Golpe militar põe Primavera Árabe em risco.

Tinham razão os manifestantes da Tahir Square duvidando de que os militares entregariam o poder facilmente.

Nesta quinta-feira, a Suprema Corte Constitucional, egressa dos tempos de Mubarak, simplesmente ordenou o fechamento do Parlamento egípcio, devolvendo o poder legislativo às Forças Armadas.

Sua alegação, é brincadeira: 1/3 dos eleitos, que deveriam segundo a lei ser independentes, pertenceriam a partidos políticos…

As eleições presidenciais foram mantidas para 16 e 17 de junho, mas não se sabe o que acontecerá com a comissão nomeada para fazer a nova Constituição. O Supremo Comando das Forças Armadas anunciou que informará isso em 18 de julho. Provavelmente, os militares mandarão os constituintes para casa, assumindo também os seus poderes. Ou talvez nomeiem gente da sua inteira confiança para fazer o que eles mandarem.

Assim, os militares que, daqui a duas semanas, com a posse do presidente eleito, deveriam passar o bastão e voltar às suas atividades normais, agora ficarão partilhando do poder, como titulares do legislativo, pelo menos durante os 6 meses de prazo que a nova comissão constituinte terá para completar seu trabalho.

Claro, não se espera que ela mexa nos privilégios das Forças Armadas. Tudo indica que os militares continuarão proprietários de fábricas, hotéis, lojas e construtoras; seus orçamentos continuarão secretos, sem controle do presidente ou do parlamento e eles, mais do que nunca, um poder dentro do poder.

Completando esse plano habilmente formulado e executado, as Forças Armadas conseguiram estabelecer  grandes condições para conquistar a presidência.

Seu candidato, o general Ahmed Shafiq, que obteve  apenas 1,1% dos votos a menos dos obtidos por Morsi,o vencedor, agora pode superá-lo.

Ele conta com a máquina eleitoral do regime deposto e todo apoio das Forças Armadas,  de alguns dos maiores grupos econômicos e da maioria dos jornais e emissoras de TV e Rádio.

Os cristãos, que são 10% da população egípcia, também votarão em Shafiq, pois temem que Morsi implantaria um regime islâmico, onde as outras religiões teriam menos direitos ou mesmo seriam perseguidas.

A Irmandade Muçulmana e Morsi tem repetido insistentemente  que não discriminará os cristãos, que terão os mesmos direitos dos islamitas e que até mesmo indicarão um dos seus para vice-presidente.

Muitos jovens cristãos, que participaram das manifestações de Tahir Square, aceitam estas explicações,  mas a maioria dos mais velhos acha que a Irmandade não cumprirá suas promessas.

O grosso do eleitorado de Shafiq são as pessoas que se sentem cansadas do excesso de agitações e desejam uma volta da estabilidade do “velho Egito” de Mubarak. Gente que não tinha  nem tem qualquer participação política, nem se preocupava com a falta de liberdade de palavra ou de imprensa dos tempos da ditadura. Muitos  sequer liam jornais e consideravam “democracia” uma expressão sem significado.

Trata-se de uma maioria silenciosa que, quando a situação atual é difícil –e o Egito passa por maus momentos na economia- tende a ver o passado com cores brilhantes, esquecendo seus defeitos.

Matematicamente falando, Morsi deveria vencer com facilidade. Afinal, cerca de 75% dos eleitores no primeiro turno votaram em candidatos da “Primavera Árabe”, contra o general Shafiq, estigmatizado por seu passado de ex- Primeiro-Ministro do ditador Mubarak.

Mas as coisas não são bem assim. Os grupos que derrubaram Mubarak hesitam em apoiar Morsi.

Quem os representa melhor, são os candidatos colocados em 2º,3ºe 4º lugares. Todos secularistas.

Como os cristãos, também eles acreditam que a Irmandade Muçulmana pretende impor um regime islâmico, tornando a “Sharia” (conjunto de leis do Alcorão) a base da Constituição do país.

Essa crença foi reforçada quando a Irmandade, aliando-se aos fundamentalistas do Nouri, quis nomear uma comissão constitucional com grande maioria dos membros dos dois partidos islâmicos. Ironicamente, essa iniciativa só foi frustrada pelo Supremo Comando das Forças Armadas, que considerou a comissão não representativa do povo egípcio.

Quando se iniciaram tratativas  para escolher uma nova comissão constitucional, novamente os partidos secularistas entraram em choque com a Irmandade.

Recentemente, uma reunião de dois dos três candidatos secularistas com Morsi, visando formar uma frente comum de apoio a sua candidatura, fracassou.

Morsi não aceitou as exigências dos secularistas: indicarem o primeiro ministro e dois Vice-Presidentes.

Cada vez mais duvidando dos propósitos democráticos da Irmandade Muçulmana, os partidos secularistas negaram-se a apoiar Morsi. Grande número dos seus membros passou a defender teses como o voto em branco ou o boicote das eleições.

Enquanto essas divisões fraturavam gravemente a candidatura Morsi, do lado de Shafiq as coisas vinham correndo bem. Sua campanha de propaganda intensificava-se, com o candidato acusando o adversário de ”retrógado”, por sua vinculação à Irmandade Muçulmana.

Foi quando, no dia 14, lei emitida por decreto pelo governo militar autoriza militares e policiais a prenderem pessoas por uma série de motivos como: “prejudicar o governo”, “destruir propriedades, “obstruir o tráfego” e “resistir a ordens”.

São verdadeiramente leis marciais que criminalizam alguns direitos. Chama mais atenção a norma que considera crime “obstruir o tráfego” que, se respeitada, impedirá manifestações em Tahir Square, as quais, normalmente, impedem a passagem de veículos

Acredita-se que, armados dos poderes conferidos pelas novas leis, policiais e militares irão prender ativistas da campanha de Morsi e pressionar seus eleitores para que se abstenham de votar.

Surpreendentemente, a dissolução do Parlamento e a edição dessas leis de segurança, promovidas para favorecer a candidatura do general Shafiq, enfraquecendo seu adversário, geraram um efeito contrário.

Os partidos secularistas sentiram que a vitória de Shafiq representará a consolidação do poder militar e a volta do regime deposto. E do que isso significa.  Por mais restrições que façam à Irmandade Muçulmana e seu apetite exagerado por poder, a derrota de Morsi será desastrosa para todos aqueles que fizeram a revolução em Tahir Square.

Essa percepção irá fatalmente anular os apelos de boicote ou voto em branco, pois seus próprios ativistas estão mudando de posição e pregando o voto em Morsi.

Como o mal menor. Ou a salvação das idéias e do futuro da Primavera Árabe no Egito.

 

 

 

 

 

 

 

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