Mais uma guerra perdida

O Taleban é hoje quem representa o nacionalismo árabe, indissoluvelmente ligado ao islamismo, contra a opressão americana.

Têm o apoio da maioria da população. Estão bem equipados militarmente, graças ao financiamento que vem dos países árabes. Seus efetivos aumentaram de 10.000 no ano passado para 30.000 hoje, exatamente o total de soldados da OTAN antes de os Estados Unidos reforçarem seu exército.
 Quando o governo Bush conquistou o Afeganistão, a guerra parecia vencida. Legitimada pela ligação dos talebans a Bin Laden, essa ação  tinha o apoio da ONU, do povo americano e da opinião pública mundial, traumatizados pelo atentado das Torres Gêmeas, além da maioria dos afegãos.
 Bin Laden fugira, mas a Al Qaeda fora arrasada e os talebans, reduzidos ao mínimo, estavam dispersos nas montanhas da região da fronteira com o Paquistão.
Hoje, a situação é bem diferente. A unanimidade de antes praticamente inverteu-se. Nada aponta para um “happy end” favorável ao governo Bush. E o resultado da última pesquisa sobre a questão é sintomático: pela primeira vez o povo americano manifestou-se contra a guerra : 52% x 48%. No decorrer da sua história, o Afeganistão viveu curtos período como um Estado independente. Antes dos Estados Unidos e da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), Alexandre Magno, Gengis Khan, o Império Britânico e a União Soviética sucederam-se no controle do país. Nenhum por muito tempo.O último, a União Soviética, havia intervindo militarmente em apoio de um governo comunista estabelecido num golpe de Estado, em 1979. O nacionalismo islâmico foi a bandeira de uma rebelião nacional contra ele, unindo a Aliança do Norte (milícias tribais), os Senhores da Guerra (grandes proprietários de terras com exércitos particulares) e o os talebans, com  apoio dos Estados Unidos. Expulsos os russos, em 1989, o país caiu na anarquia, dilacerado por guerras internas, ficando vários anos praticamente sem governo. Em 1996, o Taleban acabou vencendo, bem recebido pela maioria do povo, pois assegurou a ordem e a segurança. Mas o Taleban também caiu em desgraça. Insistindo em tornar lei regras medievais do Alcorão, que, inclusive, negavam às mulheres os direitos de cidadania e violavam  direitos humanos, perdeu o apoio da população. Por sua vez,os Senhores da Guerra e a Aliança Norte passaram a hostilizar o Taleban por ter erradicado a cultura do ópio – que eles controlavam. Por isso, aliaram-se aos invasores americanos.
Chegando ao poder, os americanos, agora reforçados por forças da OTAN, trataram de caçar os remanescentes do Taleban e da Al Qaeda, com o auxílio dos seus aliados locais.
Aí, as coisas começaram a desandar. Como se sabe, os tóxicos são dos mais graves problemas da sociedade americana. Por isso, o governo investe bilhões numa campanha pela sua  repressão. Não poderia fazer vistas grossas sobre o negócio do ópio e seus derivados (heroína, morfina e haxixe) no Afeganistão, onde ele representa cerca de 60% do PIB e 92% do comércio mundial, gerando uma receita anual de 3 bilhões de dólares para os produtores. Bush teve de iniciar um programa de destruição das plantações. Mas e seus proprietários, os Senhores da Guerra e a Aliança Norte, fiéis aliados das forças americanas? Em 2004,o New York Times perguntou a um alto funcionário do governo Bush  “por que o exército não ia atrás deles”. Resposta: “ora, esses são os caras que nos ajudaram a liberar este lugar…”. Para avaliar o programa anti-ópio do governo Bush, veja estes números: entre 2005 e 2006, a área cultivada aumentou 25%.
 Apesar de  tocado com leniência , o programa anti-ópio da Casa Branca tem promovido a destruição de um certo número de hectares de plantações, transformando antigos amigos em inimigos ferozes.
Por sua vez, o governo do presidente Karsai também tem atuado nessa are, obrigando os grandes senhores a subornar fiscais e governadores de províncias. Já os pequenos produtores, por falta de recursos, nada podem fazer. Estima-se que 2 milhões de agricultores perderam seu meio de vida. Os exércitos da Coalizão  procuram estimular a troca do ópio por plantações de cereais, sem êxito, pois a maioria das térreas afegãs é de má qualidade. Enquanto a papoula viceja bem e dá lucros garantidos, culturas convencionais exigem investimentos em adubos e defensivos fora do alcance dos agricultores pobres.
Depois de alguns anos sumido, o Taleban reapareceu atraindo todo este conjunto de agricultores descontentes. Aos grandes ele oferece proteção contra os vorazes agentes do governo. Os pequenos contam com empréstimos,  chances de plantar de novo – ainda que papoula -, “respeito e familiaridade”. A todos, traz lei e ordem num país carente destes valores.
Também para as pessoas não envolvidas na cultura do ópio, sobram os motivos para voltar-se contra as forças de  ocupação. Freqüentes ataques que fazem dezenas de vítimas inocentes tornam os americanos “mais odiados do que os russos”.
Com a economia destruída pelas guerras, incapaz de se reerguer via uma reconstrução marcada pela corrupção de seus agentes, o nível de vida do povo baixou muito. Estima-se que 2/3 da população viva com 1 dólar por dia.
O governo e o parlamento eleitos, apresentados ao mundo como uma grande conquista democrática, perderam  a confiança do povo. As verbas destinadas pelo Ocidente para a reconstrução desaparecem nas mãos do presidente Karsai e seus auxiliares. A rigor, não há um Estado, pois Karsai exerce poder efetivo somente sobre a capital e uma pequena  região central. O norte é governado pela Aliança Norte e os Senhores de Guerra, o Taleban é o principal poder no sul e, em todo o país, milícias tribais assumem o governo  quando as tropas da coalizão se retiram.
Entre os 249 membros do Parlamento, há 17 conhecidos traficantes, 40 comandantes de milícias armadas, 24 membros de gangues criminosas e 19 que enfrentam acusações de crimes de guerra. Muitos deles, senão todos, são ligados ao negócio do ópio.
Neste cenário, anuncia-se para a primavera, quando as neves derreterem, um grande ataque do Taleban.
Eles são hoje quem representa o nacionalismo árabe, indissoluvelmente ligado ao islamismo, contra a opressão americana. Têm o apoio da maioria da população. Estão bem equipados militarmente, graças ao financiamento que vem dos países árabes. Seus efetivos aumentaram de 10.000 no ano passado para 30.000 hoje, exatamente o total de soldados da OTAN antes de os Estados Unidos reforçarem seu exército.
Preocupados com o crescimento do Taleban, os americanos trouxeram mais 7.000 soldados, passando a contar com 27.000. Pediram também que os outros países da OTAN enviassem mais tropas. Só Blair atendeu.
Não se considera possível que o Taleban e as milícias derrotem os exércitos dos Estados Unidos e da OTAN. Mas mesmo Alexandre Magno, Gengis Khan e o império  soviético tiveram de ceder ante  a capacidade de resistir do povo afegão, em busca de algo que ainda não teve, um Estado nacional organizado, objetivo, fortemente apoiado pelo mundo islâmico

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