Kidon: assassinos acima da lei.

O assassinato do quinto cientista nuclear iraniano foi atribuído pelos jornais e algumas autoridades do país aos EUA e a Israel. Todos eles apresentaram estilos muito semelhantes entre si, exibindo um padrão, prova de que o autor foi o mesmo.

Acredita-se que os americanos sejam inocentes. Tanto Hillary Clinton quanto Leon Panetta apressaram-se em condenar veementemente a ação. Além disso, faltam indícios que incriminem os EUA.

O mesmo não se pode dizer de Israel.

O Mossad (serviço de espionagem israelense) conta com um departamento, o Kidon, cujo objetivo é assassinar inimigos de Israel,em qualquer parte do mundo, que não possam ser julgados num tribunal normal.

Em entrevista ao jornalista Gordon Thomas, Meir Amir ex diretor do Mossad, assim se referiu ao Kidon: “somos como o carrasco oficial ou o médico no Corredor da Morte que aplica a injeção letal. Nossas ações são todas apoiadaspelo estado de Israel. Quando matamos alguém, não estamos quebrando qualquer lei. Estamos cumprindo uma sentença sancionada pelo primeiro ministro da ocasião.”

Desse modo, o Kidon já cumpriu muitas missões no exterior, matando figuras desde terroristas até cientistas nucleares. Raramente são desmascarados. Como em 2010, quando seus agentes assassinaram Mahmoud AL-Mahhout, alto dirigente do Hamas, num hotel de Dubai. Os detalhes do crime e seus executores foram descobertos pelo chefe de polícia da cidade, que relatou de modo preciso como a ação se processou. Ele enviou provas, que afirmou serem incontestáveis, à Interpol. E o caso morreu por aí, pois nunca mais se ouviu falar a respeito.

Por sua vez, o governo inglês ordenou rigorosa investigação, não do atentado, mas do uso de passaportes ingleses pelos criminosos.

No assassinato do cientista nuclear iraniano, somaram-se uma série de indícios da autoria do Mossad, através do seu departamento especializado em assassinatos, o Kidon.

Em agosto de 2010, o jornal alemão Der Spiegelrevelou o vazamento de uma informação da Inteligência oficial de Israel, admitindo seu envolvimento no assassinato dos 4 cientistas nucleares, que precedeu o atentado ocorrido na semana passada. Falando a respeito, o Der Spiegel garantiu: “Só há uma pequena dúvida, no sombrio mundo das agências de inteligência, que a agência de inteligência de Israel não esteve envolvida nos assassinatos.”

Ainda o Der Spiegel entrevistou Ehud Barak, Ministro da Defesa de Israel, perguntando se o seu país não seria responsável pelos assassinatos. Barak sorriu e disse: “Israel não responde.” Fato que foi tomado por uma resposta afir- mativa, pelos jornalistas presentes.

Em novembro de 2010, o jornal inglês Guardian já havia reportado que inegavelmente “operações negras americanas e israelenses” haviam “tomado como alvo cientistas nucleares iranianos”. Exatamente os 4 que precederam o cientista recém-assassinado nas ruas de Teerã.

Em 11 de janeiro, o jornal francês Figaro noticiou que agentes do Mossad estavam operando no Curdistãoe o jornal israelense Haaretz completou a informação, dizendo que os agentes recrutavam milicianos anti Irã para promoverem atentados à bomba em Teerã. E foi uma bomba que matou o cientista iraniano.

Ainda em janeiro, falando numa reunião com parlamentares, o general Benny Gantz, Chefe do Estado Maior do exército israelense, disse que o Irã deveria esperar “…por coisas que aconteceriam de uma maneira não natural.” Esse“não natural”foi interpretado pelos experts como atos de sabotagem e violências no Irã.

Numa investigação, para se descobrir o culpado é necessário saber responder à pergunta clássica do Direito Romano: Cui Bono? Ou seja, a quem o crime beneficia.

Jim Lobe, conceituado especialista no Oriente Médio, sustenta que Israel é a resposta.

Para ele, os motivos dos atentados apresentados geralmente – retardar o programa de produção de uma suposta bomba nuclear e atemorizar os cientistas nucleares do país – são secundários.

O objetivo principal seria fazer fracassar a reunião marcada para fins do mês entre os 5+1 (EUA, França, Rússia, Reino Unido, China e Alemanha) e o Irã, que tem chance de resultar em algum acordo, pois os efeitos danosos das sanções tornaram os iranianos suscetíveis de fazerem concessões do agrado do Ocidente.

Acredita-se que o assassinato fortaleceu a linha dura dos aiatolás e enfraqueceu os grupos favoráveis à paz, que poderão chegar à reunião com sua posição enfraquecida, especialmente porque o povo, que os apoiava, agora mostra-se profundamente indignado com Israel e com os EUA, acusados de cumplicidade. E por esta última frase, deduz-se que os EUA seriam inocentes, pois o governo OBAMA tem interesse na paz – uma nova guerra não desejada pelo povo prejudicaria sua eleição.

Para Jim Lobe, os iranianos duros poderão, inclusive, promover alguma retaliação. A provável reação americana, tanto acabaria num “deixa disso”, assim que as vítimas e prejuízos fossem contabilizados, ou mesmo deflagraria a guerra. Provavelmente isso seria o Nirvana para Israel, um objetivo que teriam em mente quando se organizou o atentado.

Creio que não é preciso ser jurista para saber que o assassinato de civis por entidades ou pessoas de outro país é ilegal – um crime contra o Direito Internacional. Matar inocentes civis só é aceitável durante uma guerra, assim mesmo em situações de combate.

Havendo um crime assim definido por lei, sólidos indícios, causas prováveis e alguém que se beneficiaria com ele, caberia à ONU, criada especialmente para assegurar a justiça nas relações entre países, tomar providências.

Foi o que o Irã solicitou ao Conselho de Segurança: condenação do crime e dos seus autores. Infelizmente já se sabe que será em vão. Se o pedido for aceito (o que é difícil) os EUA, apesar da categórica condenação do assassinato, irão vetar.

Ban Ki-Moon uniu sua voz ao coro de condenações mundiais. Mas, seu relator para crimes extralegais, embora também fazendo sua crítica, limitou-se a dizer que cumpria ao governo do Irã investigar, reunir as evidências e levá-las ao tribunal.

Considerando a reconhecida qualidade do Mossad, tido como o mais eficiente serviço secreto do mundo, tudo leva a crer que o pessoal do Kidon pode dormir sossegado.

Mas, e a Interpol, por que não atua?

E o promotor do Tribunal Criminal Internacional, não vai processar os suspeitos? Se fosse promotor num país ocidental, os indícios e circunstâncias já reunidos justificariam plenamente a abertura de uma ação criminal.

E os países ocidentais? Se fosse o contrário, cientistas israelenses assassinados pelo Irã, com indícios e circunstâncias iguais ao do evento “não natural” no Irã, eles ficariam calados?

No assassinato dos 5 cientistas iranianos estão sendo desrespeitados valores fundamentais na civilização ocidental como o respeito às leis, à ordem internacional, à soberania das nações e aos direitos humanos. Tudo se agrava porque os responsáveis por este crime são, além dos assassinos do Kidon, os chefes do Mossad e o próprio primeiro ministro israelense. E fica particularmente grave já que eles não vão parar, autorizados pela omissão da ONU e do Ocidente que, quando se trata de Israel, prefere desconsiderar as leis internacionais e privilegiar a lei da selva.

14/1/2012

Luiz Eça

www.olharomundo.com.br

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