Famílias das vítimas do atentado das Torres Gêmeas processam Arábia Saudita.

Em 2001, a comissão que investigou o atentado de 11 de setembro concluiu que a al-Qaeda fora a única responsável pelo crime.

Misteriosamente, 28 páginas do relatório da comissão foram declaradas sigilosas.

Para as famílias dos 850 mortos e 1.500 feridos no crime terrorista, as 28 páginas teriam sido ocultas por conterem evidências contra a Arábia Saudita. E as famílias batalharam pela sua publicação durante 15 anos.

Finalmente, em 2016, o governo Obama as atendeu.

Paralelamente fora aprovada no Congresso o Ato Contra os Patrocinadores do Terrorismo (JASTA), que permitia o processo em tribunais americanos de estrangeiros implicados em ações terroristas.

Obama o havia vetado, alegando que abriria um precedente perigoso. Outros países poderiam promulgar uma lei semelhante. E assim processar, em seus próprios tribunais, cidadãos americanos. O então presidente temia que militares ou funcionários americanos, entre os muitos milhares envolvidos em programas de ajuda externa, acabassem povoando os bancos dos réus de tribunais estrangeiros.

Mas os parlamentares derrubaram o veto presidencial e o JASTA tornou-se lei.

Graças ao JASTA, as famílias das vítimas do atentado das Torres Gêmeas, puderam processar a Arábia Saudita com base em revelações contidas nas 28 páginas.

O processo alega que 9 organizações sauditas, ligadas ao governo do rei, dirigiam campos de treinamento de terroristas no Afeganistão, trabalhando com Osama Bin Laden, o responsável pelos ataques de 11 de setembro. O governo de Riadh foi ainda acusado de apoio direto aos terroristas, fornecendo a eles passaportes e transporte nos EUA. Por fim, implicava-se também vários funcionários sauditas por terem auxiliado os dois autores do atentado, 18 meses antes de sua realização.

As evidências apresentadas parecem poderosas.

Quatro dos cinco funcionários sauditas investigados mantiveram relações com os terroristas. Dois os ajudaram comprovadamente.

Quatro deles seriam oficiais da inteligência saudita, ocupando cargos no governo ou em empresas afiliadas como cobertura.

Dois foram financiados diretamente pelo embaixador saudita nos EUA, o príncipe Bandar, e sua esposa.

Dois dos funcionários suspeitos: Omar al-Bayoumi e Osama Bassman- tiveram sério envolvimento na conspiração do 11 de setembro.

Diz o relatório da comissão que investigou o atentado: Bayoumi “forneceu assistência substancial a Khalid al-Midhar e Nawaf al-Hazmi (os sequestradores do avião), desde a chegada dos mesmos em San Diego”.

E mais adiante: ”eles ficaram no apartamento de Bayoumi diversos dias até que (Bayoumi) descobriu um apartamento para eles. ” Bayoumi então co- assinou o contrato de aluguel.

Relatórios do FBI, de 1999, sustentam que Bayoumi era um oficial da inteligência saudita.

Em 2000 (um ano antes dos ataques), Bayoumi fez 100 chamadas telefônicas a diversas entidades sauditas e manteve vários contatos com sua embaixada e com o consulado em Los Angeles.

Em 2000, ele trabalhou em empresa, filiada ao ministério da Defesa saudita, com ligações a Osama bin Laden. “De acordo com arquivos do FBI (palavra borrada) na empresa informou que Bayoumi compareceu ao trabalho apenas uma vez, mas recebia salários mensalmente, que aumentaram muito em abril de 2000, dois meses depois dos terroristas chegarem em San Diego. Ele continuou recebendo salários, sem trabalhar na empresa, até agosto de 2001 (um mês antes do atentado).

Diz relatório do FBI: Omar Bassnan apoiador de bin Laden e do planejador do terror em New York, Osama Abdel-Rahman, era parceiro de Bayoumi e operador da inteligência saudita, conforme[i] informantes infiltrados na comunidade islâmica.

De acordo com memorando da CIA, Bassnan recebeu fundos e possivelmente passaporte falso de autoridades do governo real.

Pode parecer estranho que a Arábia Saudita, aliada dos EUA e inimiga da al Qaeda, tenha ajudado bin Laden no terrível ataque às Torres Gêmeas.

Mas nem tanto.

A Arábia Saudita e a al Qaeda são seguidores do wahabismo, a mais retrógada, conservadora e radical seita do islamismo.

Em 1979, o reino fez um acordo com os wahabitas: forneceria bilhões para a construção de mesquitas e madrassas (escolas) da seita. Em troca as ações dos grupos de militantes só se realizariam no estrangeiro.

O acordo foi cumprido.

As construções religiosas wahabitas se espalharam pelo mundo e as vastas somas enviadas pelos sauditas acabaram sendo usadas também para fins terroristas conforme três testemunhos insuspeitos:

– Hiillary Clinto, quando secretária do Estado: “Doadores na Arábia Saudita constituem a mais significativa fonte de recursos dos grupos terroristas sunitas (o wahabismo é uma corrente sunita) em too o mundo (Wikkileaks) ”;

– Em julho de 2003, o wahabismo foi identificado pelo Parlamento Europeu como a principal fonte de terrorismo global;

– O Departamento de Estado dos EUA calculou que, nas quatro últimas décadas, o governo de Riadh aplicou 10 bilhões de dólares em instituições com o fim de divulgar o wahabismo. Experts da inteligência americana estimam que de 15% a 20% foram desviados para a al Qaeda e outros movimentos jihadistas.

Claro, há uma diferença entre as crenças dos príncipes da Arábia Saudita e as da al Qaeda, que é um grupo furiosamente radial, o que os sauditas não são.

Na época do atentado, bin Laden tinha muitos amigos no reino, wahabitas como ela. Provavelmente, vários infiltrados em posições importantes. Como o príncipe Bandar, por exemplo, o embaixador nos EUA apontado nas 28 páginas do relatório da investigação como colaborador na trama do 11 de setembro.

Nomeado posteriormente para chefiar a inteligência saudita, Bandar a liderou no combate ao Irã, ao governo xiita, do Iraque, e ao governo Assad, da Síria.

Na Síria,  foi o mentor do envio de armamentos às forças rebeldes, especialmente ao Nussra, filial da Al Qaeda.

Zacarias Moussaoui, que serviu como correio entre bin Laden e um príncipe saudita, declarou ao juiz George B. Daniels que membros da família real, inclusive o príncipe Bandar, doaram recursos à al Qaeda, até para o atentado de 11 de setembro.

Embora excluindo a responsabilidade do governo saudita, não se pode negar que, entre a al Qaeda e funcionários, agentes e mesmo figuras de relevo do reino havia um bom entendimento, solidamente ancorado na fé wahabita que compartilhavam.

Acho possível que as partes se unissem para vibrar um golpe devastador contra os infiéis.

É no que as famílias das vítimas do 11 de setembro acreditam.

Vamos ver se a justiça americana concordará com elas.

 

1 pensou em “Famílias das vítimas do atentado das Torres Gêmeas processam Arábia Saudita.

  1. Belo trabalho. O mundo precisa de gente para denunciar essa relação, digamos ambivalente, entre os “amigos” judeus (ricos e radicais) dos EUA e os “amigos” (ricos e radicais) islamistas dos EUA. Nada se fala sobre a participação terrorista da Arábia Saudita na nossa imprensa, assim como não se fala do Complexo de Estocolmo que Israel está cada vez mais assumindo: oprimir tudo que o foi como foi oprimido. Um amigo (nem me lembro o nome, falou: o ser humano não deu certo. Também acho.

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