Joe Biden e Bonnie and Clyde

Os EUA perderam a Guerra do Afeganistão contra os talibãs, mas o governo Biden não resolveu deixar passar batido. Depois de retirar suas forças militares do país, lançou uma barragem de retaliações econômicas que miram o Talebã, mas atingem principalmente atingido o povo afegão.

O FMI e o Banco Mundial foram pressionados para adiarem seus programas de apoio à economia do país. O Banco Mundial já cedeu, engavetando todos os seus projetos, inclusive o maior deles, o Citizen´s Charter National Priority Program, que injetaria 1 bilhão de dólares na economia do Afeganistão (Tolo News, 1/1/2022).

E manteve as sanções contra os talibãs, que aplicara durante os 20 anos de guerra.  Só que, como o Talibã agora é governo, quem sofre mais é a população, que vê sua pobríssima condição de vida piorar pela impotência do governo, carente de recursos.

Não contente com essa decisão cruel, Biden ordenou o congelamento de 7 bilhões de dólares, que haviam sido depositados pelo Banco Central do Afeganistão no Banco Central dos EUA.

Era dinheiro do povo afegão que o morador da Casa Branca, como um legítimo autocrata, passou a geri-lo como se fosse seu.

Para completar seu cardápio de malvadezas, Biden anunciou que iria dividir a bolada, como se pertencesse aos EUA e não aos verdadeiros donos, o povo afegão.

3,5 bilhões seriam doados a famílias de vítimas do atentado de 11 de setembro, enquanto, os restantes 3,5-seriam aplicados em ações humanitárias, para diminuir a fome sofrida pela população do Afeganistão (quanta generosidade!).

Trata-se de uma infração ética, cruamente falando, um verdadeiro roubo, pois Biden ao esvaziar os cofres do Banco Central do Afeganistão. está se apossando de dinheiro alheio para usá-lo como se fosse seu.

Mais ou menos o que faziam bank robbers famosos como Jesse James e Bonnie and Clyde, com a diferença que essas figuras aplicavam os frutos dos bancos assaltados em benefício próprio, enquanto Biden usa os 7 bi com fins supostamente altruísticos.

Claro, Biden não atirou em ninguém ao se apossar dos recursos financeiros do banco afegão. Em compensação as vítimas das rajadas de balas disparadas por Bonnie and  Clyde foram em número extremamente menor do que o das famílias afegãs  condenadas à fome e à pobreza extrema  pelo roubo dos seus 7 bilhões.

Alega-se que o presidente estava agindo para evitar que essa grana fosse cair nas mãos terroristas dos talibãs, que os gastariam sabe Deus como.

Fraca desculpa.

Há modos de se resolver esse problema. Por exemplo: um plano, apresentado por especialistas previa liberar os 7 bi em mensalidades de 250 milhões de dólares, monitorando a aplicação desse dinheiro. Caso, em algum momento, os talibãs  saíssem da casinha, o congelamento poderia ser reestabelecido sem demora (The National Interest, 14/2/2022).

Quando Cabul caiu, em agosto último, os ex-governantes do país fugiram açodadamente, deixando  milhões de dólares, que sobraram da ajuda americana.

Com eles, foi possível manter-se uma cambaleante economia, pagando alguns salários públicos e privados, socorrendo mercados e alguns pequenos negócios irrisórios.

Mas esta precária alegria  durou pouco.

Os americanos saíram, mas deixaram as sanções anti-talibãs. Elas paralisaram o sistema bancário, o que impediu ONGs humanitárias externas de enviar ajuda ao país.

Em 11 de fevereiro, veio o congelamento dos depósitos do Banco Central do Afeganistão nos EUA, um golpe devastador para o país, que se viu sem recursos para manter o funcionamento da economia.

Mas quem sofreu mesmo foi o povo, pois sumiram os empregos, a inflação subiu vertiginosamente, muitas empresas fecharam e os milhões que dependiam dos alimentos e cuidados médicos oferecidos pelo governo e por ONGs internacionais ficaram em situações desesperadoras.

Graças a esses resultados o confisco americano dos 7 bilhões de dólares dos afegãos configura-se como  punição coletiva,  crime de guerra, conforme o art. 33 da Quarta Convenção de Genebra e o Protocolo Adicional II, de 1977.

Centenas de milhares de afegãos (talvez milhões) foram diretamente roubados pois os 7 bilhões de dólares congelados, que Biden quer distribuir como se fossem seus,  além das reservas dos bancos comerciais afegão e de fundos cambiais, incluíam também as poupanças de toda a população.

Lembra quando o governo Collor tomou as aplicações do povo?

Foi o que Biden está fazendo, embora de forma mais lesiva, pois o povo brasileiro recuperou o dinheiro congelado, através da justiça, e os afegãos continuam sem esperanças.

Conforme o morador da Casa Branca, metade dos depósitos afegãos nos EUA será repartida entre as famílias das vítimas do atentado de 9 de setembro, que ainda acionam os talibãs, exigindo indenizações.

