foi preso na California, indiciado por influenciar ações do então presidente Trump em favor dos interesses da União dos Emirados Árabes (New York Times, 29/07/2021).

Ele era um dos  mais  próximos parceiros de Trump desde a última campanha presidencial. Um verdadeiro ring brother do republicano, ele não só abriu o primeiro comitê pró-Trump como se destacou na busca de doadores para a promoção da candidatura do chefe.

 De acordo com um procurador federal, Barrack agia seguindo instruções de figurões altamente colocados na UEA. Nada menos do que o próprio príncipe coroado e seu embaixador em Washington, Yousef al Otaiba (CNBC,29/07/2021).

  Logo depois da vitória de Trump, Barrack pediu e recebeu dos seus ilustres contratantes dos Emirados uma “lista de desejos,” relação das ações na política externa que eles gostariam que o governo americano efetuasse dentro dos primeiros 100 dias, dos primeiros seis meses e do primeiro ano do mandato.

     As ações de Barrack foram altamente ilegais, pois visavam levar os EUA a praticarem atos não em seu próprio benefício, mas de um país estrangeiro. Contratar agentes com esse fim poderia se esperar de países inimigos, nunca de um dos mais fiéis aliados dos EUA.

     O mais chocante é que as diabruras do príncipe coroado não ficaram só por aí.

     Sob sua direção, George Nader – um conselheiro de MBZ e de Trump-planejou e dirigiu uma campanha secreta para sujar a barra do Qatar, com quem os Emirados estavam de mal.

     Nader- atualmente na cadeia, condenado por pornografia infantil- recebeu da UEA 2,5 milhões de dólares para financiar ações com o objetivo de tornar o Congresso hostil ao Qatar (Middle East Monitor, 07/07/2021).

      H á dois meses atrás, 3 ex-operadores de inteligência dos EUA confessaram terem sido cyber-espiões da UEA, hackeando redes de computadores  dos EUA, para os emires poderem acessar  “dezenas de milhões de smartfones  e dispositivos móveis.”  Esta operação, profundamente ilegal, também atingiu jornalistas e ativistas de direitos humanos no Oriente Médio (BBC News, 15/09/2021) . 

        Claro, não foi a atoa que esses competentes, embora inescrupulosos técnicos fizeram seu trabalho. Os agentes de segurança da UAE aproveitaram as informações  obtidas por eles para prender e torturar diversas das pessoas que tiveram sua privacidade assaltada.

        Tom Barrack, George Nader e os dois hackeres estão sendo processados criminalmente. O estranho  é que os mandantes dos crimes aqui mencionados, MBZ e seus ring brothers, não sofreram quaisquer sanções, sequer protestos públicos, por parte do governo de Washington.

        Entende-se: eles são figuras importantes num país que sempre diz “sim” aos EUA, não interessa malquistar-se com dignatários de quem é tão útil a Tio Sam. Lembre-se de que os Emirados foram os primeiros a aderir ao projeto Abraham Lincoln, de autoria do ex-presidente Trump, ao aliar-se a Israel, rompendo assim o acordo dos países islâmicos de negarem relações com o regime sionista, até que fosse reconhecido o Estado da Palestina.

         Biden já afirmou que pretende liderar todos os países aliados (democratas ou ditaduras) na guerra fria.2 contra a Rússia e a China (especialmente). Parece que não quer se arriscar a perder qualquer um deles, mesmo quando praticam crimes contra os direitos humanos e outras leis internacionais.

                  Afinal, guerra é guerra. Mesmo sendo fria.

                 Por enquanto, MBZ está garantido. Mas, não convém abusar.

                 De repente, o povo americano pode perceber que os tão glorificados valores da pátria estão sendo engavetados.

                 .

         “Se Washington  continua a fazer nada e não punir os autocratas estrangeiros- mesmo aqueles que alegam serem nossos amigos- responsáveis por interferirem na democracia americana isso apenas  inspira mais operações de influencia maligna (Responsible Statescraft, 09/10/2021)”. If Wash continues

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