Fogo amigo ameaça Gaza.

Gaza está perto de sofrer novo ataque militar.

Não, não será por Israel.

Os autores virão de um país chamado pelos palestinos de “a mãe dos árabes”, por seu histórico de intervenções em defesa desse povo sofrido.

Os militares que governam o Egito informaram na semana passada que estão discutindo planos de invasão do estreito.

Drones  egípcios já o sobrevoaram com o fim de localizar alvos.

O major-general Ahmed Wasty, comandante das forças armadas no Sinai, afirmou que as facções políticas de Gaza estão solapando a autoridade  da Junta  Militar que governa o Egito. Mas que um ataque militar contra elas ainda dependia de uma decisão política.

Ele estava reiterando o que foi dito pelo Ministro do Interior, Nabil Fahmy, em 31 de agosto.

Acusando o Hamas (que governa Gaza) de ser responsável por ações terroristas no Sinai ou por sua incapacidade em conter os agressores, Fahny ameaçou a faixa com “duras retaliações.”

Desde a queda do presidente Morsi, Gaza vem sendo tratada pelos militares egípcios de forma nada amigável.

A fronteira com o Egito foi fechada. É aberta somente em raras ocasiões. Estudantes, dependentes de tratamento médico e homens de negócios, que precisam viajar entre os dois países, ficam seriamente prejudicados.

Os palestinos que chegam pelo aeroporto do Cairo são deportados de volta para o país donde partiram.

A marinha egípcia persegue os pescadores de Gaza, atirando contra seus barcos, tendo em duas ocasiões ferido 5 deles e prendido vários “por razões  de segurança”.

Mas, o mais grave é a destruição de 90% a 95% dos túneis ligando o Egito a Gaza, sob a alegação de que seria o caminho pelo qual entravam terroristas e armas, para a prática de atentados no Sinai.

Era através desses túneis que a faixa recebia alimentos, medicamentos, combustível e material de construção.

Com sua destruição, os preços desses produtos subiram acentuadamente.

Além disso, seu transporte e comercialização garantiam trabalho a milhares de pessoas que agora caíram no desemprego.

Os jornais ligados ao governo do Cairo, influenciados pelos militares, desenvolvem forte campanha anti-Gaza.

A situação fica cada vez mais complicada.

A única usina elétrica de Gaza avisou que se acha em risco de fechamento devido à falta do combustível, que entrava pelos túneis.

Em agosto de 2012, relatório da ONU informou que um terço da população se achava em estado de “insegurança alimentar”. Atualmente, 830 mil pessoas, a metade dos residentes na faixa, depende da alimentação fornecida pela ONU.

Desde antes da queda de Morsi, milicianos supostamente vindos de Gaza são apontados pelos militares como culpados por atentados na região do Sinai.

As guerrilhas que atuam nessa região, que mataram dezenas de soldados e policiais, são vistas pelo governo como aliadas da Irmandade Muçulmana na sua luta para desestabilizar o país.

Os militares dizem que o Hamas é altamente suspeito por sua vinculação à Irmandade Muçulmana e ao governo do deposto Morsi.

Na verdade, tudo isso é duvidoso.

O Hamas, de fato, foi fundado pela Irmandade, mas embora mantendo boas relações com ela, já faz anos que tem uma direção independente.

E Morsi não foi exatamente um benfeitor da faixa de Gaza.

A passagem pela fronteira foi facilitada – houve menos restrições, mas os palestinos continuavam tendo de esperar horas para poderem entrar no Egito.

E foi no período do presidente deposto que os militares começaram a destruir os túneis subterrâneos.

Agora, envolvidos numa luta mortal com a Irmandade Muçulmana, o governo dos generais não hesita em hostilizar todos que, como o Hamas em Gaza, sejam suspeitos de alianças com seus inimigos.

Sua intenção de destituir o Hamas fica evidente quando o acusam, sem provas, de cúmplice nos ataques de milicianos no Sinai.

A ofensiva contra o movimento que governa a faixa se faz também por outras vias.

Mahmoud Abbas líder do Fatah (rival do Hamas) e presidente da Autoridade Palestina, que administra parte da Cisjordânia, participa na pressão.

Ele declarou em agosto que breve terá de comunicar uma “dolorosa decisão”, a qual , segundo os observadores, seria uma qualificação do Hamas como “entidade pária”, ou seja, violadora das leis e dos direitos humanos.

Como Abbas é respeitado no Ocidente, acredita-se que isso implicará em cortes de recursos financeiros fornecidos a Gaza.

Ninguém duvida que Abbas pretende recolocar o Fatah no poder em Gaza, perdido para o Hamas em eleições livres, o que interessa à junta militar egípcia.

A resistência de Gaza a estas manobras militares e políticas está fragilizada pelo seu isolamento no Oriente Médio.

Tendo se manifestado a favor da revolução síria, ela perdeu não só o apoio do Estado sírio, como também do Irã e do Hisbolá, no  Líbano.

Tem contra si os países inimigos da Irmandade Muçulmana: Arábia Saudita, emirados do Golfo, Kuwait e Yemen.

O Qatar, que lhe prestava ajuda financeira, retraiu-se por ter se aliado ao novo governo do Egito.

Só a Turquia continua a seu lado.

A tudo isso se soma o descontentamento crescente da população ante os duros sacrifícios que lhe são impostos pela áspera situação decorrente do bloqueio.

Daí o temor de que uma manifestação, marcada para novembro, no estilo daquelas que ajudaram a derrubar  Morsi, acabe atraindo um volume maciço de participantes.

Ela está sendo organizada por ativistas do Fatah e egípcios com know how adquirido nas ruas e praças do Cairo.

São perspectivas  sombrias para Gaza.

Ataque militar egípcio, avanço político do Fatah e de Abbas, um duro inverno pode estar chegando.

 

 

 

 

 

 

 

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