Gaza: um inquérito pouco independente

Quando Ban-Ki-Mon, Secretário-Geral da ONU, nomeou Álvaro Uribe, ex-Presidente da Colombia, 4º. membro da equipe que investigaria a abordagem pelo exército de Israel do navio que levava suprimentos a Gaza, houve  muitos protestos.

ONGs de vários países fizeram uma série de acusações contra Uribe para demonstrar o absurdo de sua nomeação.
Acusações pesadas.
No seu governo, militares, para ganharem recompensas, assassinaram cerca de 3.000 civís inocentes, apresentando-os como “guerrilheiros mortos em combate”. Foi o chamado “falso positivo”, crime que Uribe deixou passar em brancas nuvens.
Quando se descobriu uma vala comum com cerca de 2.000 corpos, junto a um quartel na cidade de Macarena, Uribe cumprimentou os militares responsáveis pelo feito e criticou as entidades de direitos humanos que revelaram a existência  dessa sepultura em massa.
No começo de sua carreira política, Uribe apoiou as forças paramilitares, responsáveis por assassinatos e expulsão de camponeses de suas terras. Em compensação, criticou severamente o Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos na Colombia, Michael Fruhling, por suas ações em defesa dos direitos humanos e reclamou do trabalho de Philip Alston, que investigava casos de “falsos positivos”.
No exercício da presidência, Uribe supervisionou escutas ilegais nos telefones de membros da Suprema Corte da Colômbia, com a qual teve relações conflituosas.
Nada menos do que 573 sindicalistas foram assassinados nos 8 anos de Uribe no poder, o que levou os congressistas do Partido Democrata dos EUA a bloquearem  todas as tentativas do governo Bush de firmar um Tratado de Livre Comércio Bilateral com a Colômbia.
Com uma folha corrida assim, Uribe está mais para réu do que para juiz. Como observou Willy Meyer, a nomeação de Uribe para julgar eventuais infrações a direitos humanos “é como colocar uma raposa para guardar o galinheiro.” 
Outro aspecto a analisar com respeito à questão é a presunção de imparcialidade. No caso de Uribe, como se verá a seguir, sua existência é prá lá de discutível.
O governo Uribe teve relações muito estreitas com o exército de Israel, que o assessorou em ações de contra insurgência. E a Colômbia foi a maior importadora de armamentos militares israelenses na América Latina.
Daí a homenagem que lhe foi prestada pelo American Jewish Coimittee, que, em 2007, lhe conferiu o prêmio “Light Unto Nations (Luz para as Nações), já que : “.O Presidente Uribe é um firme aliado dos EUA, um bom amigo de Israel e do povo judeu”. Por sua vez, outra organização sionista, o B´nai Brith, galardoou Uribe com a Presidential Gold Medallion for Humanitarism.
Não foi surpresa nenhuma quando Israel, pela primeira vez, declarou aceitar colaborar com uma investigação da ONU sobre suas ações.
O que não dá para saber é quais foram os critérios que Ban-Ki-Mon usou para escolher Uribe .
Ele não se justificou quando foi interpelado por dezenas de ONGs de direitos humanos. Simplesmente, disse que confiava nas qualificações de Uribe.
Assim, Israel entrou de cara com a metade dos membros da Comissão de Investigação a seu favor (Uribe e o embaixador judeu), tendo apenas um contra (o embaixador da Turquia) e outro neutro (Geoffrey Palmer, da Nova Zelândia).
Aí, deu no que deu.
Concluiu-se que os militares israelenses usaram de força “excessiva e irrazoável” mas tinham o direito de abordar o navio para impedir a entrada de armas em Gaza (na verdade, encontraram apenas brinquedos, alimentos, medicamentos,etc). O relatório final recomendava ainda que o governo de Telaviv deplorasse sériamente o incidente. E indenizasse as famílias das vítimas.
Estranhamente, outra comissão de investigação da ONU, esta do conselho de direitos humanos da entidade, chegou a conclusões diferentes. Integrada por 3 especialistas na área- um antigo promotor na acusação de crimes de guerra, um juiz e uma advogada de direitos humanos – assim se expressou quanto à ação dos militares de Israel: “Há uma clara evidencia que apóia o processamento dos seguintes crimes nos termos do artigo 147, da quarta Convenção de Genebra: assassinato doloso; tortura ou tratamento desumano ; causar intencionalmente grande sofrimento ou lesões graves ao corpo ou a saúde.”
“Uma série de violações da lei internacional, inclusive de leis humanitárias internacionais e de direitos humanos, foram cometidas pelas forças israelenses durante a interceptação da frota e a detenção dos passageiros em Israel, antes da deportação.”
A existência de dois relatórios com conclusões antagônicas depõe contra a própria credibilidade da ONU.
Mas a nomeação de alguém tão notoriamente desqualificado quanto Uribe, é bem mais grave, pois depõe contra a imparcialidade de Ba-Ki-Mon.
Pode ser que ele seja inocente, que tenha agido irrefletidamente ou confiado em assessores mal informados, mas, convém lembrar que, como a mulher de Cesar, o Secretário Geral da ONU não pode só ser honesto, tem de parecer, também.
Sem qualquer dúvida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *