Joga pedra na Cristina.

A grande mídia não perde chance de demonizar  Cristina Kirchner.

No momento, trata de usar os desdobramentos do caso AMIA para sujar a imagem da presidente argentina.

Em 1994, a AMIA – organização judaica em Buenos Aires- sofreu um atentado que resultou em 85 mortos e centenas de feridos.

Investigado por diversas autoridades judiciárias, o mistério continua insolúvel.

Em 2006, o juiz do caso AMIA, Canicoba Corral, pediu a prisão de seis iranianos suspeitos. Como estavam fora do país, foi solicitado  que a Interpol os incluísse em sua lista de procurados.

Em janeiro de 2015, o promotor especial Alberto Nisman enviou a Canicoba Corral uma denúncia implicando a presidente Cristina Kirchner, o ministro do Exterior Hector Timerman e  outros num presumido acobertamento dos iranianos no atentado.

Segundo o documento, o governo Kirchner teria gestionado junto à Interpol para liberar os suspeitos da detenção antes requerida . Seu motivo oculto seria um acordo entre Teerã e Buenos Aires de troca de cereais argentinos por petróleo iraniano, para suprir o déficit energético do país estimado em 7 bilhões de dólares.

Estas acusações do promotor Nisman foram largamente noticiadas pela Folha, Estadão e Rede Globo como fatos. Mas o juiz Corral as rejeitou: ”A denúncia se baseia em fontes de inteligência. Pelo que se vê, não tem valor probatório”. Ponderou que Nisman fez suas investigações sem informar a juiz algum, o que seria grave. Ele pretendia analisar se não houvera por parte do promotor um desvio das suas funções.

Com a misteriosa morte de Nisman algumas semanas depois,  nossa grande mídia deu o maior destaque aos clamores da oposição que responsabilizava seguidores da presidente.

E mesmo ela, indiretamente. Talvez algo semelhante ao episódio do assassinato do arcebispo Becket, na Inglaterra do século 12.

Diz a História que o rei Henrique II, indignado com a incômoda oposição do arcebispo Becket, teria desabafado em plena corte: “E ninguém faz alguma coisa para me defender desse maldito!”. Três nobres fizeram. Assassinaram o arcebispo.

Cristina teria dito o mesmo e seus fiéis asseclas imitaram os ingleses.

A nossa mídia aceitou essa hipótese como viável, mas ridicularizou a feita pela presidente: o assassinato Nisman seria parte de um complô contra ela, sendo o crime cometido por agentes secretos com o objetivo de culpá-la.

E, no entanto, esta versão parece mais possível do que as dos seus adversários, conforme fatos, providencialmente não divulgados pela nossa mídia.

O documento de 300 páginas com que o promotor Nisman pretendia comprovar suas acusações contra a presidente baseava-se em gravações feitas pela SIDE – a agência de espionagem federal.

Conforme o The Guardian (28 de janeiro), a SIDE mantém estreitas  ligações com a CIA e o Mossad.

A CIA foi mais ativa durante o regime militar, quando colaborou com os agentes secretos argentinos na repressão aos movimentos de esquerda.

Já o Mossad costuma estar muito presente na Argentina onde vive  a  maior comunidade judaica da América Latina, com 500 mil pessoas.

A SIDE guarda vínculos com a política secreta da ditadura militar, vários dos seus membros vinham dessa época.

Na democratização do país, os agentes secretos continuaram a se movimentar com poderes e desenvoltura semelhantes aos dos tempos da ditadura.

Diz a Associação dos Direitos Civis da terra de Maradona: ”Desde 1983, os governos democráticos não foram capazes ou não quiseram estabelecer controles eficientes nos serviços de inteligência que se tornaram parte essencial do poder presidencial.”

Trabalhando na investigação do atentado da AMIA, a SIDE concentrou-se na hipótese de culpa do Irã.

Seus problemas com o governo argentino começaram quando o país mudou de lado:  abandonou a tradicional aliança com os EUA , aliando-se aos governos de esquerda da América Latina. Para o pessoal da SIDE foi duro de engolir a idéia dos seus velhos inimigos virarem amigos.

Até que, em 2013, Cristina Kirchner decidiu aproximar-se do governo iraniano, assinando um memorando de entendimento com o governo de Teerã.

Aí, foi demais!

A SIDE voltou-se contra a presidente, colaborando com o promotor Nisman no levantamento de provas para implicá-la junto com o Irã.

Ainda segundo o The Guardian, a presidente percebeu e em dezembro último demitiu Antonio Stiuso, o todo poderoso chefão da SIDE. E fechou a agência.

Fez mais: está apresentando um projeto que cria uma nova agência de inteligência com menos funções e poderes, submetida a estreito controle pelo Legislativo e o procurador-geral.

Essas coisas foram ignoradas pela grande imprensa brasileira.

Preferiu criar o mito de uma guerra entre o Mal- encarnado por Cristina Kirchner, e o Bem – encarnado pelo promotor Nisman.

Não vou dizer que Cristina não mereça críticas – longe disso.

Mas Nisman não parece ser o heróico e eficiente promotor, acima de qualquer suspeita, como o querem pintar.

Suspeita-se que ele teria vínculos com os adversários da presidente. Interessado mais em criminalizar Cristina e o Irã do que em descobrir a verdade.