Um bizarro pois os a maioria dos cidadãos do Afeganistão nada tem a ver com o Talibã.

No ano do ataque, 2001, muitos nem haviam nascido, outros ainda brincavam de Batman e Thor. Nem um único afegão estava entre os autores do atentado das Torres Gêmeas, a qual não partiu do Afeganistão, nem foi planejado pelos rebeldes do país.

Se o povo afegão não tem nada a ver com isso, não me parece que os princípios da civilização ocidental autorizem retaliá-los pelo mal que não fizeram, tomando as suas poupanças para presentear familiares de vítimas do 11 de setembro.

A injustiça cresce ao se saber que essas pessoas já receberam dos EUA suficientes compensações, 2 milhões de dólares por parente morto no atentado.

Diversas outras associações, similares às que ora serão beneficiadas pela generosidade americana com dinheiro alheio, condenaram essa despótica ação do governo Biden.

Barry Anmudson, dirigente de uma delas, a “Famílias Por Um Amanhã Pacífico” declara; “Não posso imaginar uma traição pior ao povo do Afeganistão do que congelar seus ativos e oferecê-los às famílias do 9-11” (The New York Times, 11/2/2022).

A destinação da outra metade dos 7 bilhões roubados, até que parece razoável.

Pelo menos, Biden decidiu em favor do povo afegão, dispondo que esses 3,5 bilhões de dólares serão aplicados para ajudá-lo a enfrentar uma das piores catástrofes humanitárias do mundo.

Decidiu mal, muito mal.

Esta função fundamental ficará a cargo das mesmas organizações não-governamentais e agências públicas, escaladas pelo governo dos EUA para alimentar o esfaimado povo afegão e elevar suas condições após a invasão americana.

Ao passarem o bastão para os talibãs, em agosto último, revelou-se os resultados obtidos pelas ONGs privadas e agências do governo, durante  quase 20 anos

Apesar das enormes quantias aplicadas, o fracasso foi chocante.

Vamos aos dados.

 O Afeganistão continua a nação mais pobre da Ásia;

Sua renda per capita, que somava 650 dólares anuais em 2012, caíra para 500 em 2020 e , neste ano de 2022, estima-se de que não passe de 250 dólares anuais.

Relatório do Programa de Desenvolvimento da ONU (o UDNP) projetava que 97% da população aproximava-se da linha da pobreza em 2022, 95% não tem o suficiente para comer e quase 9 milhões estão arriscados a morrer de fome (Relyweb,19/10/2021)). O ex-presidente, Ashraf Ghani, afirmou que 90% da população vive com menos de 2 dólares por dia.

Ao apelar para doações internacionais ao Afeganistão, a ONU alertou que 23 milhões de pessoas estão enfrentando severa fome, sendo que milhões permanecem à beira da fome.

Acredito que os responsáveis por essas organizações encarregadas da ajuda ao Afeganistão (entre 2001 e 2022) sejam  bem intencionados, mas sua administração foi simplesmente perdulária.

Veja o que informa relatório do inspetor geral e especial da Reconstrução do Afeganistão (SIGAR), a quem cumpria supervisionar as ações para a criação de um Novo Afeganistão, livre da fome e da miséria: nada menos do que 75% a 80% do orçamento das entidades humanitárias, aplicava os enormes gastos dos EUA em em despesas gerais, tais como, salários e bônus, viagens, reuniões, carros blindados, seguranças, tradutores, máquinas e material de escritório, etc (The National Interest, 14/2/2022)

Com tais administradores, não dá para confiar que os 3,5 alocados por Biden para matar a fome do povo afegão chegue à mesa da maioria deles.

De acordo com o Programa de Desenvolvimento da ONU (UDNP), serão necessários 2 bilhões de dólares para elevar as pessoas que se acham em pobreza extrema para uma pobreza menos aguda, onde se passa fome, mas raramente se morre por falta de comida.

Duvido que muitos deles farão essa travessia, apesar dos 3,5 bilhões de dólares disponibilizados por Biden ao combate à fome, atjrhavés de entidades com histórico de gastarem mais consigo próprias, do que com aqueles que devem socorrer.

É prática normal das grandes potências desrespeitarem valores éticos e leis internacionais impunemente, mas denunciando-os como crimes quando os autores são países hostis ou pouco amigáveis.

Como Putin e Xi, Biden já fez isso, por exemplo, nas sanções contra o Irã e o Nord Stream2 e no passa-moleque na França, ao roubar sua venda de submarinos à Austrália); Putin, na anexação da Crimeia, e Xi, nas perseguições aos uigures, também praticaram essas malazartes.

Até agora, o roubo do dinheiro de um povo miserável só encontra paralelo em tempos milenares.

Certamente, a justiça moderna não porá sua mão pesada sobre o ombro de Biden. Ser o país mais poderoso do mundo tem suas vantagens.   

O julgamento do incrível assalto de um banco por um presidente ficará a cabo da História.

Co0mo se sabe, ela é cega a interesses e pressões, e costuma decidir com a justiça que na nossa realidade é difícil de aplicar contra os mais fortes.

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