Hipocrisia americana.

O Departamento de Estado dos EUA acaba de publicar seu Country Reports on Human Rights Practices for 2011, no qual critica mortes de civis causadas por forças militares de países amigos.

É um texto ameno e amigável, de um pai dando um puxão de orelhas pedagógico em filhos que, vez por outra, saíram da linha.

O Yemen é criticado por ter lançado ataques aéreos contra insurgentes na cidade de Abyan que atingiram áreas residenciais.

Embora considere que, em alguns casos, civis foram intencionalmente atacados, o relatório atribui maior culpa a falhas no treinamento e na capacidade técnica dos militares do país.

Esquece, ou talvez omite,  vários fatos que estabelecem a co-responsabilidade americana na morte dos civis de Abyan.

A maioria dos ataques à cidade foram efetuados pelo Joint Special Operation Comands ou pela CIA, através dos notórios drones ou mesmo por navios de guerra americanos próximos ao litoral.

Alguns provadamente eficazes, no mau sentido, conforme informaram 3 oficiais do exército do Yemen.

Segundo eles, dois ataques de drones no início do mês de maio mataram 6 suspeitos de terrorismo, junto com 8 civis, culpados de estarem por perto.

Convém notar ainda que, como a CIA classifica as pessoas como terroristas de acordo com “padrões de comportamento suspeito” o número de baixas inocentes tende mesmo a crescer.

Analisando os resultados do apoio militar americano, o relatório lembra que os EUA concederam 326 milhões de dólares em assistência de segurança ao Yemen, entre 2007 e 2011.

Aparentemente, houve um impacto mínimo na capacidade do governo combater a Al Qaeda, já que, no mesmo período, o movimento terrorista triplicou em tamanho e expandiu sua área geográfica e de influência.

De acordo com o General da Força Aérea Ali Abdullah Saleh: “ Nós usamos a assistência dos EUA para matar yemenitas, não gente da Al Qaeda.”

Depois de censurar o Yemen, o relatório do Departamento do Estado volta-se para a Turquia, um aliado rebelde, que briga com Israel e é amigo do Irã.

A seção “Privação ilegal ou arbitrária da vida” focaliza dois incidentes

Em 28 de dezembro de 2011,  ao visar terroristas do PKK (Partido Revolucionário Curdo), a aviação turca matou 34 civis. O governo está ainda investigando as causas do morticínio.

Em agosto do mesmo ano, bombardeio na região curda do Iraque causou a morte de mais 7 civis.

O que o Departamento do Estado não conta é que, desde novembro de 2007, os EUA fornecem informações, localizando os terroristas curdos para serem devidamente atacados.

Portanto, alguma culpa teriam nas infelizes mortes.

A mais interessante seção do relatório do Departamento de Estado narra incidentes ocorridos no Paquistão.

“Durante o ano, houve informações de baixas civis e de execuções extrajudiciais cometidas pelas forças de segurança do governo durante operações contra militantes.”

Aqui a hipocrisia americana apareceu de forma mais contundente,  pois foi justamente no Paquistão que mais civis inocentes morreram por ação direta do governo americano.

Nesse ano de 2011, pelo menos 70 bombardeios foram lançados pelos drones da CIA contra regiões de camponeses paquistaneses, matando centenas de civis e até policiais.

Mas  nada disso consta do Country Reports on Human Rights Practices of 2011.

Talvez porque as autoridades americanas consideram que sua participação na matança acidental de civis inocentes nunca poderia ser negligente ou carecer de competência.

O destino seria uma explicação melhor.

 

 

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