Nisman mantinha ligações com a embaixada americana, que freqüentava assiduamente, trazendo informações e também recebendo orientações, fato comprovado por documentos revelados pelo Wikileaks.

Como se sabe, o governo Kirchner não é exatamente bem-visto nos EUA, por ser grande amigo dos governos hostis a Washiongton da Venezuela, Equador e Bolívia e, mais recentemente, também do Irã.

Sergio Burstein, que dirige uma associação de famílias de vítimas do atentado à AMIA, coloca dúvidas sobre os objetivos do promotor: “Encontrei Nismam muitas vezes. Nós parentes (das vítimas) o apoiamos de início, mas então tivemos nossas diferenças… Os parentes da AMIA não devem ser usados com objetivos políticos.”

Há outros fatos estranhos que lançam sombras sobre a condução do processo AMIA como um todo.

Juan José Galeano, o primeiro juiz nomeado do processo, usou informações prestadas por Manoucher Motamer, ex-diplomata do Irã, para incriminar funcionários da embaixada iraniana .

Ora, segundo o MSN News, Motamer era agente da CIA…

Aliás, o envolvimento do Irã no atentado é posto em dúvida pelo repórter investigativo Gareth Porter. Ele acha que a criminalização dos seis iranianos foi falha, pois baseou-se principalmente em acusações do Muhajedin, movimento terrorista inimigo do regime de Teerã.

Posteriormente, em 2004, o mesmo juiz Galeano ordenou a prisão de Carlos Tellardin, sob acusação de ter fornecido a van que continha os explosivos usados contra a AMIA.

Mas o juiz foi afastado depois de ter sido exibido um vídeo no qual ele oferecia 400 mil dólares a Tellardin para que trouxesse evidências sobre o caso.

11 anos depois, diante da rejeição do juiz Corral, o promotor Nisman levou sua denúncia ao juiz Litjo, que estava de férias. A juíza substituta também foi contra: declarou que Nisman não apresentara provas suficientes.

É a opinião de alguns dos maiores penalistas argentinos como Raul Zafaronio, Leon Arsianian e Julio Mayer.

O fato principal da denúncia – que o ministro do Exterior Hector Timerman teria solicitado à Interpol a retirada dos seis iranianos do rol dos procurados – foi desmentido pelo próprio secretário-geral da Interpol na época, Ronald Noble.

A troca de cereais por petróleo jamais aconteceu, mesmo porque o petróleo iraniano não é compatível com as refinarias argentinas.

As gravações de conversas conspiratórias entre misteriosos sujeitos, iranianos segundo a denúncia, e o sindicalista  d´Elia (que não faz parte do governo) não passavam de “conversas de botequim”.

“Ninguém aqui dá crédito ao piquetero (d´Elia)´”, assegurou fonte da CIA nos EUA a Ana Baron, correspondente do jornal argentino Clarin, adversário da presidente. “A CIA acredita que a ação (o assassinato) teve mais a ver com um conflito interno no governo e menos com Nisman e o que ele estava investigando. Alguém quis complicar Cristina pelas mudanças que está fazendo na SIDE.”

Então, em que ficamos?

Quem explodiu a AMIA? Quem matou NISMAN?

Vão haver ver ainda muitos desdobramentos dessas questões.

Do que depender da mídia nacional, só será conhecido o que interessar a ela.

Diz o jornalista vivido por Al Pacino no filme “O Informante”: “A liberdade de imprensa é a liberdade dos donos da imprensa”.

Acho que os donos da nossa imprensa  tem usado essa liberdade para desinformar o público nos casos do atentado à AMIA e do assassinato do promotor Nisman, para sujar a imagem de Cristina Kirchner.

De um modo geral porque eles a odeiam, como odeiam todos os regimes populistas da América do Sul.

De modo especial, porque  foi seu governo que aprovou o marco regulatório da mídia argentina (a ley de médios)  e, imaginem, querem aprovar algo assim no Brasil.

Chato que o relator da ONU elogiou a ley de médios :”é um modelo para todo o Continente e outras regiões do mundo.”

Denegrir a ONU não é nada fácil – joga pedra na Cristina.

 

 

 

 

 

 

4 pensou em “Joga pedra na Cristina.

  1. Brilhante Eça!! é exatamente o que penso que aconteceu. Vou divulgar este seu artigo entre meus amigos argentinos que engoliram essa propaganda da media internacional (incluindo “El Clarín” A Globo. El Mercurio do Chile e otros meios)
    que vive em CAMPANHA CONTRA OS GOVERNOS POPULARES DE AMÉRICA DO SUL que apenas pretendem governar de forma algo independente das regras das grandes potencias e do capitalismo financeiro internacional. Obrigada, Élida

    • Eu é que agradeço seu comentário. Penso voltar a esse assunto – mídia em campanha contra governos populares da América do Sul – porque me parece da maior importância

      • Sr Luiz,

        muito bem escrito e elucidativo. Após ler o texto modifiquei a minha visão sobre os fatos.
        Também acho interessante textos sobre os governos populistas da América do Sul, questões históricas e tal. Seria bom ler sobre as causas destas políticas locais.
        Lia Marinho.

        • Deixar de informar é desinformar. Chato que a gente precisa ir descobrir na imprensa do exterior os fatos importantes que a nossa mídisa, por interesse, esconde.

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